Cultura

BTS e a vergonha do que me faz feliz

A escritora Jarid Arraes conta como o encanto pelo grupo de k-pop mexeu com ela durante a pandemia.

Ilustração: Gustavo Balducci

Grupo BTS durante o evento na ONU em fundo roxo

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A pandemia não nos trouxe qualquer coisa boa. Não sou dessas que busca um lado positivo nas coisas ruins, sobretudo quando a coisa ruim já matou meio milhão de pessoas. Mas o que eu busco, quando momentos terríveis chegam, é conseguir responder: existe algo que ainda me faça feliz?

Não a felicidade idealizada que muitos definem como longa, duradoura ou impossível de ser interrompida. Mas a felicidade das coisas que fazem sorrir. O que ainda pulsa dentro de mim, se comove, se movimenta e, de alguma forma, me ajuda na construção de significado para a minha vida.

Estou em isolamento desde 11 de março de 2020. Faço parte do grupo de risco e, no ano passado, enquanto a situação pandêmica piorava, eu estava no meio de um tratamento contra câncer. Vivi um verdadeiro isolamento dentro do isolamento, enfrentei sozinha as idas ao hospital, únicos dias em que saí de casa, mas tive a imensa sorte de ter encontrado algo que manteve meu sorriso e me trouxe alegria: um grupo de sete jovens homens coreanos que fazem música, dançam e apresentam performances inacreditáveis.

O BTS entrou na minha vida em sua segunda tentativa. Na primeira, há alguns anos, eu não tive tempo de ir além de um vídeo no YouTube. Mas em 2020, com o hit Dynamite, o grupo trouxe de volta ao meu corpo a capacidade de se apaixonar profundamente por algo. Meu estado letárgico, o desinteresse por tudo, os sintomas da pandemia, tudo isso se desmanchava em minúsculas partículas sempre que eu dava play.

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Motivada pelo meu crescente interesse pelas culturas asiáticas, principalmente a coreana, passei a estudar uma língua nova com disciplina, com todo um alfabeto novo, de modo que não fazia há mais de uma década. Além da língua coreana, voltei a sentir prazer em conhecer comidas novas, descobrir novos estilos musicais, planejar viagens. Mais do que isso, presa em casa, comecei a criar novos hábitos que jamais pensei que conseguiria cultivar. A positividade trazida pelo BTS foi tão influente em minha vida que despertei uma prática de autocuidado um tanto quanto inédita; até mesmo garantindo tempo para meu descanso depois de um dia de trabalho.

Esse crédito não é só meu: o grupo possui um forte discurso de autoexpressão e amor-próprio que estimula seus fãs a saírem da inércia e do silêncio. Convidados pela ONU, fizeram campanhas como embaixadores, falando sobre as dificuldades da pandemia, sobre como lidar com esses momentos difíceis, estimulando os jovens a espalhar gentileza e continuar sonhando. Podemos concordar que essas mensagens não possuem limite de faixa etária.

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Porém, junto com o BTS, também percebi o alarme da vergonha. Talvez algo mais pesado do que as pessoas chamam de "guilty pleasure", aquela coisinha que você gosta, mas acha que não deveria gostar. Existe muita gente intencionada a constranger e humilhar pessoas adultas que gostam do grupo. Claro, há quem sinta ódio gratuito por qualquer coisa que faça sucesso, mas é evidente que há uma grande influência de xenofobia, racismo e até machismo. Esse tópico é um tanto complexo e pede uma elaboração maior, pois o preconceito inibe também os fãs homens e atinge diversas outras esferas da arte. Essa grande combinação é uma receita potente para ridicularizar quem gosta, e funciona.

Eu mesma também já passei por situações parecidas. Fui quase interrogada, durante um evento literário, por ter dito que a Lady Gaga me inspira na escrita. Três homens mais ou menos da idade do meu avô estavam muito indignados. Que tipo de escritora é essa? Como alguém quer fazer parte desse mundo supostamente tão intelectual da literatura e, quando perguntada sobre suas influências literárias, não desenrola um grande papiro de autores canônicos como inspirações? Imaginem só se eles soubessem que agora o BTS também me influencia literariamente.

Já perdi a conta de quantas pessoas adultas, principalmente mulheres, me escreveram dizendo que foram ridicularizadas por amigos e familiares por gostarem do BTS. Ao mesmo tempo, muitas também compartilharam o impacto positivo do BTS em suas vidas.

Num momento tão terrível como esse que estamos passando, não é triste que tenhamos que esconder, independentemente do que seja, aquilo que torna o dia a dia um pouco mais leve e possível?

Disse então e gosto de repetir: não me envergonho do que me inspira e me traz alegria. E desejo que você também sinta o mesmo.

Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 12 de Fevereiro de 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora do premiado "Redemoinho em dia quente", vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional, do APCA de Literatura na Categoria Contos e finalista do Prêmio Jabuti. Jarid também é autora dos livros "Um buraco com meu nome", "As Lendas de Dandara" e "Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis". Atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres e tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel.

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