Jean Smart e Hannah Einbinder falam sobre o fim de Hacks

A série que ganhou 12 Emmys chega à sua temporada final.


Hacks
Hannah Einbinder e Jean Smart em cena da quinta temporada da série. Foto: Divulgação



Tudo o que é bom termina, infelizmente. Vencedora de 12 Emmys, Hacks chega à sua última temporada nesta quinta-feira (09.04), na HBO e HBO Max, com dez episódios semanais. 

A série tem como protagonista Jean Smart, vencedora de quatro Emmys pelo papel de Deborah Vance, uma comediante veterana e rica que contrata a jovem roteirista Ava (Hannah Einbinder, também ganhadora do Emmy) para rejuvenescer seus stand-ups e sua carreira em geral. 

As duas navegaram por diferenças geracionais, etarismo, machismo e as transformações de Hollywood ao longo de quatro temporadas. No processo, entre altos e baixos, a relação profissional tornou-se uma amizade profunda.

Na última temporada, Deborah e Ava passaram boa parte do tempo separadas ou brigadas, com a comediante sendo alvo de um processo do conglomerado de mídia em que fazia seu talk show noturno que a impede de trabalhar e de fake news sobre sua morte.

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As duas se unem para recuperar seu legado, e é esse o grande mote dos dez episódios finais. “Quando Deborah se depara com a cobertura jornalística de sua morte e com a distorção de seu legado, isso realmente a faz refletir: ‘Ok, se é isso que estão dizendo, o que eu quero que falem sobre mim? E como quero ser apresentada ao mundo da próxima vez que isso acontecer?’”, disse Lucia Aniello, criadora da série ao lado de Jen Statsky e Paul W. Downs (que também interpreta Jimmy, o agente de Deborah e Ava). 

Aos 74 anos de idade, Jean é um exemplo em uma indústria que se abriu um pouco para as mulheres mais velhas, especialmente na televisão. Seu primeiro Emmy veio quando ela já tinha quase 50 anos de idade (por Fraser, em 2000). Mesmo fazendo constantemente bons papeis, em 24 horas (2001-2010), por exemplo, ela virou presença constante na telinha a partir de Fargo (2014-24). De lá para cá, brilhou em papeis principais e secundários em Legião (2017-2019), Watchmen (2019) e Mare of Easttown (2021), antes de virar uma unanimidade em Hacks, vencendo o Emmy em todas as temporadas.

Em uma entrevista com a participação da ELLE, regada por muitos risos e lágrimas, os criadores, Jean e Hannah falaram sobre a quinta temporada e como foi a despedida de Hacks.

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Jean e Hannah em cena da nova temporada. Foto: Divulgação

O quinto ano de Hacks

Jean Smart: “A quarta temporada ficou um pouco sombria, mas tudo bem, acho que tínhamos conquistado esse direito. Estava preocupada que as pessoas me odiassem, mas acho que, como todos se importavam muito com o relacionamento de Deborah e Ava, era como se estivessem dispostos a ir a qualquer lugar conosco, o que foi realmente maravilhoso. Mas, na quinta temporada, podemos voltar a ser totalmente bobas, o que é muito divertido.”

Hannah Einbinder: “Foi legal também estarmos mais juntas do que na temporada anterior. Sempre fico muito empolgada com as oportunidades e os desafios que me apresentam, tanto no âmbito dramático quanto cômico. Sei que serei levada a um novo patamar em termos de atuação, e isso é revigorante, empolgante e simplesmente a melhor sensação que um artista pode ter.”

“Nunca fui a mocinha, graças a Deus. Porque eu estaria muito infeliz agora se tivesse sido só uma mulher ingênua” Jean Smart

Etarismo

Jean: “Sou eternamente grata pelos papéis que tive na última década. Acho que as coisas começaram a mudar para mim quando fiz 24 Horas e interpretei a primeira-dama dos Estados Unidos Martha Logan. Nunca fui a mocinha, graças a Deus. Porque eu estaria muito infeliz agora se tivesse sido só uma mulher ingênua. Mesmo no ensino médio, sempre interpretava a mãe na peça da escola. Talvez pela altura, pela voz grave, não sei.”

Hannah: “Ou pelo fato de você ser tão maternal?”

Jean: “Mas hoje existem papéis mais interessantes para mulheres que não têm 25 anos. Os homens ainda dominam todos os filmes, sempre tem uns 10 para cada mulher, mas antigamente só escreviam histórias sobre eles porque era quem estava fazendo coisas. As mulheres, não. E logo começaram a perceber que algumas sempre estiveram por aí, agindo, pensando, e começaram a escrever personagens femininas mais incomuns, rebeldes, à frente do seu tempo. Agora estão percebendo que as mais velhas podem ser tão complexas quanto as de 30 anos, que podem ter o mesmo tipo de vida e desejos.”

