Estreante da RioFW, Karoline Vitto se reaproxima do Brasil com sua moda para corpos diversos
Em entrevista, a estilista Karoline Vitto antecipa detalhes de seu desfile na Rio Fashion Week e explica por que decidiu produzir suas roupas no Brasil após seis anos de operação internacional.
Nascida em Caçador, Santa Catarina, Karoline Vitto começou a pesquisar roupas para diferentes manequins durante o mestrado no Royal College of Art, em Londres, onde vive desde 2016. Em 2020, os estudos viraram marca, com direito a desfiles na London Fashion Week e em Milão e celebridades como Ashley Graham, Shygirl, Kelly Rowland, Nathy Peluso e Precious Lee na lista de clientes. No dia 17 de abril, dez anos da mudança e seis do lançamento, a etiqueta fará sua primeira apresentação no Brasil durante a Rio Fashion Week.

A designer Karoline Vitto. Foto: Divulgação
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O incômodo que deu origem à grife acompanha Karoline desde a adolescência. A estilista lembra da mãe e da irmã no provador das lojas, questionando o caimento das peças. “Eu visto (tamanho) 46, sempre estive nesse lugar intermediário e me perguntava por que tal look era daquele jeito e não de outro”, diz ela. “Acho importante entender as necessidades de cada mulher, onde cabe um elástico, como aquilo vai se comportar no corpo – e em que corpo.”
Sua moda é uma das poucas genuinamente inclusivas. Além de não esconder a silhueta não magra, a coloca no centro da narrativa com vestidos drapeados e recortados, tops cropped, calças de cintura baixa e saias com fendas generosas. As dobrinhas das costas são evidenciadas, a barriga fica marcada e o quadril largo ressaltado. A sensualidade também entra na equação: “Essa característica veio naturalmente”, explica. “A marca é meu alter ego e muito inspirada pelos anos 2000, época em que queria ver mulheres como eu representadas na mídia.”

Karoline Vitto, inverno 2026. Foto: Divulgação
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A estreia na passarela aconteceu em setembro de 2022, com a incubadora de talentos Fashion East, na semana de moda de Londres. “Foi um marco importante. Todas as modelos eram curvy e viraram minhas clientes.” No ano seguinte, Karoline Vitto foi convidada pela Dolce & Gabbana para participar do projeto Supported By, que oferecia auxílio financeiro e de produção (com styling assinado por Katie Grand) para criadores independentes desfilarem em Milão. Com o apoio, ela apresentou novas linhas de produtos, como jeans e beachwear.
Inicialmente, as vendas eram sob encomenda, feitas via e-commerce próprio. “Não tinha coleções, só looks soltos”, conta. “Eu trabalhava de casa, fiz centenas de peças sozinha.” O perrengue valeu a pena. A relação direta com a consumidora foi fundamental para a estilista entender o que de fato funcionava na prática. Hoje, há itens para pronta-entrega, mas a produção ainda é reduzida – e, desde o ano passado, realizada majoritariamente no Brasil.
A reaproximação com o país de origem veio durante as comemorações do Latin American Fashion Awards em 2023 (ela venceu o prêmio de estilista emergente). Lá, Karoline entrou em contato com outros criativos brasileiros e passou a acompanhar mais de perto o que acontecia por aqui. Para o verão 2025, uma colaboração com o designer de acessórios Carlos Penna estreitou os laços nativos – a parceria rendeu um evento na loja do mineiro em São Paulo. “Comecei a me interessar pela forma como nossa roupa era percebida no país e também ganhamos novas clientes por aqui”, fala. “Não fazia sentido produzir na Inglaterra e importar para cá. Decidi fazer o contrário.”

Preta Gil no Volume 15 da ELLE Brasil, publicado em março de 2024. Foto: Juliana Rocha
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A estreia de Karoline Vitto na Rio Fashion Week acontece em um momento conturbado em termos de diversidade de corpos. A magreza extrema está de volta, impulsionada pelo boom das canetas emagrecedoras, retrocessos de valores e comportamentos e uma indústria de bem-estar com entendimentos limitados e irreais sobre a definição de um corpo ideal e saudável. “Nem gosto de falar muito sobre (o tema) porque é complexo e assustador. Precisamos entender que é um fenômeno político e cultural. Nossa resposta continua sendo lutar pela inclusão – vamos seguir com manequim do 36 ao 52.”
No desfile carioca, a grife trará releituras de seus best sellers, uma linha de moda praia (que já havia aparecido em Milão, mas nunca foi produzida) e a segunda colaboração com Carlos Penna. Parte da coleção estará à venda imediatamente após a apresentação na multimarcas Pinga e no e-commerce da etiqueta.

Karoline Vitto, inverno 2025. Foto: Divulgação
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