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MJ Rodriguez tornou-se recentemente a primeira mulher assumidamente transgênero a ser indicada ao Emmy na categoria de melhor atriz em série de drama por Pose (FX). No enredo, ela vive Blanca, também trans e figura materna de um grupo jovens que, assim como ela, são negros, latinos, pobres e LGBTQIA+. Eles frequentam a cultura ballroom da Nova York dos anos 1980 e 1990, em meio à dizimação daquela mesma comunidade pelo HIV.

A performance da atriz e cantora de 30 anos foi elogiada pelas três temporadas, mas, pelo menos aparentemente, só o último ano da série, exibido em 2021, tocou os membros votantes da academia de TV a ponto de Rodriguez ser indicada. Antes tarde do que nunca, pois a barreira foi rompida e agora o caminho está aberto para outras.

A indicação de Rodriguez é, também, a ponta de um iceberg — nos últimos anos, a indústria das séries de TV tem se mobilizado para dar espaço a talentos transgêneros diante e atrás das câmeras.

"Uma melhoria significativa começou com Orange is the new black, que estreou em 2013 com Laverne Cox no papel (coadjuvante) de Sophia Burset, até Pose ser lançada em 2018", conta Alex Schmider, diretor-adjunto do departamento de representatividade trans da GLAAD, ONG americana que monitora a visibilidade de pessoas LGBTQIA+ na mídia.

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"Uma melhoria significativa começou com Orange is the new black, que estreou em 2013 com Laverne Cox no papel (coadjuvante) de Sophia Burset, até Pose ser lançada em 2018"

De acordo com Schmider, isso se deve à abertura a pessoas trans em posições criativas, como roteiristas, diretores e produtores, e a mudança de percepção da sociedade acerca da transgeneridade, que, por sua vez, decorre de anos de ativismo. Cox, que também é negra, chegou a ser capa da Time, sendo associada, pela revista, à próxima frente dos direitos civis na América".

"Pessoas como Laverne Cox, Janet Mock e Raquel Willis usaram a visibilidade delas na mídia para falar de suas histórias de vida como mulheres trans e negras, o que ajudou os produtores de Pose a encontrarem um lar para a série no FX."

A série protagonizada por Rodriguez foi criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals. Os dois primeiros já haviam feito contribuições robustas com a visibilidade LGBTQIA+ em Glee (Fox, 2009–15) e American horror story (exibida desde 2011 pelo FX), que abordaram a discriminação de gênero e orientação sexual e mostraram personagens não estereotipados. Com Pose, eles avançaram ainda mais contratando para o elenco e a equipe técnica pessoas que pertencem às mesmas comunidades dos personagens.

Sete meses após Orange is the new black (Netflix, 2013–19) estrear, outra produção importante chegou ao streaming: Transparent (Amazon Prime Video, 2014–19). Embora tivesse um homem cisgênero (Jeffrey Tambor) no papel principal de uma mulher trans, foi criada por Joey Soloway — que se assumiu como não-binária enquanto trabalhava na série — e tinha roteiristas e diretores queer, como Andrea Sperling e Our Lady J, e as atrizes trans Alexandra Billings e Trace Lysette.

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A visibilidade desse grupo tem acontecido com força na TV e no cinema nos últimos cem anos — o problema estava na maneira como esses personagens têm sido retratados

A comédia é, hoje, vista como uma faca de dois gumes, diz Schmider. Soloway afirma atualmente que não deveria ter contratado um homem cis para encabeçar o elenco. "Por outro lado, Transparent trouxe as primeiras interações de personagens trans entre si. Historicamente, as séries teriam apenas uma personagem trans rodeada por pessoas cis no elenco", explica Schmider.

A pesquisa Where we are on TV de 2021 (ou onde estamos na TV), produzida pela GLAAD, indica que o ano anterior teve 29 personagens transgênero recorrentes nos seriados — 15 mulheres, 12 homens e dois não-binários e trans — e 26 deles são interpretados por atores trans. Os números de 2019, por outro lado, mapearam 38 personagens, o que mostra os efeitos da pandemia sobre a indústria do entretenimento.

O levantamento mais recente aponta que um grupo de apenas quatro grandes criadores de séries, Greg Berlanti (Batwoman, Riverdale), Lena Waithe (Master of none, Eles), Ryan Murphy e Shonda Rhimes (Grey's anatomy, How to get away with murder).

A pandemia prejudicou a produção das séries e Pose chegou ao fim. Por isso, os dados mais recentes não são tão satisfatórios. No decorrer dos próximos anos, defende Schmider, o interesse do mercado tem de continuar para os números crescerem.

