Os melhores vinhos para a primavera

Pelo menos no calendário, a estação das flores chegou! Confira dicas de especialistas para escolher os rótulos que mais combinam com essa época do ano.


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Vamos brincar de primavera? Ou melhor, imaginar. Em tempos de mudanças climáticas, nunca se sabe o que a próxima estação nos reserva. Pode vir um frio de lascar, chover cântaros. Pode fazer um sol saariano, de derreter asfalto. Na cabeça de quem mantém a esperança num mundo ideal, a primavera trará temperaturas amenas, brisas gostosas, tempo bom para piqueniques, juntar os amigos em tardes preguiçosas. E precisa ter vinho para tal.

“Penso que os vinhos bons de primavera são os que trazem alegria, uma explosão de frutas na boca. Devem ser delicados, macios e muito aromáticos. De maneira geral, são vinhos de meio corpo”, diz Paula Daidone, especialista em vinhos e embaixadora do Vinho do Porto no Brasil. Por meio corpo entende-se o que combina com meia-estação. Se não é hora de vestir casacão nem minissaia, imagine tintos mais leves do que costumamos tomar no inverno e brancos e rosés um pouco mais encorpados, alguns tons acima dos vinhos de piscina e de verão.

Em vinho também há tendência, modinha passageira, revival ou clássicos que resistem ao tempo. Um Pinot Noir da Borgonha é o pretinho básico que nunca perde a pose. A uva tinta Gamay, típica da região francesa de Beaujolais, teve dias de glória, caiu em desgraça e agora volta a receber atenção. Cinsault, outra tinta que renasce com força no Chile, é aposta de quem é trendy no mundo do vinho sul-americano.

As uvas e estilos citados acima têm características próprias para a estação: leveza, frescor e fruta bem equilibrada com acidez. Essa tendência de consumo não se restringe a sazonalidades e geografias – é mundial. Bebedores antenados estão preferindo vinhos mais jovens, com nenhuma ou pouca passagem por madeira, sobretudo aqueles que revelam as qualidades das uvas e do terroir em que foram cultivadas.

“Fomos catequizados pelos vinhos muito extraídos e amadeirados, com taninos duros, que ‘gritam’ e arranham a garganta, principalmente os chilenos mais baratos, com os quais muita gente começou a beber”, descreve Paula. Esse tipo de vinhão denso e polpudo teve seu auge de popularidade também pela influência de críticos como Robert Parker, que nunca escondeu sua preferência pelos austeros rótulos de Bordeaux. Ele costumava pontuar melhor os pancadões.

Não se trata, no entanto, de demonizar os encorpados e a madeira. Ou de deitar regra, tipo fashion police, na cabeça dos outros. Cada um bebe o que quer, o que gosta e o que pode. Mas quem resiste a uma brincadeira de primavera? Por isso, convidamos Paula e os sommeliers Patricia Brentzel (do projeto Beba Bem em Casa) e Bruno Bertolli (do winebar Beverino) para dar dicas de rótulos bons para a estação. A reportagem de ELLE também deu seus pitacos.

Tintos

Pinot Noir

Se quer saber o que é Pinot Noir no duro, na batata, primeiro deve passar pelos rótulos da Borgonha, berço da uva, onde ela encontra sua melhor expressão. Os Pinots borgonheses trazem frutas vermelhas intensas (cereja, framboesa, morango, cassis) e aromas florais ao nariz. Na boca, repetem-se as frutas, com um toque de especiarias, acidez notável e um quê picante. Leves e de taninos sedosos, trazem toda a primavera na taça.

A técnica de produção tradicional envolve o uso de carvalho francês para amadurecer parte do vinho, o que não quer dizer que ele ficará pesado. A delicada Pinot, embora de difícil cultivo, se deu bem em outras regiões do mundo, inclusive no Brasil, onde, sem as cascas, é usada na produção de espumantes. O Chile tem excelentes rótulos que estão afinados com a tendência de elegância e frescor na taça.

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Pinot Noir da Casa Viccas: opção na categoria de vinhos naturaisFoto: Divulgação

Da França, prove os elegantíssimos Rully Premier Cru Marissou 2018, da Domaine Saint-Jacques (Cellar Vinhos), Lupé-Cholet Pinot Noir 2019 (Casa Flora) ou Domaine Antonin Guyon Cuvée Des Dames de Vergy (Decanter). Para quem pode investir em rótulos de luxo, duas dicas são o Gevrey-Chambertin Bernard Loiseau 2016 (Mosto Flor) e o Clos de Vougeot Gran Cru 2016 (Mistral), de Domaine Faveley.

