PATROCINADO • CONTINUE ABAIXO

Corra que ainda dá tempo. Se você ficou boiando em todas as rodinhas de conversa sobre Chewing Gum, a série criada e protagonizada pela espetacular Michaela Coel, não cometa o mesmo erro com I May Destroy You. O novo trabalho da atriz, escritora e cantora britânica estreou no mês passado na HBO e já é forte candidata ao top 5 das séries mais comentadas do ano.

Como em Chewing Gum, em que interpretava uma garota cristã empenhada em perder a virgindade, Michaela não apenas atua, como também assina o roteiro da série. Mais: é também produtora-executiva e diretora. O humor, no entanto, não dá o tom dessa vez, embora também haja espaço para ele ao longo dos 12 episódios da temporada.


O ponto de partida para o roteiro foi um abuso sexual ocorrido com a própria Michaela. Em uma noite em que dava um serão para entregar mais um episódio da segunda temporada de Chewing Gum, ela fez uma pausa para tomar um drinque com uma amiga. Depois disso, a próxima coisa de que se lembrava era de estar de volta à mesa de trabalho, já de manhã, digitando. Felizmente, como disse ao falar publicamente sobre o ocorrido pela primeira vez, em uma palestra no Edinburgh International Television Festival, Michaela teve flashbacks e, assim, conseguiu se dar conta de que havia sido drogada e sofrido um ataque sexual por dois desconhecidos. "Como qualquer outra experiência que considerei traumática, foi terapêutico escrever sobre isso e transformar ativamente uma narrativa de dor em uma de esperança e até de humor", disse ela em sua palestra.

Assim como a criadora da série, a protagonista Arabella, interpretada por Michaela, é vítima de um ataque nos mesmos moldes quando sai para espairecer em meio ao processo de escrita de seu segundo livro. Aos poucos, vai juntando os pedaços para reconstituir os acontecimentos daquela noite, ao mesmo tempo em que tenta lidar com o trauma e o sentimento de violação. Na junket digital para a divulgação da série, Michaela falou sobre seu processo de escrita e outros detalhes da produção. Confira na entrevista a seguir:

A série foi inspirada na sua própria experiência de violência sexual. Como a ideia surgiu?
A primeira vez que me surgiu a ideia de 'é sobre isso que eu quero escrever' foi na sala de interrogatório ao dar meu primeiro depoimento como testemunha do que aconteceu. Um dos meus melhores amigos estava jogando Pokémon Go na delegacia enquanto eu esperava o investigador, e me lembro de ter pensado: 'isso é muito esquisito. Que merda está acontecendo? Isso é tão absurdo, não parece com nada que eu já tenha visto ou sentido antes. Não consigo nem dar nome para esse sentimento!'. Então, eu comecei a escrever. Desde o início, por instinto, eu gravei as conversas e documentei tudo para que um dia pudesse rememorar e tentar dar algum significado a isso, para que não fosse apenas uma ferida assustadora deixada por um crime sem sentido.

Como a ideia saiu do papel e como foi esse processo?
Eu me encontrei com a HBO em janeiro de 2017 e falei: 'quero fazer uma série sobre isso'. Nem sei como ousei ir naquele prédio! Isso foi apenas um ano depois da agressão. A sensação tinha sumido aos poucos, mas um ano depois o sentimento retornou. Fiz um pitch para a Netflix e eles até queriam, mas eu não manteria nem 2% dos meus direitos como criadora, então recuei. Depois fui trabalhar em Black Earth Rising, com a BBC. Conversei com eles sobre o projeto e eles me deram basicamente tudo o que eu queria! Disseram que eu podia ter o que quisesse e manteria parte dos meus direitos de criação. Não estava pedindo por todos os direitos, mas parte deles, principalmente pelo tipo da série. Daí nós precisávamos de mais dinheiro, então nos encontramos com a HBO! E só aí me dei conta: 'meu Deus! Eu não estava preparada [ainda em 2017]!' Mas agora, dessa vez, 'eu parecia preparada'. Adorei o fato de ter ido à HBO da primeira vez e eles não terem ido em frente por saberem que eu ainda não estava preparada.

