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Discurso, inspiração e referências são pontos interessantes quando se fala sobre uma coleção ou um desfile. Mas não dá para esquecer que, no fim, estamos falando principalmente de roupas. São elas a base de tudo, princípio e fim, meio e mensagem. Se isso ficou um pouco confuso durante os meses de apresentação digital, com a retomada do presencial, a percepção muda bastante. Para quem olha e para quem faz.

No quarto dia de SPFW, uma nova geração de estilistas colocou a roupa no centro das atenções. Apesar de algumas cenografias, performances e castings estrelados, foram elas as grandes protagonistas de algumas das melhores coleções desta sexta-feira, 19.11.


Há pouco menos de um mês, Rafaella Caniello abriu uma nova loja de sua Neriage. E é importante lembrar que a inauguração aconteceu quase um ano e meio depois de um período de enormes incertezas, incontáveis angústias e pressões imensuráveis.

Hoje, a coleção apresentada pela marca foi a melhor já feita pela estilista. Foi a primeira vez que a Rafaella conseguiu equilibrar com maestria suas vontades e paixões criativas com as demandas comerciais. Para explicar esse processo, ela recorre à literatura, cita o poeta Manoel de Barros e fala sobre os significados e não significados das palavras.

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Ela também fala de repetição: "Repetir até se tornar outra coisa. Reaprender o que já sabemos. Reconstruir-se, remendar-se". Não são só elucubrações conceituais, é o próprio funcionamento do sistema da moda. Rafaella passou anos experimentando com camadas e mais camadas de tecidos, plissados e detalhes manuais esmiuçados à exaustão. O processo era quase obsessivo e o resultado, algumas vezes, literalmente pesado.

Agora, sua abordagem chega comedida, as formas e texturas, lapidadas, e a construção, elevada a um outro patamar de excelência e sofisticação. O melhor exemplo fica por conta da alfaiataria, fluida, desconstruída e sensual. Expressa um lado pouco visto e explorado da Neriage. Outra novidade são os tricôs, que prometem fazer sucesso nas araras da nova loja – e já dão um gostinho da linha de básicos que a marca pretende lançar logo mais.

Quando a Misci estreou na SPFW no ano passado, a marca chegou cheia de vontades – e o formato digital permitia dar voz e corpo para muitas delas. Na passarela, as possibilidades são reduzidas. O que não significa que a coleção perdeu o brilho, pelo contrário. Se dependesse só do vídeo que precedeu o desfile, não daria para ver o quanto a alfaiataria do diretor criativo Airon Martin evoluiu – em execução, ideias e assinatura.

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A nova possibilidade de cintura proposta pela Misci é prova disso. Nem baixa, nem alta e nem regular, o formato orgânico constrói uma onda na silhueta. A ideia vem de seu apurado estudo de design, mas não é difícil imaginar que se tornará mais um hit da marca.

Alfaiataria e sua formalidade são pontos importantes na moda de agora. Falam de uma vontade de arrumação mais sintonizada com a realidade do que aquela explosão hedonista desmedida. E Airon fala disso de uma maneira bem interessante, com boas tentativas de adaptação a um contexto mais nacional – a coleção propõe um olhar romântico e sensual para os bares e lanchonetes do Brasil.

Mas não é todo mundo que está pronto para a vida de botequim. Dias antes de sua apresentação, Igor Dadona relatou que está com algumas dificuldades em retomar a vida fora de casa. Também contou que passou boa parte do seu tempo de reclusão assistindo vídeos sobre os ateliês de alta-costura. Vem daí o nome e inspiração da coleção: Loveur – House Couture.

Apresentada em vídeo, as roupas são uma continuação aprimorada de tudo que o estilista vinha trabalhando nos últimos anos, com destaque para a alfaiataria e peças feitas em tecidos de festa. E desta vez, dado a referência da alta-costura, com um toque extra de glamour. "Por mais que tenha essa atmosfera sombria, é uma coleção feliz. É algo que sei que está passando. É uma travessia. E o único momento que me sinto mais livre, e as coisas ficam mais leves, é quando estou fazendo meu trabalho", diz Igor.

É que a moda envolve um tanto de trabalho manual, o que pode ser algo terapêutico. Não à toa, o trabalho artesanal é uma ferramenta comum a toda uma sorte de projetos sociais. Desde 2015, o Ponto Firme oferece formação técnica em crochê para sentenciados da Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, São Paulo.

Hoje, o projeto, que virou marca e é encabeçado por Gustavo Silvestre, aproveitou a apresentação da nova coleção para inaugurar a Escola Ponto Firme, no bairro da República, em São Paulo. Aberta ao público, ela é focada em egressos do sistema penitenciário e a ideia é passar a atender também mulheres, uma vez que os artesãos até agora são homens.

Se a pandemia foi difícil para todos nós, ela se revelou ainda mais severa para os sentenciados. As aulas presenciais desse e outros projetos foram suspensas, bem como as visitas de familiares.

O reencontro de Gustavo Silvestre com seus alunos detentos aconteceu muito recentemente, e esse foi o mote da nova coleção. "Toda essa história nos remeteu a ideia de bando. Somos um bando das artes manuais, de pessoas que ganharam autonomia por meio do crochê", fala Gustavo. Nesta coleção, o boné de crochê é quase um símbolo desse bando, mas para além de tendências o dia de hoje é uma grande celebração.

André Namitala, diretor criativo e fundador da Handred, sempre foi mais chegado ao produto do que à moda de passarela. Tanto que quando a marca carioca estreou na SPFW, muita gente torceu o nariz e não viu sentido naquilo. Hoje, a história é um pouco diferente – e para a marca também.

O ponto de partida da nova coleção é Francisco Brennand. Quem conhece a obra do artista recifense deve ter estranhado a coleção toda branca, já que seu trabalho é sempre lembrado pela profusão de cores. André, no entanto, preferiu se focar na cor da cerâmica antes de sua queima.

Na edição N52 da SPFW, as grifes Ateliê Mão de Mãe, Meninos Rei, Naya Violeta, Santa Resistência, Silvério, Az Marias e Mile Lab ocupam as passarelas reivindicando seu espaço e ancestralidade.

Essa é a primeira vez que a Handred se aprofunda tanto no trabalho de um artista – e o minidocumentário exibido antes do desfile dá conta de mostrar essa imersão no universo e no espaço em que Brennand morava, criava e produzia. "Fiz esse paralelo entre o artista e a marca, já que nós também criamos tudo em nosso ateliê", explica o estilista.

Nas roupas, vemos a influência do recifense nos desenhos de caju em rendas richelieu, nos labirintos tramados em linho e nos traços de nanquim em organza de seda pelos quais o artista era conhecido. A cerâmica feita pelos próprios artesãos do Instituto Brennand, que trabalharam com o próprio, aparece em escala micro, aplicadas nas laterais das calças de alfaiataria e em regatas fresquinhas.

O show ficou completo com a apresentação de Lia de Itamaracá, cantora pernambucana que embalou os passos ritmados das modelos. Da imersão do estilista neste universo, saiu uma coleção de alfaiataria fluida e descomplicada que é a mistura perfeita entre Recife e Rio de Janeiro, onde a marca e o estilista nasceram.

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