Do Brasil, um bom começo, a ótimo custo-benefício, é o Capella dos Campos Pinot Noir, da Família Lemos de Almeida (RS): com muita especiaria no aroma, traz também um toque rústico de taninos à boca. Para quem é da ala dos dos vinhos naturais, Patricia Brentzel indica o Pinot Noir Casa Viccas (Beba Bem em Casa), de Monte Belo do Sul (RS).

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Tara Pinot Noir Ventisquero: direto do Atacama.Foto: Divulgação

Do Chile, alguns exemplares recomendados por Paula são o Tara Pinot Noir Ventisquero (Vinho BR) e o Leyda Reserva Pinot Noir (Gran Cru). O Trapi del Bueno Hand Made Pinot Noir (Famiglia Valduga) vem da Patagônia Chilena, uma das regiões mais frias do país, o que colabora com a acidez e o frescor da uva. Um Pinot de uma delicadeza incrível.

Gamay

A uva Gamay impera na região francesa de Beaujolais. Gera vinhos fáceis de beber, bastante frutados e com boa acidez. Bebida de piquenique, para ser degustada sem grandes complicações e refrescada a cerca de 10 graus. A fama da região, no entanto, não andou lá muito boa depois da explosão comercial de seus vinhos no mundo, na década de 1980. Virou sinônimo de má qualidade, especialmente se comparada a Borgonha ou Bordeaux.

Há, porém, vinhos de qualidade vindos do pedaço, com uma boa vantagem: os grandes rótulos de Beaujolais são bem mais baratos do que os grandes das regiões superstars. Basta saber garimpar e contar com dicas espertas, como as de Paula. Ela recomenda o Joseph Drouhin Beaujolais-Villages AOC 2019 (Mistral), o G. Duboeuf Domaine 3 Vallons Beaujolais-Villages 2019 (World Wine). Já o Albert Bichot Mr No Sulfite Beaujolais-Villages 2019 (Wine Brands), como o nome indica, não tem adição de sulfito como conservante.

A Gamay também tem se dado bem no Brasil e rendido vinhos igualmente refrescantes e fáceis. O Miolo Wild Gamay (Miolo) é um exemplar bastante elogiado, vinificado com leveduras selvagens, à moda natureba, na Campanha Gaúcha. Outra dica é o Capoani Gamay Nouveau (Vinhedos Capoani), do Vale dos Vinhedos.

Cinsault

De alto rendimento, ela prospera em várias regiões francesas, sobretudo em Languedoc-Roussillon. No país de origem, é mais comum encontrá-la na composição de vinhos feitos com outras castas, para levar frescor e leveza ao corte. Sozinha, quando bem vinificada, carrega essas qualidades à taça. Delicinha de uma tarde de sol, o vinho de Cinsault pode ser servido levemente resfriado.

No Chile, a Cinsault tem originado bebidas frutadas, leves e muito, muito delicadas. A uva andava meio perdidona no Vale do Itata há centenas de anos (foi uma das primeiras cepas levadas pelos missionários) e ninguém lhe dava muita bola, até que jovens vinhateiros sacaram seu potencial e a colocaram no mapa. É hype dizer que você gosta dos vinhos de Itata.

Alguns Cinsaults chilenos de respeito são La Prometida Revoltosa Cinsault (Vinho BR), De Martino Gallardía Cinsault 2020 (Wine Brands), La Causa Cinsault Gran Reserva (Decanter), Queulat Gran Reserva Cinsault 2020 (Empório Itiê), da Ventisquero, e Miguel Torres Tenaz Cinsault Valle de Itata 2019 (Sonoma).

Outros tintos

No caminho da leveza, vale provar outros tintos de ar primaveril, como o Campanha Tannat (Família Salton), que Paula Daidone considera peculiar, pois não passa por madeira, chega leve, fresco e fácil de beber, cheio de frutas vermelhas e um final mentolado. Mesmo no Uruguai, onde a uva gera vinhos opulentos, há uma nova geração de Tannats frescos, como o Suelto, do Proyceto Nakkal (Beba Bem em Casa), de vinificação natural.

