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Em 2020, falou-se muito sobre como nos vestiremos quando a pandemia acabar. Não faltou live, webinar, palestra virtual, workshop e textão com especulações nesse sentido. Nem coleção pensada inspirada no impacto do nosso estado emocional, psicológico, social e econômico na escolha do que colocaremos no corpo. Resposta absoluta não há. O que temos são algumas interpretações interessantes de tal questionamento. As melhores, porém, falam mais do presente do que do futuro. É o caso das coleções de verão 2021 da Bottega Veneta e Saint Laurent. Apresentadas recentemente, na segunda (14.12) e terça-feira (15.12), respectivamente, elas propõem desdobramentos que conectam projeções e desejos de um possível amanhã à realidade atual


Bottega Veneta

Foto de modelo com look de tric\u00f4 no desfile da Bottega Veneta.

Bottega Veneta

Foto: Tyrone Lebon

O verão 2021 da Bottega Veneta começou a ser desenhado durante o ápice do confinamento em Milão, na Itália. Durante meses, tudo o que Daniel Lee, diretor de criação da marca, viu e encostou foi seu sofá, tapete, cortina e assento do carro. Acontece que o estilista se especializou em tricô na faculdade, a Central Saint Martins, em Londres. Toque e texturas são a base de seu trabalho e da grife em que se encontra. E essa relação complexa com o tato (interpessoal e com objetos) se tornou algo extremamente presente em seus pensamentos.

De certa maneira, a coleção apresentada na segunda-feira (14.12) é quase toda sobre isso. As superfícies com as quais Daniel conviveu na quarentena acabaram reproduzidas em tricôs, jacquards e outras tramas. Dos conjuntinhos e tailleurs que abrem o desfile até os vestidos mais elaborados do final, tudo comunica toque, conforto e uma certa sensação de segurança. Muito se deve à conexão com elementos domésticos e familiares a partir dos tecidos. Eles lembram aquele tricô antiguinho difícil de desapegar, a casa da avó e tantos outros ambientes de afeto e carinho.

Ainda assim, a imagem final não é exatamente da roupa de ficar em casa. Pelo contrário, são propostas bastante sofisticadas para isso. São construções de alfaiataria ou com silhuetas marcantes – principalmente no quadril, destacado por enchimentos e pelo corte das peças.

É nesse ponto que a ideia de um vestir mais "montado" se conecta com as carências emocionais do momento. As tramas dão segurança, conforto. Os materiais (de conchas a estofados de assento de carro) e suas aplicações falam da fusão entre tecnológico, industrial e artesanal. E as formas, projetam o poder e superação que ainda nos faltam.

Foto de tailluer de tric\u00f4 verde da Bottega Veneta

Bottega Veneta.

Foto: Rosemarie Trockel

Para reforçar a conexão entre real e virtual, a apresentação foi dividida em algumas partes. Em outubro, a realizou um pequeno desfile, bem aos moldes das antigas apresentações de alta-costura, com poucos convidados e as modelos circulando entre eles. O evento foi registrado pelo fotógrafo Tyrone Lebon e apresentado em vídeo e fotos.

Além do conteúdo online, a Bottega Veneta enviou para clientes e jornalistas uma bolsa com três livros. O primeiro deles é uma espécie de moodboard documentado, com celebridades, artistas e profissionais de várias áreas que inspiram Daniel – vai de Rihanna a P.J Harvey até Udo Kier e Haston. O segundo é quase um making of da coleção pelo olhar da artista alemã Rosemarie Trockel. Um de seus trabalhos mais conhecidos foi feito numa máquina de tricô. E o terceiro traz os cliques de Lebon na apresentação no Sadler's Wells, em outubro.

O diretor criativo explicou que a ideia desse desdobramento foi dar mais tactilidade à coisa toda. Tem a ver também com permitir um maior aprofundamento no processo criativo, bem como nos fazeres da moda – algo bastante explorado e bem-vindo em algumas apresentações online. Mais do que tudo, fala de proximidade. E em vários sentidos.

Saint Laurent

Anthony Vaccarello, na Saint Laurent, também se preocupou em atender as demandas e carências do momento por meio da imagem sofisticadamente sensual da marca. O estilista é conhecido por roupas com comprimentos míni, decotes profundos, fendas mais ainda, cortes assimétricos, modelagens geométricas e silhuetas coladas ao corpo. Acontece que nada disso faz sentido no momento - e fazia menos ainda quando o diretor criativo começou a pensar no verão 2021 da maison francesa, durante o primeiro lockdown em Paris. Desde então, ele vem pensando em que roupa sua cliente quer hoje.

A bem da verdade, esse pensamento não é tão recente ou inédito. Há algumas temporadas, Vaccarello busca incorporar elementos do arquivo de Yves Saint Laurent a suas coleções. A última, de inverno 2020, trouxe toda uma alfaiataria em cores intensas, indicando um distanciamento dos looks monocromáticos ou 100% preto de costume, assim como da superexposição de pele tão característica do estilista.

Mas se aquelas propostas eram um tanto nostálgicas, as de agora são mais conectadas à atualidade. Exemplo mais óbvio é a bermuda ciclista que faz par com blusas de seda e jaqueta de alfaiataria (algumas em versões adaptadas da jaqueta safári de 1967). Construção, modelagem e tecidos, contudo, se conectam a vontades do presente. O jérsei, por exemplo, visto por Vaccarello em um vestido de 1968 de Yves Saint Laurent, foi o ponto de partida para tudo. A malha foi revolucionária e emblemática naquela época, de intensas transformações socioculturais, por permitir mais conforto e movimento.

Liberdade é um conceito importante aqui. Apresentada sobre dunas (a locação exata não foi divulgada pela marca), a coleção imprime chic e confortável ao mesmo tempo. Tem cenário escapistas, mas roupas pensadas para realidade. Lembra momentos do passado, com algumas influências da origem argelina do fundador da maison, bem como os looks usados por ele e seus amigos na casa que manteve em Marrakech, no Marrocos, e fala do presente. O corte menos agarrado ao corpo, os tecidos leves e a preferência por caimentos e formas menos constritas trazem um frescor muito bem-vindo à atual fase da etiqueta. Até a alfaiataria, bastante precisa e rígida no inverno, fica mais solta. As jaquetas perdem os ombros proeminentes e assumem proporções reduzidas, enquanto as calças se afrouxam e ganham amplitude na perna.

O dia em que poderemos sair com bermuda ciclista, bustiê metálico, blazer, meia-calça e mule com bico de metal ainda está longe. Já a ideia de vestir uma hot pant rendada com uma boa blusinha de seda para se sentir, dançando no escurinho dos nossos quartos, não é tão distante. Tampouco a bermuda ciclista com camisa e alfaiataria para trabalhar motivada, longe da vibe pijama.

Tudo bem que foi o outro estilista, o Daniel Lee, no caso, que chamou sua coleção "The Importance of Wearing Clothes" (A Importância de Vestir Roupas, em tradução livre). Mas a ideia vale aqui também, afinal o que colocamos no corpo nos proporcionam toda uma infinidade de sentimentos: conforto, segurança e esperança, por que não?




Entenda como a nova realidade está forçando muito estilista a repensar sua própria identidade, processo criativo e o design de moda.

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