Lázaro Ramos estreia na direção de longas com “Medida provisória”

"Esse é o filme brasileiro com mais pessoas pretas atrás e na frente das câmeras da história", diz o ator sobre a produção com Taís Araújo, Alfred Enoch e Seu Jorge.


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Dirigir o longa-metragem baseado na peça Namíbia não, de Aldri Anunciação, não estava exatamente nos planos de Lázaro Ramos. Mas ele acabou abraçando Medida provisória, que se tornou sua estreia na direção de longas-metragens, com a história do casal Capitu (Taís Araújo) e Antônio (Alfred Enoch, da série Harry Potter e How to get away with murder) e o primo dele, André (Seu Jorge). Os três vivem em um Brasil distópico em que o governo combate a luta pelas reparações históricas pela escravização no passado com uma deportação obrigatória para a África, gerando uma perseguição às pessoas negras.

O filme, que chega nesta quinta-feira (14.04) aos cinemas, começou a ser feito em 2014 e, desde então, a discussão sobre o racismo ganhou mais força e também gerou mais reação. Lázaro espera que seu filme ajude a contribuir para o debate de maneira saudável. “Tenho o desejo de que a gente possa falar nessas temáticas sem ser nas crises”, diz à ELLE. “Não era para precisar ter a morte do George Floyd para a discussão ganhar essa proporção. Deveria estar nas conversas diárias do que é o projeto de nação da gente.” O ator, que deixou a Rede Globo por um acordo de exclusividade com o Amazon Prime Video no ano passado, vai poder tocar lá projetos pessoais e inclusivos, atuando em diferentes funções. O primeiro filme como diretor pela plataforma de streaming, Um ano inesquecível – Outono, é um musical e faz parte de uma antologia. Lázaro conversou com a ELLE:


Medida Provisória | Trailer Oficial

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É sua estreia na direção. Qual a motivação de contar especificamente essa história?

O texto do Aldri Anunciação lá de 2011 era tratado como teatro do absurdo. E eu, por ser um ator que, ao longo da minha trajetória, tive a possibilidade de falar da luta antirracista e do pensamento da formação da nossa identidade várias vezes, em tons distintos, comecei a entender que, para a gente sensibilizar as pessoas sobre esses vários assuntos, era importante variar o tom. E o tom que essa distopia proporciona me agrada muito em vários sentidos. Por exemplo, começa como uma comédia em que a gente não percebe que o terror vai se instalar. Depois passa para um thriller e no fim chega ao drama, que vai gerar o envolvimento emocional, para as pessoas irem para casa se sentindo convocadas e parte dessa luta.

Ao mesmo tempo que há mais pessoas na luta antirracista, parece haver uma reação grande de certos setores da sociedade contra essa luta, não?
É uma temática de conflito. Mas ao mesmo tempo é necessária porque a gente não discutiu da maneira como precisa discutir. E a gente ainda precisa avançar muito no quesito justiça social e na luta antirracista, no reconhecimento da nossa identidade e da identidade diversa e plural que nós somos, e não pensar em uma identidade que tem um padrão a ser seguido. Essa é uma questão latente. E existe uma resistência porque, quando você vai mexer nessas pecinhas, vai tirar as pessoas do seu conforto, vai desassossegar. Mas isso é necessário. Não dá muito para ser diferente, não. Não dá muito para silenciar sobre essas questões. Isso é reconhecer quem nós somos e ajudar na construção dos próximos passos do nosso país. Para mim, não tem outro caminho, não.

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Lázaro à frente do elenco do filme: Taís Araújo, Mariana Xavier, Alfred Enoch, Renata Sorrah e Adriana Esteves.Foto: Divulgação/Pedro Napolinario


O filme foi afetado pelo governo Bolsonaro?
Mais ou menos um ano e meio atrás, houve um membro do governo dele que puxou um boicote ao filme, sem ter assistido, falando que foi feito para falar mal do Messias. E depois a Ancine ficou travando uma assinatura para trocar a distribuidora. Essa assinatura veio depois. Essas são coisas mais práticas que aconteceram.

