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Moda

Os boys românticos da Celine

Misturando cavalaria medieval e androginia dos anos 1980 em um visual bastante de agora, Hedi Slimane pega o gótico suave pelo coração.

Hedi Slimane | Celine
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Há quem diga que Slimane é o estilista do ame ou odeie. Mais que isso, ele parece alcançar bem aquilo que a gente procura negar, tenta esconder: nossos desejos. O inverno 2021 masculino da Celine é um bom exemplo disso. Ele pega o ex-emo, o ex-gótico suave pelo coração — mesmo que ele não queira mais assumir esse passado.

A coleção se chama Teen Knight Poem, algo como o poema do cavaleiro adolescente, em tradução livre. Ela foi apresentada em um vídeo de 13 minutos, na última segunda-feira, 08.02, duas semanas após o encerramento da semana de moda masculina de Paris. A Celine é uma das grifes que passou a se apresentar na hora que quiser. A tática tem funcionado de um jeito interessante para as grandes marcas, que conseguem levantar audiências sozinhas, ao contrário das etiquetas menores que ainda precisam de um evento aglutinador como uma fashion week.

Hedi Slimane | Celine

A locação do vídeo parece falsa de tão absurda. Mas é real. Literalmente real. Trata-se do Castelo de Chambord, construído no século 16. Este foi o palácio de Francisco I, o "rei-cavaleiro" da França. A imagem e título do monarca vão inspirar alguns momentos da coleção. O curta, por exemplo, começa com uma cavalaria se aproximando do edifício empunhando uma bandeira negra com o logo Celine. De repente, o vídeo corta para um principezinho, melancólico e medieval, no alto do Chambord. Ele usa uma capa preta e inicia o desfile, ao som de Time Slip, de George e Jack Barnett. A canção foi performada pela banda The Loom especialmente para a marca, agora uma marcha militar acrescida à batida.

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Nas roupas, todos os detalhes são fáceis de identificar: a blusa com frufru renascentista fugindo no pescoço, as capas, os capuzes, as medalhas e os pingentinhos de cruz. Mas o visual completo, apesar de fantasioso, não é muito bem uma fantasia, porque tem tênis, calças bordadas, colares de metal exagerados, jeans e moletom. O look completo é contemporâneo. As sobreposições são interessantes e ajudam nisso, como o paletó por baixo da jaqueta, a jaqueta por baixo da bomber.

Hedi Slimane | Celine

Esse é o terceiro vídeo apresentado pela marca, desde que a pandemia da COVID-19 obrigou as grifes a mostrarem as suas coleções digitalmente. Os dois primeiros foram bem esportivos, focados no TikTok e sua audiência. Esse esforço de se aproximar dos novinhos e da turma dos likes também acontece agora, como no uso dos logotipos, nas botas de ski-sneakers e nos gorros que cobrem o rosto e devem fazer um bom sucesso nos feeds. Mas essa é a parte menos forte, ainda que não deixe de estar amarrada com o todo. De alguma maneira, ela caminha lado a lado com a tendência Dark Academy, muito vista na plataforma da Geração Z e que se trata de uma ode ao look escolar do passado.

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Só que o ponto mais interessante desta temporada, um comentário que, inclusive, o próprio Slimane fez à imprensa sobre a colecão, é a vontade que o estilista tem de chegar a um visual andrógino, de um jeito bem tranquilo, bem de rua, "como se nada". Essa aparência, muitos sabem, geralmente vem do toque rock star que Slimane dá aos modelos. E ela costuma vir de vários lugares. Nesta coleção também segue plural (há Punk e Grunge), mas desta vez se debruça principalmente ao resgate do movimento New Romantic.

Hedi Slimane | Celine

E aqui vale um parênteses sobre essa estética breve, do começo da década de 1980, mas marcante dentro da cultura jovem inglesa. Os New Romantic, formados sobretudo por Club Kids londrinos, foram tanto uma reação quanto uma progressão de tudo aquilo que vinha rolando ali no Reino Unido ao longo da década de 1970. Lê-se punk e new wave. Na música, os New Romantic se aproximam do Synth-Pop, o pop sintetizado, e, no look, eles enfatizavam ainda mais a efervescência sexual, os questionamentos às normas de gênero e o boom das casas noturnas como um espaço essencial de socialização.

Os cabelos e as maquiagens eram bastante teatrais, coisa para ver e ser visto. A era ficou marcada na história como o início da imprensa comportamental, com o nascimento da MTV e o lançamento de revistas como The Face, Blitz e i-D. Não se tratava mais de uma revista feminina, mas, sim, de uma plataforma equalizadora entre moda, música e lifestyle. Tudo junto e misturado.

O toque futurista era uma consequência de tudo o que Bowie já havia mostrado nos útlimos anos, extravagante e andrógino. Pense em Boy George e você cata esse visual. O movimento pode ser entendido como uma reinterpretação do dandismo e tem como uma das principais assinaturas o make marcado, tanto nas meninas quanto nos meninos. É por isso que o olho de gatinho nos boys da coleção de Slimane é um detalhe tão importante. A assinatura desta beleza que amarra tudo e ecoa bastante história é de Lauren Aiello.

Hedi Slimane | Celine

Os haters de Slimane costumam criticar o seu trabalho dizendo que a sua roupa é de fast fashion ou que o seu visual chega às araras populares logo mais. Um ultraje ao nome Celine, eles dizem. Como resposta a isso ou não, Slimane fez questão de sublinhar que um dos looks dessa coleção, uma jaqueta brilhosa que encerra tudo, demorou mais de 1300 horas para ser feita. De toda maneira, é importante destacar: essa sua roupa de aparência simples não é simples. E, se de alguma forma as fast fashion reproduzem essa silhueta tão característica de Slimane (que ele não larga por nada há alguns bons anos, não importa a casa que dirija) é porque, no limite, é uma moda descomplicada e que funciona. Mérito dele.

Esse look Slimane também lembra uma frase que o estilista Alber Elbaz soltou algumas semanas atrás, quando voltou para as passarelas na semana de alta-costura com sua AZ Factory. Ele disse que anda mais interessado em ver a mulher do que o vestido que ela usa. E, sim, dá vontade de ser um desses boys românticos da Celine, mais pelo que eles ecoam do que pelas pecinhas que vestem. A vontade vem do conjunto do todo. O desejo nem sempre é algo do qual a gente se orgulha, mas sente. E parece ser uma delícia ser este príncipe andrógino, medieval e melancólico, num belíssimo castelo francês.




Em sua primeira coluna, o editor de moda Lucas Boccalão interpreta como uma das principais tendências do resort 2021 remete à nossa carência por contato físico, conforto e proteção.

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