O representante da GLAAD menciona um dado curioso de Revelação (2020), documentário sobre representatividade trans em Hollywood, dirigido por Sam Feder e disponível na Netflix. A visibilidade desse grupo tem acontecido com força na TV e no cinema nos últimos cem anos — o problema estava na maneira como esses personagens têm sido retratados, com distorções e estereótipos. Daí a importância de haver cada vez mais pessoas trans trabalhando também atrás das câmeras: a busca pela autenticidade é bem-sucedida quando o enredo se baseia na perspectiva de artistas desse grupo social. Simplesmente colocá-los nas telas é insuficiente.

No entanto, o oposto tem sido, historicamente, a regra. Isso ajudou a sociedade em geral a criar uma percepção equivocada acerca da transgeneridade. Então, quanto mais diferentes entre si forem as representações, melhor. "Apenas um personagem ou uma história não poderia representar a total diversidade da comunidade trans, que é vasta em termos de identidades e experiências, bem como apenas um personagem ou história não poderia desfazer décadas de deturpações", analisa.

Confira a seguir algumas séries de destaque que têm colaborado com essa transformação cultural.

Veneno (HBO Max)

A aclamada minissérie conta a história de Cristina Ortiz Rodríguez (1964–2016), conhecida como "La Veneno", que se tornou um ícone LGBTQIA+ da Espanha com suas aparições na TV e seu senso de humor cáustico.

Pose (FX)

A série mostra o dia a dia de um grupo de pessoas queer negras e latinas na Nova York dos anos 1980 e 1990. Em meio ao ápice da epidemia de HIV, elas encontram acolhimento na lendária cultura ballroom, com competições de performances que incluíam o voguing. A série tomou a importante iniciativa de ter um elenco quase todo negro, latino e LGBTQIA+, além de colocar talentos desses mesmos grupos atrás das câmeras.

Manhãs de setembro (Amazon Prime Video)

Cassandra (Liniker) canta músicas de Vanusa na noite paulistana e está feliz por finalmente estar em um bom relacionamento e morar sozinha. Entretanto, uma mulher com quem Cassandra se envolveu antes de sua transição surge inesperadamente com um menino que ela diz ser filho da protagonista. A produção marca a estreia da cantora Liniker como atriz e também conta com a rapper Linn da Quebrada no elenco.

Euphoria (HBO)

O drama com adolescentes traz no elenco Hunter Schafer, mulher trans e lésbica, no papel da espontânea Jules, uma das personagens mais proeminentes da trama e que também é trans.

Orange is the new black (Netflix)

A adorada comédia dramática criada por Jenji Kohan (Weeds) é um marco na maneira que mulheres são representadas em seriados. Em meio às personagens com vidas e personalidades complicadas, havia, no centro de detenção em que a história se ambienta, Sophia Burset, uma mulher trans e negra interpretada por Laverne Cox, também trans e negra. A atriz recebeu quatro indicações ao Emmy pela performance.

Transparent (Amazon Prime Video)

Para o bem ou para o mal, a elogiada comédia dramática criada por Joey Soloway fez com que a visibilidade do tema avançasse ao trazer Jeffrey Tambor, um homem cis, interpretando a protagonista Maura Pfefferman. Ela é uma professora universitária que, na velhice, sai do armário como mulher trans, o que afeta toda a família.

Segunda chamada (Globoplay)

No drama sobre o dia a dia de estudantes de uma turma da EJA (Educação de Jovens Adultos) de São Paulo, Linn da Quebrada vive a travesti Natasha, que luta diariamente pelo direito de estudar, mesmo que em meio a agressões e humilhações.

Sense8 (Netflix)

Oito pessoas de diferentes países compartilham uma conexão psíquica. Uma delas é a hacker e blogueira Nomi, mulher trans que vive em São Francisco com a namorada. Jamie Clayton, também trans, vive a personagem.

Supermax (Globo)

Nesta série de terror, 12 criminosos são isolados em uma penitenciária e vigiados o tempo todo por câmeras do reality show em que eles disputam dois milhões de reais. Janette, interpretada pela atriz trans Maria Clara Spinelli, é uma das participantes. Ela chega à competição carregando traumas do relacionamento com o pai violento e alcoólatra, que não aceitava sua transgeneridade.

Carcereiros (Globoplay)

Na produção, Maria Clara Spinelli vive Kelly, personagem trans que é presa propositalmente para fazer companhia ao namorado na cadeia. Ela passa por situações em que é vítima de transfobia.

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