Nesse sentido, então, há uma aproximação com o que aconteceu com Marighella, dirigido pelo Wagner Moura.
Por motivos, conteúdos, estratégias narrativas e com temáticas diferentes, mas são filmes que trazem desassossego. No caso do Medida, traz um espelho do nosso tempo – e que foi involuntário. O filme que foi escrito lá em 2015 era para falar de coisas que a gente não gostaria que acontecessem no nosso futuro, para ser um alerta. Várias dessas coisas aconteceram, quase tornando-o um filme de época. Essa não é a responsabilidade da ficção, dos artistas que fizeram o filme. Essa é a responsabilidade da própria realidade. E já que o filme virou um espelho, que ele seja uma provocação para a gente pensar nos nossos novos planos de convivência comunitária, porque ela é inevitável.

Como foi que você chegou ao Alfred Enoch para fazer um personagem que talvez fosse seu?
É a segunda pessoa que me fala isso! Nunca pensei em fazer o filme como ator. Os personagens são incríveis. Eu, assistindo, vibrava pela conquista deles. Escolhi o Alfred primeiro porque eu sabia que essa história tinha possibilidade de uma comunicação internacional, como de fato tem. A trajetória do filme nos festivais é linda. Ele vai estrear na Inglaterra também. E o Alfred traz características como ator que são importantes para o personagem: uma nobreza, uma leveza, um olhar idealista. E eu vi uma entrevista em que ele falava que queria muito investigar a origem brasileira dele (a mãe do ator é brasileira). E ele faz um personagem que grita: “Este país aqui também é meu”. Acho perfeito. Aliás, a escalação do elenco ajuda muito a trazer um aspecto importante para esse filme: porque ele traz as dores, mas que eu queria que tivesse mais complexidade de mostrar a existência dessas pessoas pretas. Tanto é que, se você me perguntar minha cena preferida, é quando eles estão dançando no apartamento, ouvindo Elza Soares e celebrando a vida. Eu achava importante também ter isso.

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Alfred Enoch, Taís Araújo e Seu Jorge em cena de Medida provisóriaFoto: Divulgação/Mariana Vianna


Os realizadores negros americanos falam muito disso, do “black joy”, da alegria negra e do negro. Sendo um realizador negro, não teria como faltar.
Não. E isso está espalhado por várias partes do filme. A trilha, a cenografia. Isso foi possível graças a essa equipe. Esse é o filme brasileiro com mais pessoas pretas atrás e na frente das câmeras da história. Não acho que isso seja exatamente uma coisa para ser celebrada, mas eu quero pontuar que essa identidade que o filme tem é por causa desses profissionais também, que foram estimulados por mim e que trouxeram uma contribuição que vai para além de fazer um cenário, um figurino e uma música. Vai para uma coisa de afirmar sua identidade e sua existência.

Algo muito presente no filme é mostrar individualidades das pessoas negras. Isso era importante para você?
Muito. Claro que a gente compartilha dores, questões identitárias, culturais. Mas a gente também tem direito à individualidade. E na dramaturgia às vezes é difícil contar isso. Principalmente com assuntos que estavam represados. Foi um grande desafio, mas algumas ideias foram ajudando que isso se realizasse. Por exemplo, de não ter figuração no núcleo de resistência, no afrobunker. São todos atrizes e atores, que vão dar uma personalidade diferente para cada pessoa. Não somos uma massa uniforme.

Como foi dirigir sua mulher, Taís Araújo, no seu primeiro longa?
Eu tive o privilégio de dirigir Taís três vezes: em O topo da montanha, Falas negras e Medida provisória. E cada vez a gente adquiriu mais confiança um no outro, mais admiração. Eu admiro muito o jeito de Taís trabalhar. Como ela se porta em cena, como ela se porta no set, mantendo o ambiente de trabalho sempre saudável, sempre alegre. O jeito que ela consegue ser passional e técnica ao mesmo tempo, e isso é uma coisa rara. E a gente resolve as coisas muito rapidamente. No set, viam a gente debater uma cena e achavam até que era briga. Porque a gente fala, fala, fala, resolve, já faz a cena e não é mais assunto. Só é possível por causa dessa intimidade que a gente conquistou.

