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Fotos: Divulgação
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O desfile de verão 2022 da Prada, o primeiro com plateia desde o início da pandemia e da chegada de Raf Simons como codiretor criativo, aconteceu simultaneamente em Milão e Xangai. Telões transmitiam as imagens de uma locação para outra em tempo real. Foi uma saída esperta para manter o viés tecnológico das apresentações, marcar presença num mercado de extrema importância e ainda dar pano para manga para algumas análises como esta que você está lendo.

Passamos quase um ano e meio com quase todas nossas relações e contatos mediados por telas. Ao mesmo tempo que são uma janela para o mundo, também são ferramentas de vigilância constante. Nos takes mais abertos das salas de desfiles, tanto na Fondazione Prada quanto no Bund One, em Xangai, as imagens das modelos transmitidas digitalmente tinham um ar voyeurístico meio sinistro, meio sexy. Sexo, aliás, que é diferente de sexy, também passou a ser feito virtualmente com mais frequência e intensidade durante a pandemia.

No meio desse vai e vem de imagens digitalizadas, estão nossos corpos e nossos desejos. A maneira como decidimos nos mostrar, como somos vistos, como queremos ser vistos e desejados sofre influência direta de todo esse processo. "É sobre uma linguagem de sedução que sempre leva ao corpo. Usando essa ideia, essas referências de peças históricas, a coleção é uma investigação sobre o que elas significam", escreveu Miuccia Prada, em comunicado à imprensa.

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Em outras palavras, a pergunta é: o que é sexy? É uma minissaia? Um vestido coluna com cintura marcada? Uma jaqueta de couro oversized? Um suéter de tricô?

Vivian Whiteman fala um pouco sobre isso em uma de suas colunas. "O que é ser sexy? Na moda é meio como adotar um figurino e uma certa atitude extremamente padronizada. E isso não passa tão longe de um senso comum mais amplo. Em geral, quem mostra mais pele, mais corpo é mais sexy no placar geral. O corpo e os jogos de ver e esconder têm sim muito com isso, mas a redução é ainda assim empobrecedora, sem dúvida", escreveu ela.

No verão 2022 da Prada, não é exatamente a minissaia que é sexy, mas o que sobra dela e, principalmente, o que ela sugere: uma cauda longa, quase como um laço desfeito, num despir desenrolado. No vestido é a mesma coisa. Não é a cintura marcada que define a silhueta que desperta interesse, é a parte de trás desabotoada, como num rompante de alívio e tesão. O corset, essa peça tão fetichizada, também vem ressignificado, aparece fechando um agasalho de tricô ou estruturando uma camiseta de corte quadrado. Mais notório ainda, ele não comprimi o corpo, ele serve de estrutura.

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Outro ponto importante nessa coleção é a ideia de constrição e liberdade. Dos vestidos com estruturas corsetadas aos tricôs com bojo, é um jogo que dialoga diretamente com a erotização do corpo.

A essa altura do campeonato – ou da temporada de verão 2022 – já ficou evidente que aquela ideia de uma moda superotimista, exuberante, glamour sem limites, tudo mais, mais, mais, não vai rolar. Nem tinha como. A situação sanitária já melhorou bastante, mas a pandemia ainda não acabou. Mesmo com o fim de algumas restrições, redução no número de mortes e infecções, o clima ainda é incerto. Pede cautela, cuidados e um tanto de bom-senso.

Isso ajuda a explicar uma certa contenção nas principais coleções da temporada. Temos visto propostas que remetem a noções de estabilidade, rigor e até uma ideia formalidade. E faz sentido. Em momentos de caos e insegurança, um pouco de estrutura pode ser confortante. Acontece que ninguém aguenta mais. Desejos à flor da pele que chama. E pele precisa respirar.

O jogo de sedução despida da Prada fala sobre isso. Sobre controle, sobre vontades, sobre corpo, mas de um ponto de vista sempre próprio, de quem veste, de quem mostra, de quem deseja. Pois, como bem escreveu Vivian Whiteman, "o erótico mexe com forças. Forças de vida e morte. O mistério do sexual, com o ato sexual em si, com partes do corpo mais investidas de atenção, mas além disso. Forças de criação."

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