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Attilio e Gregório: exuberância nas estampas e na vida

Lançado este mês, o livro Attilio e Gregório retrata a vida e obra da incensada dupla de designers, pioneira em valorizar a brasilidade com estampas que evocam a diversidade natural e cultural do país.

Imagem Divulgação / Editora Olhares
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"A beleza mora no Brasil", me disse certa vez Attilio Baschera. "É uma mistura encantadora, receptiva e aconchegante." Paulistano de ascendência italiana, foi depois de passar uma temporada fora do país na juventude, como aluno na Escola Superior de Artes de Roma, que ele mudou sua percepção da terra natal. Foi arrebatado pelas frutas e flora tropicais, pela herança arquitetônica da colonização portuguesa, especialmente os casarios baianos. O olhar curioso e genuíno sobre a exuberância de nossa paisagem e cultura definiu para sempre o trabalho desenvolvido ao lado do argentino Gregório Kramer, seu companheiro de vida, também um apaixonado pelas cores do país.

Attilio (à esq.) e Gregório: espírito vanguardistas da dupla ia do design à etiqueta social.Foto Divulgação / Editora Olhares

No início da década de 1970, os dois designers criaram a Larmod, uma icônica estamparia e loja de tecidos para decoração, vendida em 1998 para que os donos dessem um giro pelo mundo em busca de inspiração e de um pouco de dolce far niente. Depois veio a AGain, que também virou um point de arquitetos e decoradores, até ser descontinuada em 2012.


Unanimidades no high society paulistano graças à vocação natural de trendsetters, quando ainda nem se falava nisso, Gregório e Attilio levaram o espírito vanguardista não só ao design e ao décor, mas também à moda, ao comportamento e à etiqueta social. Dos idos dos anos 1980 aos 2000, nenhuma festa era realmente chic se não tivesse seus nomes entre os convidados. Além do bom gosto, da presença elegante e do olhar aguçado, o senso de humor era outra das características fascinantes desses personagens. Não raro, surpreendiam os amigos com performances irreverentes – Attilio principalmente. Tornou-se célebre a sua aparição na pele da florista vivida por Audrey Hepburn em My Fair Lady, num aniversário de Marília Gabriela, no Gallery, boate badalada da época. Já no concorrido apartamento da dupla, no bairro de Higienópolis, o designer levava os amigos ao delírio ao aparecer montado de cantora lírica para dublar árias como Les Oiseaux dans la Charmille, da ópera Contos de Hoffmann, de Jacques Offenbach.

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Essas e outras loucurinhas deliciosas recheiam as páginas do livro Attilio e Gregório (Editora Olhares), assinado pelo arquiteto Rica Oliveira Lima, uma narrativa sobre a vida pessoal e profissional da dupla, a infância e as viagens, além de depoimentos de nomes relevantes nessa trajetória de 50 anos. Entre 2016 e a metade de 2019, um pouco antes de Gregório falecer, Rica foi recebido pelos dois, invariavelmente todas as segundas-feiras, às 17 horas, para um café com biscoitos importados e longos bate-papos na copa do apê. Com o passar dos meses, o jovem arquiteto percebeu o valioso material que estava acumulando. E o que era para ser apenas a sua tese de mestrado sobre a área têxtil e a moda acabou virando uma obra documental das boas.

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A capa do livro escrito por Rica Oliveira Lima: café, biscoitos e longos bate-papos durante a apuração.Foto Divulgação / Editora Olhares

Do primeiro encontro, ele guarda a imagem de ser recebido por um Gregório com look despretensiosamente elegante, sorriso acolhedor e um leve aroma da fragrância Bois d'Orange, da Roger & Gallet. "Tudo sobre Greg era agradável: o charmoso sotaque argentino, a voz grossa e rouca, o olhar vivaz e a capacidade de ser polido. Um deus dionisíaco", relembra o autor. Já Attilio sempre causou uma impressão mais imponente, "como se fosse o busto de um imperador romano", ainda que ele mesmo pareça desdenhar de sua suposta seriedade – em meio às conversas do trio, contava e achava graça das próprias piadas.

A convivência de três anos acabou transformando a pesquisa acadêmica em amizade. "Foi fascinante descobrir que eles, com 80, e eu, com 30 anos, tínhamos a mesma cabeça", conta o escritor, fã incondicional da dupla e da vasta iconografia de uma brasilidade glam, mas inconformista. Hoje, bananas, abacaxis e cestarias são clichês, mas na década de 1970 eram pura ousadia. "Eles criaram esse estilo depois de passar pelo figurativo clássico, num momento em que o mundo estava modernista", pontua Rica. "Quase como uma sátira, uma vontade de ser malcriado com uma elite presa a padrões europeus."




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