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"O Brasil é um ímã. Estamos falando de um país que se fez multicultural, o que é muito cativante, mas também torna muito mais fácil se desligar das questões estéticas da sua ascendência", diz Bruno Bou Haya, de 29 anos. Para o fotógrafo carioca, descendente de libaneses, a fotografia é uma desculpa para se relacionar com quem é fotografado. Essa ideia que norteia seu trabalho tornou ainda mais profundo o processo de feitura do seu livro Deus também descansa – isso porque, desta vez, o personagens eram sua família e a história a ser contada era também a dele.

Em 2017, a comunidade libanesa no Brasil era três vezes maior do que a população do Líbano. Hoje, com o aumento de habitantes do Líbano, os números se aproximam, mas a comparação ainda é extraordinária. A história da família de Bruno é comum: como reflexo indireto da guerra no país de origem, seus avós vieram em 1948 para o Brasil. Passaram alguns anos no Rio de Janeiro e, depois, foram morar no Rio Grande do Sul. Anos mais tarde, retornaram à capital carioca, onde Bruno nasceu e cresceu. "Meus avós vieram como mascates, que é o nome próprio dessa comunidade para quem vai de porta em porta vendendo produtos, tanto comida quanto roupas. Depois, juntando dinheiro, tiveram uma loja no centro do Rio de Janeiro, no Saara, região que leva esse nome por causa da presença dessa comunidade", conta Haya. "Eu tinha o interesse de contar a história dessa comunidade libanesa imigrante partindo da minha família, porque a história da minha família é representativa de milhares de pessoas."

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Imigrantes no porto: "A história de minha família é representativa de milhares de pessoas", diz Haya.Foto: Álbum de família

O livro, disponível para compra diretamente com o autor, se apoia nessa equação entre o privado e o coletivo, os laços familiares e a sociedade libanesa, e faz do ordinário seu maior trunfo. Quando Bruno nasceu, seus avós já tinham falecido, no entanto, a memória do Líbano permaneceu latente. "A minha família sempre olhou para o Líbano com muito respeito, carinho e admiração, mas eu não tinha certeza se isso era só saudosismo. Eles não tinham como falar de maneira imparcial, sabe?", comenta. Com a curiosidade aguçada, ele aproveitou a efeméride dos 70 anos da vinda dos avós ao Brasil e, junto com a mãe, foi ao Líbano.

A viagem, feita em 2019, durou 13 dias e foi desde lugares turísticos à aldeia em que sua família ainda vive. Ficaram hospedados na casa que foi construída pelo seu avô, retratada em algumas páginas com tom caloroso e sereno. Bruno encontrou sua tia-avó de segundo grau, que se tornou sua avó de consideração, um presente do Líbano. "A capa e a contracapa dizem muito sobre o livro ser essa conversa espiritual com meus avós e com a comunidade libanesa: enquanto na frente há um local público, no verso há uma parte da casa da minha tia. Mas isso pode ser lido também como a guerra e a reconstrução, que é a história do Líbano também", reflete Haya.

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O livro Deus também descansa.Foto: Bruno Bou Haya


Edificação no Líbano.Foto: Bruno Bou


Guerra e reconstrução são parte da história do país.Foto: Bruno Bou Haya

"Eu me encantei. Não tem dúvida de que é uma terra santa. Quando você vai para lá, você sente", diz. "Mas, ao mesmo tempo, este país passou por tantas coisas, tantas provações, tem tantos defeitos, que eu procurei criar um ambiente que desse margem a esses dois lados. Deus também descansa seria o momento em que nós, humanos, levaríamos essa terra virtuosa para outro lado. Eu quis tratar esse assunto da maneira mais respeitosa possível, até porque a minha família é bem religiosa e eu não queria ofendê-los. Assim, no primeiro momento, quando as pessoas leem Deus também descansa o que fica é a passagem bíblica mesmo, que também soma o significado."

A jornada do fotógrafo para entender esse outro país, que também é seu, deixou-o mais confortável para lidar com assuntos complicados que permeiam a sociedade libanesa. Por exemplo, a transversalidade da religião em um país em que a política é diretamente impactada pelas crenças espirituais da maior parte da população. O livro traz uma página dupla de uma mesquita e também uma foto de um carro estacionado ao lado de um enorme retrato de uma santa católica, cena que Bruno fotografou na aldeia na qual sua família vive. O dourado é a cor predominante no projeto gráfico: nem pelo Alcorão nem pela Bíblia, mas por ambos. "É pelo sagrado", diz Haya, "A gente costuma olhar religião mais pelas divergências do que pelas convergências. Quis propor outro olhar. É sobre essa constatação dos vícios e virtudes dessa terra. Busco tratar isso de maneira menos moralista e mais admiradora possível."

