Chanel, cruise 2027
Em sua quinta coleção para a Chanel, Matthieu Blazy volta à origem da marca e ao local que inspirou algumas das criações mais emblemáticas de sua fundadora.
O vestido preto da Chanel completa 100 anos em 2026. Foi com uma interpretação bem próxima do modelo original que Matthieu Blazy abriu o desfile de cruise 2027 da marca, em Biarritz. Foi nessa cidade do litoral basco, no sudoeste da França, que Gabrielle Chanel desenhou o tal vestido – entre tantas outras criações emblemáticas, como figurino do balé Le Train Bleu, com colaborações de Pablo Picasso e Jean Cocteau. Foi lá também que, em 1915, ela estabeleceu sua maison de alta-costura – com loja, salões, ateliês e um apartamento que serviram de protótipo para o que se tornaria a sede da grife, três anos depois, no número 31 da Rue Cambon, em Paris.
“Chanel encontrou em Biarritz diferentes formas de ser e de ver, de movimento e de liberdade. Ela fez delas o pedestal de sua moda. É um lugar que oferece o equilíbrio perfeito entre função e ficção”, escreveu Matthieu, em um texto enviado à imprensa. Essa é a quinta coleção do diretor criativo e a que ele mergulha mais a fundo (e de maneira mais direta) na história da casa e no legado de sua fundadora. Como uma explicação ou justificativa para os fundamentos do que ele apresentou aqui.

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

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Alguns looks, como os tricôs com as barras em zigue-zague, por exemplo, são réplicas das roupas originais. A jaqueta e saia preta e branca usadas pela embaixadora Bhavitha Mandava, com dois Cs invertidos como parte da construção das peças, são reproduções fiéis de um croqui dos anos 1930. Ele também referencia os conjuntos de jérsei lançados por Gabrielle em 1913, a influência das linhas retas da Art Déco e, sobretudo, a liberdade de movimento. Leveza é uma das maiores qualidades da abordagem de Matthieu sobre a grife, evidente em todas suas coleções. Nesta, não tinha como ser diferente.
O estilista frequenta Biarritz desde a infância – seus pais viajavam com frequência para lá. “A primeira coisa que me chamou atenção foi o poder do oceano, dos elementos e da natureza. É uma cidade moldada pelas ondas e pelo clima em constante mudança, com uma forte tradição de atividades esportivas ao ar livre. Tudo fala de movimento – há uma sensação de velocidade e intensidade”, escreveu ele.
Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

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Na apresentação desta terça-feira (28.04), em um cassino com vista para o mar, algumas modelos entravam na passarela de cabelos molhados e desarrumados. Outras seguravam os sapatos nas mãos, como quem caminha na areia. O casting, aliás, é um destaque à parte, com mulheres de várias idades – e uma grávida com barriga à mostra no tailleur de tweed e um par de sapatos de bebês pendurados sobre a bolsa. (O toque de humor, especialmente nos acessórios, lembra bastante o olhar pop de Karl Lagerfeld.)
Há uma boa quantidade de peças inspiradas em lenços de seda, quase sempre combinadas a maiôs. O beachwear também completa os ternos de formas soltas que já viraram hit nas lojas. Outro best seller, a camisa Charvet agora tem detalhes de renda guipire. O jeans (a mais recente obsessão da Chanelmania) chega em conjuntos de saia e jaqueta bege ou rosa. E o tricô, além do suéter com zíper frontal, aparece em releituras de trajes de banho vintage e em vestidos alongados.

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação
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Listras têm aos montes. O padrão é característico da região basca e, de acordo com nossa diretora editorial, Susana Barbosa, reportando in loco, pode ser encontrado por toda a parte. Matthieu diz ter se influenciado especificamente em uma fotografia da orla de Biarritz repleta de barracas e guarda-sóis listrados. Outra referência local são os dois vestidos finais. O designer é fascinado por sereias desde criança, porém a decisão de incluí-las na coleção veio depois de ele encontrar um mural art déco no farol da cidade. Nele, há duas sereias com suas caudas entrelaçadas como os Cs invertidos do logo da marca.
Quando Matthieu conheceu Biarritz, ela já era a capital europeia do surfe. Na época de Gabrielle Chanel, era um refúgio para a elite e aristocracia espanhola, inglesa, russa e, claro, francesa. Ela foi para lá com um boy. No caso, Arthur Edward “Boy” Capel, seu grande amor e financiador de seus primeiros negócios. Era 1915, e a Primeira Guerra Mundial tornou Paris um lugar um tanto perigoso para se estar. Quem tinha meios correu para beira-mar.

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

Chanel, cruise 2027. Foto: Divulgação

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FOTOS: Chanel, verão 2026
Antes disso, Chanel tinha se estabelecido como uma chapeleira com lojas em Paris, Deauville e Monte-Carlo. Em 1913, ela se aventurou no mundo do vestuário com uma linha de sportswear (provavelmente o embrião do que se entende por coleção cruise ou resort) feita de jérsei, um tecido então restrito à roupa íntima. E foi um sucesso. Embalada pela boa recepção, ela decidiu pegar mais dinheiro emprestado do Boy e abrir uma maison de alta-costura em Biarritz. (Em 1916, com um ano de negócio, ela pagou o investimento.)
Tecnicamente, a simplicidade das roupas da Chanel foi revolucionária. Mais ainda foi o que elas representavam naquele momento: uma inversão de valores sem precedentes e um grande manifesto de liberdade – em especial sobre o corpo feminino. Curiosamente, as bases das criações não eram novas: o jérsei era roupa íntima, o tweed vinha dos trajes masculinos, o vestido preto era uniforme de vendedoras, serventes e freiras. O que mudava era o significado, a intenção, o contexto, a atitude e quem usava.
Dadas as devidas proporções, o raciocínio de Matthieu Blazy é exatamente esse: expandir e reconfigurar os entendimentos e possibilidades sobre a Chanel e sobre a relação de algumas pessoas com moda, roupa e luxo.
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