Você acha que realizar essa série foi uma grande experiência de cura?
Sim, muito. Fiz terapia, continuo me consultando com meu terapeuta atualmente, mas a escrita foi tremendamente catártica. Há mais de dois anos esse tem sido meu único trabalho, tudo o que tenho feito. Entrei nesse mundo a partir do meu trauma, mas que se tornou uma série com maior dose de ficção e ainda assim muitíssimo inspirada pelas histórias de pessoas reais. Eu entrei para dominá-lo, tentando desenvolver uma compreensão sobre como evoluir e crescer e seguir adiante. Isso foi diretamente instrutivo para mim, me despertou para que eu seguisse adiante. De verdade. Foi algo marcante.

O que você aprendeu ao conversar com outras pessoas sobre as experiências delas e quais outras pesquisas você realizou?
Provavelmente o quanto é comum e como é negligenciado. Absorvemos isso e permitimos que se manifeste e venha à tona de formas que somos incapazes de prever justamente porque estamos ignorando. Isso é o que percebi e senti que parecia haver muita dor não resolvida, o que é triste. Algo acontece em nossa mente quando nos damos conta de que se aproveitaram de nós e esse é um dos pontos que abordo bastante ao longo da série. Várias histórias eram muito íntimas, mas nunca tentei relatar essas experiências diretamente na série. É uma obra de ficção. Fui até o Wellcome Trust [instituição de caridade de Londres], onde conversei com cientistas sobre memória, violência sexual facilitada por uso de drogas e estresse pós-traumático. Além disso, minha madrasta trabalha na The Haven, um centro de amparo às vítimas de violência sexual em Paddington, Londres, e foi bastante útil conversar com ela.

Mulher negra de cabelo rosa em Londres Michaela Coel, como Arabella: "Penso que escrever a partir do que aconteceu comigo, compartilhar com todos, é algo que faz parte dessa geração". Foto Divulgação

Por que você acha que tende a escrever a partir das suas próprias experiências?
Ainda não encontrei outro modo de escrever que não partisse de algo concreto, seja algo de dentro de mim ou algo acontecendo comigo. Não sei se teria escrito essa série se não tivesse tido a experiência pessoal. Tenho 32 anos, sou de uma geração que já tinha a internet na mesma época em que aprendíamos como nos expressar aos 13, 14 anos. Nós fomos as cobaias! Eu realmente penso que escrever a partir do que aconteceu comigo, compartilhar com todos, é algo que faz parte dessa geração. Me pergunto se daqui a uns cem anos, sociólogos, cientistas e psicólogos olharão para a minha geração e compreenderão melhor o que estávamos fazendo e porque estávamos fazendo melhor do que nós compreendemos hoje!

Como trabalhar nesse projeto tirou você da zona de conforto?
Todo o processo está fora da minha zona de conforto, mas é disso que eu gosto! As filmagens foram difíceis porque eu tinha vários papéis ali. Atuava como Arabella, mas também estava dirigindo. Mais tarde acontecia de acabarmos perdendo uma locação ou algo dava errado ou eu tinha de reescrever algo, daí tinha que decorar minhas falas pro dia seguinte. É difícil conciliar várias tarefas ao mesmo tempo, e manter o equilíbrio era um desafio que eu abraçava todo dia, pensando 'Michaela, você não pode travar! Você não pode travar pois lembre-se sempre de que o que você está fazendo agora é algo insano. É insano que isso tenha surgido por conta do que aconteceu.' Daí, quando começava a pesar, eu literalmente me sentava e me lembrava disso, as pessoas viam a Michaela agindo toda esquisita, sorrindo pelos cantos, mas é porque estava apenas me permitindo perceber quão incrível era toda aquela situação. Significa que encaro o desafio de peito aberto e ele vai me matar e todo mundo vai me ver morrer sorrindo feito uma maluca (risos). Sou tipo uma maratonista, no fim do percurso eles parecem alucinados, se cagam, mas continuam correndo. É uma doideira, mas eles continuam. Essa era eu!

