Muita imagem e pouca ousadia: “A vida está um tédio agora”, diz Karim Rashid

Designer egípcio Karim Rashid esteve em São Paulo e exibiu os últimos lançamentos para a Natuzzi.


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Karim Rashid cria cama para italiana Natuzzi. Foto: Natuzzi / Divulgação



“Eu tenho sorte de ter me tornado um designer na época em que eu construí minha carreira”, disse em entrevista à ELLE Decoration Brasil o designer egípcio Karim Rashid, uma das grandes referências do setor. Com trajetória de quatro décadas e colaborações para etiquetas como Pepsi, Prada, Saint Laurent, Issey Miyake, Melissa, Riva 1920, ele tem como marcas o traço de pegada futurista e uso de cores vibrantes.

Neste mês, Rashid esteve em São Paulo para uma palestra na 19ª edição do Boomspdesign, durante a DW! Semana de Design de São Paulo. Na ocasião, também apresentou seus últimos lançamentos para a marca italiana Natuzzi, como a cama Memoria, com formas inspiradas na região da Apúlia, no sul da Itália.

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Segundo ele, hoje, comparado a décadas passadas, é mais difícil deixar uma marca na história.  “Você pode fazer um ótimo móvel, uma ótima cadeira, mas ela nunca vai se maturar como a história fez os objetos se maturarem”, disse.

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“Você pode nomear 50 cadeiras importantes do século passado. Por quê? Havia poucos envolvidos nisso. Hoje está saturado. E a imagem está saturada. Se há 1,5 bilhão de imagens criadas em um dia, o que está acontecendo agora, com 2,5 bilhões de smartphones, e é assim que olhamos, como pode qualquer coisa começar a solidificar, ter longevidade e se tornar icônica?”

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Karim Rashid, em palestra na 19ª edição do Boomspdesign, durante a DW! Semana de Design de São Paulo. Foto: Dois Filmes

Ele atribui essa situação aos avanços tecnológicos, à inteligência artificial, às mídias sociais e tendências que são replicadas no mercado. Além disso, cita decisões de empresas que buscam investimentos seguros em vez de apostar em novas abordagens. Salvam-se, no entanto, algumas iniciativas, como as de etiquetas menores que se arriscam.

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“Há empresários tentando fazer coisas mais interessantes porque são companhias pequenas, e eles sabem que a única forma de entrar no mercado é ser diferenciado”, disse. “Muitas pessoas jovens são muito mais perceptivas sobre os problemas que temos, seja usando ecomateriais e sustentabilidade ou fazendo algo que é mais sobre a forma como nos comportamos.”

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Rashid também cita cópias e reproduções de modelos, que vão de escolhas de tecidos, por exemplo, a estilos de projetos arquitetônicos. “Isso é chocante para mim. Chocante porque eu pensei que a revolução digital iria realmente empoderar a diferenciação, empoderar a escolha, empoderar a expressão individual, empoderar a criatividade. Mas está indo em outra direção.”

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E por que estamos fazendo isso? “A sobrevivência primordial: para se encaixar. Esse é um instinto que temos, de precisar sentir que nós pertencemos”, disse, emendando ainda o interesse por estéticas e objetos dos anos 1960 e 1970. “Porque nós começamos a perceber que era um tempo legal. A vida está um tédio agora.”

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