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Moda

Nem só de Estados Unidos vive o hip-hop

Artistas de diferentes países imprimem vivências e estilos particulares sobre o gênero, na hora de rimar ou na hora de se vestir. Aqui, listamos sete deles para você conhecer.

Getty Images
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Faz mais de 40 anos que os primeiros beats e samples de hip-hop começaram a ser tocados nas periferias de Nova York. Ao longo da história, porém, o gênero - marcado pelas rimas, críticas sociais e enraizado nas culturas negras - se expandiu, se transformou e adentrou (ou foi cooptado por) outros territórios. É verdade que os nomes mais conhecidos seguem sendo os estadunidenses, ainda mais em termos de moda, mas eles não são os únicos da cena.


Voltando um pouco na história, lá em 1970, o estilo das roupas era marcado por modelagens amplas e largas, a famosa cintura baixa (que, para o desgosto de muitos, está voltando), correntes de ouro e tênis esportivos. Outros elementos estéticos foram as unhas longas, os cabelos em tranças ou dreads e o durag, uma espécie de lenço na cabeça.

É provável que você já tenha ouvido falar do Snoopy Dogg, rapper estadunidense. Ele foi um dos grandes responsáveis por alavancar a marca Tommy Hilfiger na época, ao usar uma blusa com as cores e logo da marca na Saturday Night Live, em 1994. Antes, em 1986, o grupo Run DMC lançou a música My Adidas. Em 1995, um ano antes de sua morte, Tupac desfilou para a Versace. Mais recentemente, Cardi B estrelou campanhas da Reebok, Kanye West desfilou nas semanas de moda de Nova York e Paris e Pharrell Williams firmou parcerias com a Adidas e Chanel.

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Mas, se antes a cena hip-hop era sempre referenciada aos Estados Unidos – o que faz sentido, dado sua origem –, hoje, o gênero tem artistas de Porto Rico à Índia e Congo. Eles somam às produções seus contextos locais e ressignificam o movimento a partir de suas histórias e realidades.

Um exemplo é a região sul-coreana, que não vive só de K-Pop. O K-Hip-Hop é um estilo em ascensão, que às vezes parece um primo underground do pop, mas concentra artistas e grupos renomados. O gênero desembarcou no país sul-asiático no final da década de 1980, e depois, só cresceu. Fazer rima em coreano não é tarefa fácil, afinal a sonoridade da língua não é nada parecida com o inglês. Mas Verbal Jint, rapper do país, desenvolveu uma metodologia própria que facilitou as composições de seus posteriores.

Já na América Latina, o movimento hip-hop começou a ganhar força no período pós-ditadura militar, nos anos 1980. Por aqui, o contexto é diferente e os processos de colonização foram constituídos de outra forma, baseados na diáspora negra e na tentativa de dominação dos povos originários. Isso resulta nas letras e posicionamento do rap latino, que ao rimar, denunciam as veias abertas do território – como discorre Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina – mas também celebram sua riqueza cultural e resistência. Ainda, outros ritmos são incorporados, como o reggae, originário da Jamaica (América Central) e o soul.

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E a moda que acompanha tudo isso também mudou. As modelagens amplas, as calças baixas e um boot pra arrematar o look não são mais tão padrão assim. Claro que, em 2021, as pessoas usam o que bem quiserem. Mas, houve uma readaptação dos signos das vestimentas do hip-hop para a realidade de cada território. Faz sentido: se o streetwear é a moda de rua, ela muda o tempo todo e acompanha sua localidade. O interessante mesmo é observar as flutuações que a moda e a música, tão close friends, sofrem ao mudar o espaço-tempo em que se constituem.

Para expandir sua visão e escuta, listamos seis artistas da cena hip-hop para além dos Estados Unidos:

Mc Soffia (Brasil)

Soffia Correia, ou Mc Soffia, é uma jovem cantora de 17 anos, que soma milhares de ouvintes por todo o país. Mesmo com a pouca idade, o sucesso não é de hoje. O primeiro hit foi Menina Pretinha, lançado em 2016. Soffia rima sobre aceitação, beleza negra e empoderamento. Na hora de se vestir, seu estilo tem se tornado inconfundível. Segundo a cantora, uma de suas referências na moda é a rapper norte-americana Saweeti, mas ela confidenciou à reportagem Moda dos Cria, na edição de agosto da ELLE View, que seu item queridinho do momento é um boot: o Nike 12 molas.

Goyo (Colômbia)

Gloria Martinez, aka Goya, integra o trio do ChocQuibTown. A artista, assim como os outros integrantes do grupo, é natural de Chocó, um região na Colômbia com grande concentração de afro-colombianos. Nas letras, tanto a riqueza cultural da Colômbia é celebrada, como também são tecidas críticas às desigualdades sociais e ao racismo. Tudo isso fez com que o grupo levasse dois Grammys Latinos para casa, nos anos de 2010 e 2015.

