Moda

Chanel e Armani reeditam legados em alta-costura prática

Segundo dia de desfiles da temporada recupera traços dos anos 1920 e prova como é possível extinguir dualidade entre função e beleza a serviço da mulher.

Foto: Divulgação Chanel
Chanel e Armani reeditam legados em alta-costura prática
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Não deve ser mesmo fácil criar imagens frescas quando os códigos de sua marca são tão enraizados no inconsciente das pessoas que qualquer mudança brusca poderia melindrar clientes assíduos. O que a temporada outono/inverno 2022-2023 de alta-costura parece querer mostrar, porém, é que não é necessário criar intervenções novidadeiras para se manter no olimpo. Chanel e Giorgio Armani Privé, os destaques deste segundo dia de desfiles, apontaram para esse caminho.

No caso da marca centenária, hoje conduzida por Virginie Viard, espera-se que pérolas, camélias terninho de tweed, jaquetinha preta e outros diminutivos que a moda adora vincular às criações de Coco Chanel, apareçam em algum momento. A questão que se impõe é de que forma os códigos se encaixam neste momento. E Viard respondeu.

ChanelFoto: Divulgação

Ela brincou com padrões gráficos para forrar as peças, algumas de inspiração déco. As flores, elementos notórios nos desfiles de couture até este segundo dia, apareceram pontualmente, aplicadas em bordados Lesage. O que muda é que a estilista se mostra mais preocupada com a função e menos com a imagem, um padrão de seu antecessor, o “showman” Karl Lagerfeld.

Repare. Estilistas mulheres em cargos de liderança criativa, como Maria Grazia Chiuri, da Dior, Nadège Vanhée-Cybulski, da Hermès, Isabel Marant e Donatella Versace, só para citar algumas das mais incensadas do calendário internacional, pensam muito mais em oferecer soluções práticas para o dia dia do que imaginar uma intervenção plástica.

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ChanelFoto: Divulgação

São mulheres, afinal, e sabem bem que as construções do século 20 pouco privilegiaram seu conforto –impossível não lembrar de Christian Louboutin quando ele disse à “New Yorker”, em 2011, que criava sapatos para agradar aos homens, não as mulheres. É bem por aí a ideia do que hoje se desfaz na passarela.

Viard abre os botões dos casacos de tweed e dos cardigãs, oferece bolsos utilitários às peças, amplia as saias sem prender os movimentos e abre decotes que revelam o colo para dar destaque aos acessórios dourados que reluzem ali, não para tornar o corpo um símbolo de volúpia.

ChanelDivulgação

Seguindo essa linha de raciocínio, fará sentido a escolha dela pelo construtivismo, a corrente estética criada na antiga União Sovitética ainda no início do século 20 e que levou função à arquitetura, explorando linhas e geometria a serviço da função.

A arte construtivista colocou a sociedade em primeiro plano, as necessidades básicas na frente dos afãs de embelezamento e transformou os artistas em agentes de transformação. É isso que a estilista procurou quando preferiu tingir as peças em cores blocadas, como o verde, os rosas, o vermelho, o branco e o preto. Até a combinação P&B característica da Chanel foi deixada em segundo plano, com apenas dois looks usados na passarela para constar.

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As linhas metálicas da arte decorativa rebuscada nos anos 1920, uma evolução do construtivismo gestado uma década antes, está posta em detalhe de um busto, mas aparecem com brilho apagado nos vestidos de festa que moldam o corpo de forma discreta.

ChanelFoto: Divulgação

Assim como fez a colega da Dior, tudo naquela passarela é alta-costura, mas é silenciosa, quase hermética, e ainda assim visivelmente exuberante quando olhada de perto. Não há estampas onde parece haver, porque é bordado, construído à mão, do corte à aplicação. É Chanel em estado mais puro, na forma e no propósito de libertação.

Mesmo Pharrell Williams, que abriu o desfile com um solo de bateria, oco, seco, dizia muito do que Viard queria explorar. O instrumento é a base da história do rapper, amigo da marca desde os tempos de Lagerfeld, e o pilar de sua musicalidade.

Girogio Armani PrivéFoto: Dominique Charriau/WireImage

E como estamos tratando aqui de bases de sustentação, nada mais claro do que perceber o quão Giorgio Armani é consciente da sua. Na passarela da Privé, a versão de alta-costura de sua marca, ele verteu todos os signos de seu repertório. Mesclou desde a jaqueta que simboliza sua obra até os elementos suntuosos de tapete vermelho.

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Também pescando referências dos anos 1920, a grife usou franjas e linhas geométricas, algumas delas costuradas com brocados e paetês. A cartela característica de Armani, uma mistura bem executada de tons de azul, cinza concreto, róseos e nuances de roxo, tingiu a maioria dos looks.

Giorgio Armani PrivéFoto: Dominique Charriau/WireImage

Há mantos de jacquard, calças clochard e uma série de vestidos que parecem explodir com brilhos um céu estrelado pelo corpo. O ponto de atenção está nas extremidades das roupas, com algumas barras adornadas de pedrarias, colos que se expandem em tules e um exímio acabamento nos forros.

As flores surgiram como detalhes importantes na “couture” desse estilista, bordadas como único elemento visual em meio a tantas texturas e ilusões ópticas.

Vale destacar também a provável lembrança de Armani ao centenário da estética La Garçonne, originária do livro homônimo de Victor Margueritte lançado na França em 1922 e que detonou a imagem feminina que hoje a moda define como tomboy.

GIorgio Armani PrivéFoto: Dominique Charriau/WireImage

Um escândalo na época, a personagem principal decide se libertar das traições do marido e viver livremente, cortando os cabelos na altura da nuca –imagem símbolo desse estilo– e adota roupas vinculadas ao guarda-roupa masculino. Quer mais Armani do que isso?

Então, detalhes da lapela do smoking se confudiram na passarela às linhas do vestido de festa, arrematados com listras feitas de bordados e paetês. Ele lançou mãos de lamê, seda, veludo e toda a sorte de bases da moda festa, só que as releu à sua maneira, criando um jogo de gêneros desprovido de ideias datadas sobre certo e errado.

Pelo menos na alta-costura, as possibilidades hoje são amplas demais para a moda se restringir às cartilhas mofadas, e é animador como mesmo quem poderia se acomodar nelas preferiu sair da zona de conforto.

Giorgio Armani PrivéFoto: Pascal Le Segretain/Getty Images

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