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As protagonistas. Foto: Divulgação

Hacks como reflexo da indústria

Jean: “Estamos passando por um momento muito estranho e turbulento em nossa indústria, onde grandes corporações estão realmente assumindo o controle e dando as cartas, e isso é meio assustador. Tenho um sócio produtor. Estávamos conversando sobre um projeto e tivemos que parar e pensar: ‘Será que isso vai ser bem recebido pelos poderosos mais conservadores?’. É uma época esquisita. Deborah reflete isso. Ela é levada ao limite, se joga, e há momentos em que se sente derrotada.”

Paul W. Downs: “Sempre queremos refletir sobre o que está acontecendo na cultura, em nossas vidas. E nos orgulhamos muito de não subestimar a plataforma que temos e de querer falar sobre o que está acontecendo. Sua mente está aberta quando você está rindo. É possível mudar seu ponto de vista. E essa tem sido uma das belezas de fazer a série: como temos duas pessoas com perspectivas diferentes, que vêm de gerações diferentes, conseguimos explorar as coisas de uma maneira que esperamos que seja muito equilibrada e que, no fim das contas, chegue ao ponto que esperamos que o público sinta. E, muitas vezes, deixamos que ele tome a decisão. Obviamente, com a história da IA, temos uma visão muito específica.”

“Hoje existem papéis mais interessantes para mulheres que não têm 25 anos” Jean Smart

IA em Hollywood

Jen Statsky: “Fizemos um episódio que reflete o que pensamos. Existe uma pressão enorme da tecnologia para otimizar cada aspecto das nossas vidas. Você pode fazer tal coisa melhor, dormir melhor, andar melhor, pensar melhor… Mas a que custo? Até que ponto estamos dispostos a ir? Você não precisa otimizar tudo, porque a perseverança e a luta fazem parte do processo criativo. É o que torna as coisas boas. É o que torna as coisas humanas. E essa ideia de que podemos constantemente pressionar para tornar tudo cada vez mais fácil… Quem se beneficia com isso? Quem vai ganhar dinheiro. Não beneficia o artista, o produto e a arte de contar histórias.” 

Jean: “Além disso, as pessoas estão sendo treinadas para nunca acreditarem em tudo que veem ou ouvem. As consequências são assustadoras. Como mãe, ao longo dos anos, tenho me preocupado com o fato de as crianças estarem o tempo todo em frente às telas. E li algo meio perturbador. Quando você lê um livro, sua mente imagina o que você acabou de ler. Mas, se a imagem está ali na sua frente, em uma tela, sua mente não precisa fazer esse esforço. E essa parte do cérebro onde fica a nossa imaginação está ficando menor. É aterrorizante.”

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Megan Stalter e Paul W Downs em cena da nova temporada. Foto: Divulgação

O fim

Paul: “É como uma síntese do que nos propusemos discutir com Hacks: qual é o seu legado? Porque nós também estamos deixando a série como legado e estamos pensando nisso para nós mesmos e para os personagens”.

Jean: “Nunca perguntei a eles como a série terminaria. Queria ser surpreendida. Quando me falaram pela primeira vez sobre como ia terminar, fiquei surpresa, não tinha certeza se estava realmente feliz, mas disse: ‘Confio em vocês’. Agora acho um final perfeito.”

A despedida

Jean: “A ficha foi caindo conforme a temporada avançava, quando começamos a finalizar certos cenários: ‘Ok, as filmagens do quarto da Deborah terminaram’. Pensei: ‘Nunca mais vamos dormir nesse quarto?’. E depois, as da cozinha foram concluídas. Fiquei tipo: ‘Meu Deus!’. Eles me deixaram pegar pequenas lembrancinhas de cada cenário. Também tem a tristeza de saber que não vou mais estar com a nossa equipe. E me dei conta de que também vou sentir falta da Deborah.”

Hannah: “As personagens parecem pessoas reais para nós, sabe? Eu guardei muitas roupas da Ava. É como se fosse: essa é a camisa da minha amiga. Como se fosse de alguém que…”

Jean: “Morreu…”

O que diria à sua personagem

Jean: “Diria para Deborah: ‘Nunca, jamais pense que o que você decidiu é absoluto. Há muito menos absolutos na vida do que você imagina e esteja sempre, sempre, sempre, sempre aberta à mudança’.”

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Jean na série. Foto: Divulgação

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