Em 2020, Goya enviou uma carta aberta à Billboard falando sobre os protestos antirracistas nos EUA e América Latina e a falta de discussão sobre o tema na indústria musical. "Certa vez, uma marca de roupas me disse que black não vendia bem", escreveu ela. "Devemos falar sem tabu, sem medo de sermos criticados por abordar um assunto que vai além das fronteiras."

A moda não fica de fora das manifestações. No último dia 9, a cantora participou do evento Ellas y Sú Musica, organizado pelo Grammy Latino, com um look especial: uma calça e jaqueta customizadas com a frase ''No se rinde el que nació donde por todo hay que luchar'' (Quem nasceu onde sempre se deve lutar, não se rende, em tradução livre.)


Lousita Cash (Congo/Bélgica)

Lous and The Yazuka, ou apenas Lousita Cash, é uma cantora belga-congolesa, que nasceu e cresceu entre Ruanda e Congo. A rapper diz que sempre teve que ser criativa com a moda – e desenvolve uma boa relação com ela. ''No Congo, eles literalmente criaram algo chamado La Sape, que é a arte de se vestir de uma maneira muito extravagante. Acho que peguei isso mais do Congo porque tudo lá é muito extravagante – sou congolesa e adoramos isso'', disse ela em entrevista ao site The Fashionista.

Na hora dos looks, sua stylist Elena Mottola auxilia nas produções com etiquetas renomadas, como Prada, Loewe e Margiela, ou com itens básicos como jeans e camiseta. Além de se vestir com essas marcas, Lous também desfila para elas. Louis Vuitton firmou uma parceria com a cantora, que fechou um desfile da maison, em novembro passado. Ela também já estampou campanhas com a Chloé e Adidas. Mesmo assim, ela relata falta de representação: ''Sofremos com uma falta de representação tão grande porque até hoje, quando as marcas estão tentando ser diversificadas, ainda não é suficiente''.

Arivu (Índia)

Arivarasu Kalainesan, que usa o nome de Arivu, é um rapper indiano. Seu hit mais recente foi Enjoy Enjaami, um feat com a cantora também indiana Dhee. O artista é conhecido por rimar sobre questões políticas e sociais da Índia e a música, lançada em março, já soma mais de 200 milhões de visualizações. Tanto a música como o clipe celebram a ancestralidade do país asiático e buscam evidenciar as relações com os povos originários e a natureza. A composição visual do clipe mistura trajes popularmente indianos, mas também retrata a vida dos trabalhadores no campo.

CL (Coréia do Sul)

Lee Chae-rin, conhecida como CL, é uma cantora sul-coreana que fez parte do extinto grupo feminino 2NE1. Assim como outras artistas globais, a rapper aparece usando todas as etiquetas de luxo, de Chanel à Saint Laurent. Um de seus amigos próximos é Jeremy Scott, estilista e diretor criativo da Moschino. A artista, há anos, aparece utilizando as criações da marca, seja em eventos, campanhas ou clipes.

Calle 13 (Porto Rico)

Grupo de Porto Rico formado em 2004 por René Pérez Joglar, conhecido como Residente, Eduardo José Cabra Martínez, conhecido como Visitante, e Ileana Cabra Joglar, conhecida PG-13. O grupo já soma 21 prêmios Grammy, sendo 19 latinos e dois internacionais – além de outros da indústria musical. A estética do vocalista, Residente, ainda mantém alguns códigos estéticos da era do hip-hop americano anos 2000, com as regatas, as correntes e as calças de cintura baixa.

Nathy Peluso (Argentina)

Nathy Peluso é uma cantora e compositora nascida em Luján, Argentina, mas que cresceu na Espanha. Com 25 anos, ela já soma grandes sucessos e algumas indicações ao Grammy Latino. A artista diz que a escolha dos seus looks, nos clipes, é um ponto importante das composições. ''Toda a moda significa muito para mim, porque é muito importante - as cores, as texturas - a maneira como você a veste é muito importante para construir um personagem.''

Uma estética consolidada pelas periferias, cuja imagem de moda anda ao lado de gêneros como o funk, o trap e o grime, forma um visual high tech, ao som de sintetizador, que é um retrato potente de vivência da quebrada.


Conversamos com artistas do gênero em diferentes momentos de suas carreiras para entender a complexa e instigante estética do trap brasileiro.


Seria o fim do streetwear na moda? Apesar das falas e previsões apocalípticas, é praticamente impossível que o lifestyle vá embora tão cedo – ainda que ele venha se transformando nos últimos anos.

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