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Patrício Bisso, nos anos 70, por Madalena Schwartz.

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Foi tanto pelo acaso quanto pela geografia que Madalena Schwartz se tornou uma das grandes fotógrafas dos anos 70. Naquela década, ela era uma imigrante húngara, radicada no centro de São Paulo, onde tinha uma lavanderia, quando, depois de se apropriar da câmera que o filho havia acabado de ganhar em um programa de auditório, passou a fotografar dos travestis e transformistas da cena noturna da região a personalidades do mainstream.

No centenário de nascimento da fotógrafa, que morreu em 1993, o Instituto Moreira Salles de São Paulo resgata 112 fotografias dela em Madalena Schwartz: As metamorfoses – Travestis e transformistas na São Paulo dos anos 70 o acervo de Madalena, cerca de 16 mil negativos, está sob guarda do IMS.

"É uma personagem feminina fascinante, uma biografia completamente singular", diz Samuel Titan Jr, que assina a curadoria da mostra ao lado de Gonzalo Aguilar. Madalena nasceu em Budapeste, em uma família judia. Aos 12 anos, se mudou com o pai, o irmão e a madrasta para Buenos Aires em busca de uma vida melhor os parentes que ficaram acabaram morrendo no Holocausto. Muito jovem, se casou com outro judeu húngaro emigrado, com quem teve dois filhos. Na década de 60, diante das dificuldades na Argentina, a família decidiu tentar a vida no Brasil. Em São Paulo, compraram uma pequena lavanderia na rua Nestor Pestana, no centro da cidade, enquanto moravam no Copan.

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Ney Matogrosso, 1974 Ney Matogrosso, 1974Foto: Acervo Instituto Moreira Salles – Coleção Madalena Schwartz

"Até então, era uma biografia igual a milhares de outras", diz Samuel. Foi quando o filho mais velho de Madalena, Julio, ganha uma máquina fotográfica em um programa de auditório da TV Excelsior. Ele não se interessa muito, mas ela se apropria da câmera com avidez. Madalena se inscreve em cursos de formação do Foto Cine Clube Bandeirante e, perto dos 50 anos, inicia uma nova carreira. "Tinha alguma coisa nessa mulher esperando para vir à luz", diz Samuel. "Do outro lado do balcão da lavanderia, emerge esta que será uma das grandes fotógrafas brasileiras dos anos 70."

Madalena começou a fotografar em 1971. Registrou desde a intelectualidade paulistana, como o crítico literário Antonio Candido, além de atores como Paulo Autran e Dina Sfat, até a cena noturna do centro de São Paulo. Eram nomes como o grupo Dzi Croquettes, Ney Matogrosso, Elke Maravilha, o performer Patrício Bisso (seu vizinho no Copan, retratado na foto que abre esta reportagem), entre personagens menos conhecidos, travestis e transformistas, um universo em que a exposição mergulha, em vez de fazer um grande apanhado de toda a carreira de Madalena. "Achamos que isso tinha um poder e uma atualidade", diz o curador.

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A fotógrafa transformou a própria casa em um estúdio improvisado para receber esses personagens da noite. "É como se ela abrisse a casa e a câmera para que as modelos pudessem trazer à tona o imaginário delas", diz Samuel. "Em vez de ser fotojornalismo e documentação, é criação estética." O IMS exibe também negativos, sem edição, em que é possível ver um pedaço do quadro ou o gato da família. Como lembra o curador, grande parte desse material libertário foi clicado entre 1971 e 74, "os anos mais brutais da Ditadura".


Dzi Croquettes: Claudio Tovar, Cláudio Gaya, Roberto de Rodrigues (ao fundo) e Paulette, c. 1974Foto: Acervo Instituto Moreira Salles – Coleção Madalena Schwartz

A partir da obra da Madalena, os curadores expandiram o olhar para a fotografia que registrou a cultura travesti e transformista dos anos 70 e 80 em outros países da América Latina. Há fotógrafos consagrados, como a chilena Paz Errázuriz, que o IMS expôs no ano passado, e o mexicano Adolfo Patiñ, além de dois coletivos militantes, o Arquivo da Memória Trans Argentina, e o boliviano Arquivo Quiwa, que se dedicam a colecionar fotos dos acervos e coleções de figuras travestidas. Quase 50 anos depois, a obra de Madalena segue muito atual.

Madalena Schwartz: As metamorfoses – Travestis e transformistas na São Paulo dos anos 70: até 13 de junho, no IMS Paulista. Entrada gratuita.


Retrospectiva na Tate Modern, em Londres, reforça identidade queer e aspectos políticos ofuscados na produção do artista de muitas faces, que redefiniu a arte do século 20.



Com uma trajetória marcada pela produção de retratos de ícones da cultura brasileira, ela deixa como legado o seu olhar corajoso e poético sobre artistas que foram símbolos da noite, da sexualidade e da liberdade no Brasil.


Prestes a completar 50 anos de carreira, o fotógrafo discute os impactos da pandemia, reflete sobre aposentadoria e relembra a inundação que atingiu seu acervo em fevereiro: "Renasceram coisas que estavam mortas".

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