Essa produção tem uma grande diferença de tom entre a sua primeira série para TV, Chewing Gum. Suponho que a experiência também foi diferente?
É algo diferente e isso é ótimo. Tem pessoas realmente dispostas a trabalharem com a minha visão e isso é quase incompreensível para mim. Eles me falam: 'Michaela, isso é muito importante pra você. Você trabalhou muito nisso. É o seu filho'. Só que eu respondo: não, é o nosso filho. Seu DNA está nessa criança. Seu talento está aqui também'. E, ao mesmo tempo, entendemos que é mesmo meu filho e é gostoso sentir que não tenho que brigar para que respeitem aquilo que eu quero apresentar. É algo que comecei a entender internamente. Pode ter acontecido isso com Chewing Gum também, mas eu era muito insegura, muito nova, e tão alienada pela ideia de que minha voz estava só começando a ser ouvida que eu sempre pensava: 'tenho que lutar para ser ouvida'. Não me senti assim desde o início desse projeto.

A princípio, a série se chamaria January 22nd. Por que você decidiu mudar para I May Destroy You?
Primeiro, uma série com o nome de January 22nd com estreia em junho é um tiro no pé. É besta, é confuso. Na minha opinião, quem vê de fora não vê nada de interessante num título assim. No começo, nos apaixonamos pelo título. Tinha uma função incrível e, no final da série – spoiler! – ela terminava o livro nesse dia. Só que aí pensei: "pessoal, acho que esse título já não tem mais apelo". Eu senti também que acabaria gerando discussões que não deveriam ser o foco antes da estreia da série. January 22nd é o dia em que algo muito traumático aconteceu comigo, mas não queria ficar falando sobre isso quando temos uma série maravilhosa com uma equipe talentosa e com figurinistas e sets incríveis. Seria uma distração. Ficaria parecendo aqueles documentários de crimes que adoramos ver na Netflix. O que eu penso é: "ah, não quero fazer algo assim."

Quanto de você há na personagem Arabella?
Ela muda muito ao longo dos 12 episódios. Como qualquer coisa que eu faça, seria bem difícil ter uma noção. Não saberia dizer quantos por cento. Ou é um pouco ou é muito. Eu não sei!

Na série, Arabella está tendo dificuldades para escrever seu segundo romance após o sucesso inicial e súbito, além da fama. Você se enxerga nessa pressão por superar expectativas?
É estranho, de todas as coisas que tenho em comum com a Arabella, essa não é uma delas. Sei bem desse clichê da pressão do segundo álbum, mas nunca senti isso. Meu negócio é: eu só quero surpreender todo mundo cumprindo todos os prazos e entregando algo de tirar o fôlego! Quando as pessoas se aproximam dela na rua, bom, isso é algo que já me aconteceu, rende ótimos papos.

O que você mais espera que as pessoas captem ao assistir essa série?
Como dormir melhor à noite. Eu penso que quando você é uma sobrevivente ou uma vítima, qualquer que seja o nome que você dá a si, é provável que você se prenda tanto a uma raiva – uma raiva bastante compreensível, aliás, que você tem todo direito de sentir –, que acaba se tornando uma questão sobre aonde isso está te levando e se você consegue dormir à noite e viver tranquilamente. Por isso, espero que a série inspire as pessoas a procurarem dormir bem à noite. A série é muito mais sobre isso do que sobre criminosos. Não é sobre estupradores, mas sobre as pessoas que tiveram essas experiências e sobre como é possível dormir melhor à noite.




Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE VIEW, A REVISTA DIGITAL DA ELLE BRASIL