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É uma mania minha sair de um evento ou semana de moda e voltar caminhando para casa ou hotel. Nas coberturas das fashion week internacionais acho até meio essencial para entender melhor alguns contextos, fazer outras conexões, ver a cidade, como as pessoas se relacionam com ela. Quando coincidia de estar junto da editora especial e colunista da ELLE, ViVian Whiteman, era uma peregrinação sem fim – e, às vezes, sem rumo –, com muita conversa, boas ideias, risadas e um tantinho de vinho dependendo do horário.

Ao sair de um desfile, por exemplo, gosto de ver a transição de looks, o dissolver de ideias, de estéticas. Primeiro ficam para trás as montadas da cabeça aos pés por uma só grife, tipo boneca. Depois, em movimento mais livre e desordenado têm os que já entenderam as possibilidades da liberdade e da combinação descomprometida entre marcas, estilos, referências e, para as mais ousadas, proporções e silhuetas. Esses costumam dispersar mais rapidamente também, nem sempre em grupos e quase nunca na mesma direção. E aí, tem os mais preocupados em expressar algum traço mínimo de identidade ou algum atributo físico específico e, ao mesmo tempo, garantir conforto, funcionalidade e qualquer tipo de adequação necessária, sabe-se lá por que. Esses raramente estão no evento em si, a maioria nem sabe do que se trata e tampouco se importam ou interessam.

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Se você prestar bastante atenção nesses grupos resumidos de forma bem grosseira, consegue perceber pontos em comum, fios condutores e alguns tipos de validação de uma moda ou um estilo que acabou de aparecer na passarela. Recentemente, voltando de carro do desfile da Meninos Rei, na São Paulo Fashion Week, não era difícil conectar algumas silhuetas, combinações e até atitudes vistas nas passarelas com o caminhar e roupas de algumas pessoas na Av. São João, ali entre a Av. Pacaembu e a estação Marechal Deodoro do metrô. Era tudo menos colorido e complexo, mas as ideias, as formas, a praticidade e o conforto desfilados horas antes estavam lá. Era tudo verdade, só com um pouquinho de fantasia sob os holofotes do evento.

Martine Rose.Foto: Divulgação

Acontece que nem sempre o que se vê na passarela tem esse quê fantástico. E é incrível mesmo assim. Maritne Rose, um dos nomes mais brilhantes da nova geração de estilistas britânicos, deixou isso bem claro com seu retorno aos desfiles presenciais (o último foi em 2019). Mas antes, vamos relembrar algumas coisinhas sobre a designer: ela ficou famosa por referenciar as subculturas de rave e reggae que dominaram a parte sul de Londres nos anos 2000. Com base em tais elementos, desenvolveu uma alfaiataria oversized e outras peças carregadas de elementos esportivos que logo viraram coqueluches entre as marcas de luxo. Quando Demna Gvasalia, já na direção criativa da Balenciaga, precisou fazer uma linha masculina, chamou Rose como consultora.

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É que os dois têm algumas similaridades na maneira como trabalham e enxergam a moda – o que vai muito além do gosto por volumes exagerados, como os dos blazers pelos quais a marca de Martine e a Balenciaga ficaram conhecidas. Tudo começa com um olhar atento às ruas, às pessoas, ao que elas vestem, vestiram e o que tudo aquilo significa social e culturalmente. É quase um estudo antropológico.

Martine Rose.Foto: Divulgação

Martine Rose.Foto: Divulgação

Para o verão 2023, Martine pensou em muitas coisas: microdetalhes, coisas vistas e sentidas muito de perto, sensações quase íntimas, de pressão, de desejo, de sexo. Está tudo interconectado. E no desfile também. A locação é um antigo clube de pegação gay em Londres. E para quem acha que clube de pegação é só putaria, procure saber mais: trata-se também de espaços seguros para todos aqueles que não se sentem à vontade para expressar suas sexualidades e realizarem atos sexuais em ambientes ditos mais convencionais.

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De volta à coleção, as roupas têm aparência bastante comum à primeira vista. De perto, trazem uma série de modificações e detalhes que se conectam às vontades da estilista mencionadas acima. Algumas jaquetas, por exemplo, parecem um ou dois tamanhos menores. Outras são encurtadas na frente ou apertadas nas costas. Botões ajustam e contorcem silhuetas, como se a pessoa tivesse se vestido às pressas, sem se encaixar direito na peça. Outras, como os vestidos camisolas sobre casacos de alfaiataria, as camisas meio soltonas, as calças caídas sobre o quadril indicam o caminho contrário, a urgência do despir.