Fiel no tapete em uma mesquita.Foto: Bruno Bou Haya


Santa católica fotografada na aldeia onde vive a família de Haya no Líbano.Foto: Bruno Bou Haya

Bruno conta que as fotos foram feitas nos momentos em que sua mãe, companheira de viagem, descansava. "Minha mãe é uma senhora de 68 anos. Quando ela sentava para descansar, eu ia para um lugar, espaços que circundavam onde ela estava", relata. "É até legal pensar o título dessa forma, nunca tinha me dado conta", surpreende-se.

Bruno fotografou por 13 dias e depois debruçou-se ao longo de um ano e meio para montar o livro, processo que ele descreve como uma espécie de maratona. Ajudou na missão a experiência prévia do autor com Todo seu Caymmi, livro artesanal que produziu em 2018 – nessa publicação, Haya imprimia as imagens em casa, dobrava as páginas, costurava cada livro.

Deus também descansa começa com paisagens, corre por retratos e fotos pessoais da família de Haya e se encerra com novas paisagens, que muitas vezes dialogam com as fotografias do início. "Por mais que tenha muitas paisagens no livro, não é uma paisagem com a finalidade da ode à beleza, tem um tom mais reflexivo. Em muitos lugares, é uma paisagem vazia, sem ninguém, quase como uma conversa com meus ancestrais", conta. "São outras vidas, não somente no plano espiritual, que eu vejo nessas fotografias bucólicas."

As fotos de paisagens do livro vão além do mero registro: "É quase como uma conversa com meus ancestrais", define o autor.Foto: Bruno Bou Haya

O fotógrafo já contabilizava um ano de madrugadas viradas dedicando-se à direção de arte do livro quando houve a explosão do porto de Beirute. "Eu me senti muito perturbado e impotente", desabafa, "Tinha acabado de sair de lá, sabendo de tudo que aquele porto significa, visitando e fotografando esses lugares. Naquele momento ficou muito evidente e ainda mais estreita essa relação Brasil e Líbano, esse laço transatlântico." A inquietação aumentou o sentimento de urgência para apresentar o projeto: o livro precisava se materializar. Enviou a proposta para a editora Vento Leste por email e torceu para dar certo. Recebeu a notícia de que o projeto havia sido aprovado quando estava a caminho do velório de sua madrinha, Eloisa, com quem sempre teve uma grande afinidade artística e de quem herdou as câmeras fotográficos. A dedicatória do livro é escrita para ela e para a mãe de Bruno, Laiz.

"O livro vai meu nome, mas não teria sido possível sem a minha mãe, tanto pelas questões cotidianas quanto pelas afetivas. Ela me ajudou muito a tratar das diferenças culturais, a gente fez uma grande pesquisa juntos e ela foi fundamental na hora de escolher as imagens de arquivo. Minha mãe foi minha produtora do livro e minha madrinha, no final das contas, fecha essa conversa espiritual."

Esse olhar cuidadoso de Bruno para com o mundo também está presente no novo projeto do fotógrafo que está em andamento e já tem uma parte disponível online: Canudos 120 anos. Trata-se de uma série de retratos das pessoas de uma ocupação do MTST, em São Bernardo do Campo, em que o fotógrafo faz um paralelo com a Guerra de Canudos, no final do século 19, na Bahia. "Percebo de forma muito evidente como o surgimento da República cria Canudos e, mais de 120 anos depois da proclamação da República, esse problema se mantém. São as mesmas pessoas. São as mesmas conversas", compara. "Elas estão lutando por uma melhoria de vida. A série busca essa empatia das pessoas."

Para Haya, a fotografia é também um sentimento irremediável do presente e um espaço para se investigar qual é o mundo em que desejamos viver. "O poder da fotografia é ser uma intersecção entre os saberes, as pessoas, a partir dos diálogos", diz Bruno. "E, por isso, não deixa de ser um refúgio para muitas pessoas, inclusive para mim", completa.


Prestes a completar 50 anos de carreira, o fotógrafo discute os impactos da pandemia, reflete sobre aposentadoria e relembra a inundação que atingiu seu acervo em fevereiro: "Renasceram coisas que estavam mortas".


Milena Paulina, a artista por trás do perfil @olhardepaulina_ , trabalha para normalizar o corpo feminino ao subverter duas ferramentas que, por tanto tempo, se combinavam para oprimi-lo: a fotografia e o nu.


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