Na mesma linha, a vinícola chilena Odfjell mostra que é possível fazer vinhos mais elegantes e magros de corpo com uvas potentes, com nenhuma ou pouca madeira. O Odfjell Capitulo Blend Orgânico (World Wine) tem Malbec, Cabernet Sauvignon, Syrah e Carignan. Apenas 30% do vinho amadurecem por quatro meses em carvalho.

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Suelto, do Proyceto Nakkal: um Tannat mais fresquinho.Foto: Divulgação

Da Itália, vale provar o Cadetto Lungarotti (Mistral), da região da Umbria. Feito com Sangiovese, outra uva que costuma gerar vinhos encorpados, revela aqui frescor e fruta. O Lucarelli Primitivo (Super Adega), da região da Puglia, pode trazer de volta à roda a uva Primitivo, que já foi modinha algumas temporadas atrás. Ela tem um toque adocidado, é perfumada e casa bem demais com a primavera.

Para quem gosta dos diferentões, Bruno Bertolli indica o blend das uvas Zweigelt e Saint-Laurent presentes no rótulo Koppitsch Rét 2020 (Cave Léman), de origem austríaca. Um vinho tão suculento quanto leve. A uva alemã Dornfelder tem a mesma pegada: sua cor intensa engana o olhar, mas sua textura é branda e, na boca, traz uma multidão de frutas frescas. Prove o Pfaffmann Dornfelder (Weinkeller), vendido em garrafas de 1 litro.

Rosés

Os rosés mais levinhos, de cor esmaecida, estão bem na fita. Durante a primavera, porém, você pode avançar para alguns rosados mais intensos, elaborados com maior extração da fruta ou cujas cascas ficaram mais tempo em contato com o líquido, injetando cor na mistura.

Rosés espanhóis feitos com a uva Garnacha costumam ser assim, frutadões e gordinhos na boca. Um bom exemplo é o Insaciable Bodega D. Mateos (Domo Express), da região de Rioja, que passa por fermentação em barrica e estagia em carvalho durante mais um tempo, ganhando textura cremosa, robustez e um leve abaunilhado, emprestado da madeira.

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Miolo Rosé Seleção: bom de boca.Foto: Divulgação

O Miolo Rosé Seleção (Miolo), de Cabernet Sauvignon e Tempranillo, é um brasileiro bom de boca, com grande expressão de frutas vermelhas. De Portugal, vale a prova o Villa Rosa Colheita Selecionada Rosé (Bebida In Box), feito com Baga, rainha da região da Bairrada. Para quem busca emoções diferentes, o Zacharias Rosé Bio (Beba Bem em Casa) vem da Grécia com exuberância de frutas do bosque, aromas extraídos da uva típica Agiorgitiko.

Se quer ainda mais cor e extração de aromas e sabores vindos das cascas das uvas, o estilo clarete (meio caminho entre o rosé e o tinto) pode ser a solução. O brasileiro BellaQuinta Clarete Cabernet Sauvignon (Beba Bem em Casa), de São Miguel Arcanjo (SP), enche a taça de cor rubi e frutas vermelhas como morango e framboesa.

Brancos

Chardonnay

A Chardonnay é uma uva bem versátil, que pode gerar bebidas muito leves, frescas e minerais. Chablis, sub-região da Borgonha, é seu terroir mais famoso e seus vinhos, tradicionalmente sem passagem por madeira, têm toda essa elegância e leveza. Outros produtores mundo afora, porém, preferem trabalhar a Chardonnay em madeira, o que resulta em vinhos mais aveludados, de textura amanteigada na boca.

Se quer começar pelo topo, prove o Domaine des Malandes Chablis 2020 (Brindisi) ou o Chablis Premier Cru Côte de Lèchet 2019 (Cellar Vinhos), dos produtores Isabelle e Dinis Pommier. A região chilena de Limari tem se destacado por seus Chardonnay fresquésimos, e um bom exemplo disso é o Talinay Chardonnay (World Wine), da Viña Tabalí. Ele passa por madeira, mas mantém a acidez solar.

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Amitié Chardonnay Oak Barrel: 12 meses em carvalho francês.Foto: Divulgação

Entre os Chardonnay amadeirados e cremosos, Paula indica o italiano Tenuta Sant’Antonio Scaia I.G.T. Trevenezie Garganega Chardonnay (Wine), de corpo médio, com muito aroma de frutas tropicais e toque mineral. Do Brasil, um bom exemplo barricado é o Amitié Chardonnay Oak Barrel (Amitié), elaborado na Campanha Gaúcha, com estágio de 12 meses em carvalho francês. O Casa Valduga Terroir Chardonnay (Famiglia Valduga) também vale a prova e tem ótima relação custo-benefício.

