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Bianca Saunders anda ocupada. Só em 2020, a designer britânica apresentou seu trabalho no Palais de Tokyo, em Paris, figurou na lista 30 Under 30 da Forbes, desfilou uma coleção na semana de moda de Londres e terminou o ano escolhida por Alessandro Michele para integrar o Gucci Fest, festival digital da marca italiana. Desde então, ela não parou mais e, agora, acaba de se tornar a vencedora do 32ª ANDAM Fashion Award, premiação francesa que já congratulou designers como Anthony Vaccarello e Giles Deacon.

Essa foi a primeira vez que o evento decidiu estender a láurea aos designers internacionais e, de cara, a londrina levou para casa o prêmio de 300 mil euros e um ano de mentoria com o presidente da Balenciaga, Cédric Charbit. "Estou completamente em choque, não esperava por isso. É um grande passo para mim", disse, na ocasião da entrega do prêmio.

O executivo da Balenciaga, por sua vez, afirmou que, para escolher o vencedor, o júri do prêmio considerou pontos como carisma, êxito e o olhar de "alguém que conseguimos enxergar indo muito longe. Esse é o caso de Bianca".

E ele não exagera. Parte de uma empolgante nova geração da moda britânica, a estilista, nascida e criada no Sul de Londres, tem uma visão clara do que está fazendo. Sua família, de origem jamaicana, é espinha dorsal de um processo constante de aprofundar a compreesão sobre a psique dos homens negros e a maneira como eles são lidos.

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Bianca Saunders é a primeira estrangeira a levar o prêmio francês ANDAM.Reprodução/Instagram

Após uma extensa pesquisa imagética e conversas com seus amigos e familiares, Bianca sentiu que existia uma lacuna nas imagens em torno da masculinidade negra e, a partir disso, criou um outro espectro, longe de estigmas e construções sociais. Definida por muitos como uma marca masculina, o rótulo advém desse estudo da estilista sobre suas origens.

Uma entre seis filhos e mais de trinta netos, a estilista cresceu observando os pais, avós, irmãos e primos orgulhosos da boa aparência nas 24 horas do dia. Estar em seu melhor em frente às pessoas, sabe-se, é parte crucial da cultura jamaicana e espécie de instrumento de reafirmação, cujo cerne é mostrar um certo respeito com o outro por meio de como você se apresenta a ele.

Ao abordar essa tradição e ligar os pontos com a modernidade, ela conseguiu fundir referências ao bom corte da alta-costura na mesma medida em que celebrou as ruas. Isso pode ser percebido em suas peças, a exemplo das camisas de jersey que já são hits, formadas por franzidos delicados e artesanais ao mesmo tempo em que há também aplicações em cetim ignorando as linhas da costura. A alfaiataria, bem cortada, é prova da relação íntima com a roupa, e, embora há quem entenda como moda masculina, cada peça parece pertencer ao corpo da própria estilista.

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Porém, a definição de gênero não é exatamente relevante para a etiqueta. Até porque, as roupas são baseadas numa quase autodocumentação.

Divulgação

Bianca Saunders, inverno 2021.


Sua última coleção, apresentada durante a temporada de inverno 2021, extrapola esse pilar. Bianca investiga a roupa em movimento, levando em conta os vincos e as torções do corpo humano. A ideia é traduzida a partir de elementos surrealistas e estruturas construídas sob medida. Casacos de lã, paletós ondulados e silhuetas intencionalmente enrugadas adicionam sensibilidade quase lúdica aos básicos do guarda-roupa.

BERÇO DA VANGUARDA

Não causa espanto que tenha saído da Grã-Bretanha o primeiro estrangeiro escolhido para ganhar o ANDAM Fashion Award. É de lá que vieram alguns dos criativos mais vanguardistas e inovadores da indústria 一 Alexander McQueen e John Galliano que o digam. É que o Reino Unido – e principalmente Londres – tem um esforço reconhecido para nutrir, apoiar e promover jovens talentos. Exemplo disso é a NEWGEN. Realizada pelo British Fashion Council, a iniciativa fornece suporte técnico e financeiro aos designers emergentes. Bianca Saunders é uma das apoiadas, assim como foram McQueen, Christopher Kane e Simone Rocha. Designers como Craig Green e Charles Jeffrey estão na lista da atualidade.

Alcançar a musculatura necessária para fazer parte desse seleto grupo de criadores, porém, nunca foi algo simples. Para Bianca, o processo entre deixar de ser uma estudante e se tornar a dona de sua própria marca foi um tanto complicado. E continua sendo, mesmo com o negócio já estabelcido.

Equilibrar o seu tempo entre momentos criativos e partes burocráticas exigidas por uma empresa é um desafio. Acontece que, desde o início da carreira, ela não se interessou em passar por uma grande casa de moda antes de criar sua própria etiqueta, preferindo aprender na prática, com os erros e acertos comuns às trajetórias ímpares.

De início, seu interesse foi pela arte, mas um tio lhe contou que artistas só ganhavam dinheiro depois de mortos. Foi aí que decidiu se tornar estilista. Aos 19 anos, ingressou na Kingston University, onde estudou design de moda por três anos e criou roupas femininas durante a maior parte do curso. Já nos últimos meses, um tutor lhe sugeriu que experimentasse com a moda masculina. Embora não tivesse certeza se aquilo seria para ela, a designer decidiu testar e acabou encontrando ali sua estética.


Seguiu para a Royal College of Art e, ali, especializou-se no design masculino. Em 2017, arriscou um lance maior e abriu sua grife homônima. A motivação surgiu do fato de que nas duas faculdades era a única aluna negra presente às aulas e não queria que isso fosse um retrato do mercado de trabalho. Ao seguir os próprios termos, viu espaço para trabalhar com quem bem entendesse e a oportunidade de provar sua capacidade de gerir um negócio de sucesso.

Sem tirar nem um único dia de folga, já em 2018 a designer fez com que a marca Bianca Saunders fosse nomeada pelo British Fashion Council como um nome para prestar atenção e não tardou até que conseguisse integrar o calendário da semana de moda de Londres.

É importante saber que os maiores ícones de Bianca não vivem de moda. Kelis, Solange e Cardi B são alguns dos nomes que lhe servem de inspiração. Mas, quando se trata de apontar designers, ela vê em Jonathan Anderson e Craig Green, também britânicos, bússolas da nova costura.

Considerando que os dois, assim como ela, confundem os limites entre o masculino e o feminino, a estilista parece querer que olhemos para o futuro. Isso, enquanto ela rasga o livro de regras com um senso de ambição revigorante. Parece dizer: "esse é só o começo".

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