“Tem dias que entrar no direct do Instagram é algo sofrido para mim, porque as pessoas compartilham essas histórias.”

Tanto você quanto a Taís são pessoas em posição de poder. Sentem uma pressão de ser o modelo, de representar? Porque muitas vezes vocês são os únicos.
Nem só bom, nem só ruim. A parte desafiadora é que não é uma vida livre. Nenhuma entrevista é só uma entrevista. Nenhuma postagem é só uma postagem. Nenhuma ida a um lugar é só uma ida a um lugar. Tem um compromisso que vem junto. Mas por outro lado, a gente sabe da importância de ser referência. Isso é transformador. E eu digo que é transformador porque fui transformado pelas minhas referências. Então, também é algo muito positivo, e que faz com que a gente continue tentando manter essa chama. E trazendo também alguns alertas, de que não somos perfeitos, não somos só nós, pretos únicos, que existem muitas pessoas talentosas para ocupar lugares e funções que a gente também ocupa.

A Taís fez uma palestra muito bonita falando da criação dos seus filhos e citou especificamente os medos em relação à violência sofrida por meninos negros. E muita gente disse que vocês são famosos, que não sofrem racismo. Mas acontece, não?
Acontece. É inegável que a ascensão social traz outros recursos para se defender do preconceito do racismo. Por exemplo, dinheiro para procurar advogado. Ou ter acesso a lugares, ou financiar a educação, tanto sua, para você poder se potencializar, quanto dos seus. Ter uma moradia digna. E tudo isso é muito importante também. Mas isso não nos livra desse mal totalmente porque a gente vê acontecendo. A gente vê na internet. Pessoalmente também acontece. E a gente é muito solicitado e recebe essas histórias de discriminação, de racismo, de violência. Se não tiver uma câmera que filmou, se não tiver uma testemunha, às vezes fica silenciada. Tem dias que entrar no direct do Instagram é algo sofrido para mim, porque as pessoas compartilham essas histórias. E você faz o quê? Ignora? Finge que não existe?

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Taís Araújo em cena do longaFoto: Divulgação/Mariana Vianna


Claro que todo diretor espera que seu filme seja visto pelo maior número de pessoas possível. Mas você fez pensando mais em quem vai se identificar com as situações retratadas no longa ou em quem nunca passou perto delas?
Sempre quero tudo e quero mais. Tenho uma máxima que é sempre tentar conversar com quem está além da minha bolha. No caso de Medida provisória, queria muito ter esses dois públicos. Não queria frustrar as pessoas que já são iniciadas no assunto e que querem representação e vitamina para seguir. Este filme foi desafiador porque queria contemplar todos esses ouvidos. Estou aprendendo se foi possível ou não agora que o filme está chegando ao público. E estou vendo que fomos bem-sucedidos, porque, mesmo quem não compreende tudo o que está sendo dito ali tem um respeito e uma escuta, o que é importante. Porque escuta está muito em falta hoje em dia. Às vezes, a gente até conversa, mas na verdade a conversa é uma estratégia para pensar em um argumento para o outro calar a boca. Essa escuta que o filme conquistou é muito valorosa.

Recentemente você deixou a Globo e foi para o Amazon Prime Video. É uma chance de ter mais voz?
Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida porque, como ator, fui muito feliz na Globo. Mas já há muitos anos eu comecei a virar outro tipo de profissional. Não era mais só ator, escrevia livros, dirigia coisas. E quando me dei conta de que virei isso, fiquei desassossegado. O convite da Amazon Prime Video contempla muito esse momento da vida, que é justamente de ter a possibilidade de ocupar outros lugares para conduzir as histórias, com uma visão que é particular, e ter outros exercícios e aprendizados. Estou achando muito interessante poder aplicar uma visão de mundo e um jeito de contar histórias e colocar um foco em histórias que estão abandonadas.

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