O Odfjell Capítulo White Blend Orgânico (World Wine) é uma rara mistura de uvas Chardonnay e Sauvignon Blanc, as primeiras descansadas em carvalho e as segundas, sem passagem por madeira. Revela-se bem complexo na boca, em que se distinguem as pegadas amanteigada e fresca ao mesmo tempo. Um vinho bem louco.

Riesling

A uva branca Riesling, rainha na Alemanha e na região francesa da Alsácia, é das mais primaveris que há. Muito aromática, de acidez bem pronunciada, os vinhos de Riesling levam ao nariz frutas cítricas e polpudas, como pêssego, manga e pera. Também é comum sentir nos Riesling um cheirinho de plástico, que os especialistas chamam de petrolado.

A Riesling passou um período de má fama no Brasil, por causa da importação massiva dos “vinhos da garrafa azul”, rótulos doces e enjoativos, em que a nobre casta era misturada com outras uvas mequetrefes. “Trocken”, que significa “seco”, em alemão, é a senha para escolher vinhos com pouco teor de açúcar, embora haja Rieslings doces de grande qualidade também.

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Riesling Sinônimos: bom exemplar brasileiro com a uva da Alsácia.Foto: Divulgação

O problema de amar Riesling é que seus vinhos não costumam ser lá muito baratos, mas há uma opção bem típica de boa relação custo-benefício: o fresco Heinz Pfaffmann Riesling (em breve no Brasil pela Weinkeller), que vem em garrafa de 1 litro. Outros exemplares mais chiques e complexos são Wittmann Westhofener Riesling Trocken Premier Cru e Schloss Lieser Heldenstrück Riesling Premier Cru (ambos da Weinkeller).

A Riesling não costuma apresentar a mesma tipicidade de aromas e sabor quando cultivadas longe de sua terra natal. Mas há boas exceções, como o chileno MontGras Handcrafted Rare Riesling (em breve no Brasil pela importadora Bruck). Do Brasil, Paula recomenda o Riesling Sinônimos (Arte Viva), com estágio de três meses em barricas de acácia e notas de maçã verde, frutas cítricas, castanhas e mel e um toque mineral.

Laranjas

Os vinhos laranja são feitos com uvas brancas, só que suas cascas não são separadas durante a prensagem dos frutos e ficam em contato com o mosto durante algum tempo. Além da cor âmbar em seus mais variados tons, esse processo costuma gerar aromas mais intensos, líquidos mais encorpados e com presença de taninos.

Produtores naturebas são especialmente chegados em vinificar laranjas, e a tendência tem ganhado vinícolas de grande porte. Mas não se trata de modinha: na Geórgia, há 5 mil anos, já se faziam vinhos assim. Como a técnica permite empregar todas as variedades de uvas brancas do mundo, passear pelo mundo laranja é certeza de ter infinitas surpresas.

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O português FitaPreta A Laranja Mecânica: notas adocicadas de frutas cristalizadas e marmelada.Foto: Divulgação

Paula recomenda FitaPreta A Laranja Mecânica (Evino), do produtor alentejano António Maçanita, feito com as uvas locais Arinto, Roupeiro e Verdelho. Traz notas adocicadas de frutas cristalizadas e marmelada. Bizarra Naranja (TodoVino), do uruguaio Establecimiento Juanicó, leva as pouco conhecidas Gros Manseng e Petit Manseng e é douradão, frutado, com notas de mel e maçã. Por não passar por filtragem, apresenta-se turvo, com um jeitão rústico.

O natureba brasileiro BellaQuinta Chardonnay Laranja (Beba Bem em Casa) tem a mesma pegada wild, intenso e amanteigado na boca. Malvasia Bianca Laranja Faccin (Beba Bem em Casa) é outro exemplar brasileiro exuberantemente aromático. El Salvage Orange Style (Wine Lovers), com Chardonnay e Torrontés, da argentina Casa de Uco, é outro que vale a prova.

O Pheasant’s Tears Khikhvi (Europa) é a dica do sommelier Bruno Bertolli para quem quer cair na ancestralidade e provar um laranja da Geórgia, onde tudo começou, segundo achados arqueológicos. Feito com a rara uva Khikhvi, é vinificado em ânforas de barro e traz terrosidade e gosto de maçã, além de uma bela acidez.

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