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Fotos: Getty Images
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Raf Simons sempre curtiu um uniforme e quem acompanha seu trabalho sabe bem disso. Uniforme pode ser aquela roupa que veste todo mundo igual, mas pode ser um marco de identificação, um conjunto de códigos de vestuário que se torna sinônimo do estilo ou personalidade de uma pessoa. No ano passado, quando se tornou codiretor criativo da Prada, o estilista belga até falou sobre isso numa daquelas conversas pós-desfile com Miuccia.

Para o verão 2022 de sua marca homônima, o assunto volta à pauta. O desfile aconteceu no prédio que abriga a bolsa de comércio da França, em Paris. Ou seja, um ambiente corporativo que tem um uniforme próprio e muito resistente a mudanças. Não seria exagerado dizer que, na história recente, o terno é um dos trajes que melhor exerceu a função de demarcação social atribuída à moda – e um dos que menos mudou ao longo de tantos anos.

Não à toa, é referência constante em toda coleção que se debruça sobre a representação de gênero, de Jean Paul Gaultier a Thom Browne. Raf é só mais um estilista a mergulhar nesse universo.

Desde sempre, o belga brinca com a questão de gêneros nas suas roupas. Antes mesmo de lançar oficialmente uma linha feminina, já driblava definições estritas entre o que é para homem e o que é para mulher. Mas, desta vez, o assunto foi central no desenvolvimento da coleção.

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Ele partiu do questionamento sobre o que ou quem define o gênero de uma peça e quais são os agentes e contextos que interferem nesse processo. Assim chegou às peças que lembram as roupas de bebê. Os vestidos longos, que também se parecem com vestes hospitalares, são inspirados em trajes de recém-nascidos. Em entrevistas sobre a coleção, Raf disse que, nesse momento, ninguém se preocupa se a criança é homem ou mulher. Sabemos que não é bem assim, vide os antiquados chás de revelação, mas foquemos na coleção.

Em Londres, a estilista Molly Goddard, que teve uma filha há poucos meses, também apresentou propostas similares. Em um ambiente laboratorial, livre de influências patriarcais, o pensamento é bastante válido. Nesse mundo controlado, alheio às influências sociais, o ser humano poderia escolher livremente como se apresentar para o mundo. Acontece que não é bem assim.


A coleção de Raf se desenvolve então num cenário quase ideal, com desconstruções dos vários códigos que definem quem deve vestir o que. O foco central, como já dito, é a roupa corporativa, o terno, a alfaiataria. Daí as camisas oversized, os maxiblazers, as saias. Não há calças nem bermudas na coleção, apenas peças abertas, com corte reto e solto sobre o corpo. Há ainda um jogo com tecidos e sua associação aos universos masculino e femininos. Aqui, acetinados, delicados ou simples e básicos aparecem tudo junto e misturados.

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O problema é que a alternativa à noção de gênero tradicional na roupa se dá pela forma e como ela esconde ou anula o corpo. É a ideia de uniforme como ferramenta de homogeneização e apagamento de qualquer diferença ou particularidade.

Cobrir o corpo é uma opção mais do que válida, porém não é a única forma de ressignificar os códigos binários do vestuário. Na verdade, tentar definir o que faz uma peça masculina e feminina a partir da aparência é tão ultrapassado quanto se limitar às condições biológicas do corpo humano para tanto.

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