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Começou nesta quarta-feira, 06.07, a 50ª edição da Casa de Criadores, semana de moda autoral e independente, que completa 25 anos em 2022. O evento sempre foi e continua sendo uma plataforma para expressões de todos os tipos: das experimentações têxteis, como o trabalho de franzidos, babados e plissados de Elias Kalleb, à paixão divertida por anime de Dario Mittmann até imersões bem pessoais, como foi a da marca Shitsurei, e o punk couture de FKawallys.

No entanto, é na abertura para novas possibilidades e novas vozes da moda brasileira que o evento brilha e mostra sua força. Neste celeiro de novas ideias, a usabilidade das roupas nem sempre é colocada em primeiro plano. Alguns conceitos tradicionais são deixados de lado em favor e em busca de outras expressões necessárias e não menos válidas por suas limitações técnicas. Ainda assim, são pontos que não podem ser ignorados ou relevados a longo prazo. E isso vale tanto para quem faz como para empresas e instituições quem desejam incentivar, apoiar e investir na renovação do setor. As demandas de mercado não são tão flexíveis assim e, para sobrevivência de todos, ainda são necessários alguns ajustes – o que nem sempre se consegue sozinho.

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Guma JoanaFoto: Antônio Pereira Brandão

Tome como exemplo o desfile de Guma Joana, que usa do upcycling para criar as peças que refletem o rolê da noite underground paulistana, espaço que frequenta e de onde tira muitas das suas referências, e sua vivência como mulher trans. A ideia foi homenagear os 30 anos da morte de Marsha P. Johnson, travesti ativista que liderou o movimento por direitos e liberdade da população LGBTQIA+ nos Estados Unidos, a partir da revolta de Stonewall, em Nova York.

“A nossa maior vingança como pessoa trans é viver”, explica a estilista no backstage. Na celebração de vida, luto, luta e morte, Guma despe o corpo e o decora com correntes, vestidos de tramas bem abertas, minissaias jeans e tops minúsculos. Nos acessórios, seringas e cartelas de hormônios são usados para criar colares e óculos. Pela primeira vez, ela não fez um casting apenas de pessoas trans. O motivo? “Não queria fazer o que a cisgeneridade faz e colocar apenas uma pessoa cis no desfile.”

YeboFoto: Antônio Pereira Brandão

Outra vertente forte na Casa de Criadores é a das passarelas performáticas. É o caso da Yebo, marca de Domenica Dias, que uniu referências dos filmes de terror negro dos anos 1970 com o desespero de viver no Brasil em 2022. Através de diversos tipos de dança e manifestações corpóreas, a estilista e atriz dirigiu a performance que contava com uma mulher em cima de uma perna de pau vestida com bandeiras do Brasil e máscara de gás. O sentimento era de desespero.

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A mesma sensação é – e sempre foi – o ponto de partida de Day Molina, da Nalimo, que estreou presencialmente na passarela da CdC como o grande destaque do primeiro dia do evento. “Por muitos anos, a gente viu a moda se apropriando desses códigos (das culturas indígenas) sem ter uma pessoa indígena como criativa no comando de tudo”, diz a estilista. Hoje, toda a sua equipe e 97% do seu casting é composto de pessoas de povos originários.

NalimoFoto: Antônio Pereira Brandão

Na coleção, Molina traz técnicas de diversos povos e biomas indígenas, como as estampas manuais de pirarucu, os trançados de palha, os colares de sementes e as bolsas, feitas a seis mãos ao lado de sua avó e sua mãe. Para além da moda, a Nalimo usa o evento como plataforma para fazer a roupa política e social que acredita. No início do desfile, modelos entraram segurando bandeiras com os dizeres “parem o genocídio indígena”, em alusão aos retrocessos presenciados durante os quatros anos do mandato de Bolsonaro. Se por muito tempo, o povo indígena ficou às margens do protagonismo que lhes é seu por direito, a Nalimo faz questão de tomá-lo de volta – e segue fazendo história no evento da melhor maneira possível.

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