Martine Rose.Foto: Divulgação

Martine Rose.Foto: Divulgação

A tensão sexual é sensível até pelas fotos. Ainda assim, as roupas são desejáveis para muito além de ambientes não cobertos por cortinas de látex e cantinhos escuros. Na verdade, o grande apelo dessa coleção é a familiaridade e a relação que as peças estabelecem com cada um de nós. Os jeans de corte reto e cintura alta, o trench-coat bege, os blazers oversized e a sensacional seleção de acessórios são possíveis em toda e qualquer situação. São peças que podem não chamar atenção, mas parecem corretas. Se conectam com o atual desejo de uma roupa arrumada mas nem tanto, comum e meio estranha, mas nunca montada demais, nunca uma fantasia. Depois da euforia pós-vacina, é como se estivéssemos todos um pouco ansiosos por roupas de verdade, de qualidade, que façam sentido para além de um clique ou de um dance extravagante.

E aí entra outra possível leitura bem interessante. Ao aproximar itens tão cotidianos do guarda-roupa a um ambiente e universo sexual, por décadas visto com maus olhos e discriminado pela sociedade, Martine está nos falando que sexo é tão básico quando uma calça jeans com camiseta. É como cantou George Michael: "Sex is natural, sex is good / Not everybody does it / But everybody should / Sex is natural, sex is fun". O local onde o desfile aconteceu, em Londres, já concentrou algum dos clubes e bares mais históricos da cena LGBTQIA+ da cidade. Devido à crise causada pandemia e, antes disso, políticas conservadoras e higienistas, muitos estabelecimentos já não existem mais. Como falamos, não são apenas buatchys ou casas de sexo. São também espaços de acolhimento, safe places para todo uma comunidade. Uma apresentação com mensagem relevante, bem articulada, direta e com muito produto bom.

Enquanto isso, no desfile virtual VTMNTS, linha mais nova da Vetements, o estilo que influenciou (e influencia) toda uma geração de jovens consumidores parece um tanto mais preocupado em reforçar uma imagem construída calculadamente para gerar o maior número de cliques do que propor algo realmente conectado às mudanças de comportamento que vem acontecendo fora da bolha comercial do luxo e das redes.

Não que muita clubber ainda se vista assim para dançar em festas de música eletrônica até o sol estar tão alto a ponto de lembrar que o protetor solar não foi aplicado na noite anterior. Porém, o que se vê na passarela é uma versão anabolizada de ideias, silhuetas e modelagens que se provaram comercialmente bem-sucedidas na edição passada – e agora com um discurso um tanto raso sobre equidade de gênero.

VTMNTS.Foto: Divulgação

VTMNTS.Foto: Divulgação

Os desfiles de Martine Rose e da VTMNT se assemelham na vontade de traduzir e evoluir em cima de comportamentos e estilos sociais. Porém, se diferem no aprofundamento e direcionamento dos estudos.

Existe uma espécie de ditado que diz que uma moda só se concretiza quando chega na rua. Em outras palavras, quando consegue existir fora da passarela. Porém, existem algumas formas para essa vida além do catwalk. Tem aquela que leva em consideração movimentos e vontades sociais ou de pequenos grupos de pessoas e aquelas que se apoiam na inércia das massas, de olho nos likes e no fluxo do caixa. E tudo certo. Moda é sobre isso tudo.

VTMNTS.Foto: Divulgação

VTMNTS.Foto: Divulgação

As duas estão nas ruas. Contudo, uma é arremessada no fluxo em busca não de validação, mas na expectativa que, na correria de todo dia, ninguém perceba que é só mais do mesmo e acabe a chutando para sarjeta. Já a outra, inserida pontualmente, pode ressoar quase de imediato com seu nicho e atingir volume alto o suficiente para mudar o direção do tal fluxo Já aconteceu antes. Com essas duas marcas inclusive.

A validação necessária para as propostas das duas grifes são comerciais, de um lado, e de autenticidade, do outro. A mais rentável a gente já sabe qual é, a mais duradoura e significativa acreditamos que já sabemos do mesmo jeito. Afinal, não foi à toa, Michael Burke, CEO da Louis Vuitton, foi a Londres para assistir a um único desfile – no caso, de Martine Rose. Segundo a boca miúda, a estilista é uma forte candidata a ocupar a vaga deixada em aberto por Virgil Abloh no masculino da maison francesa. Será?

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