Não consegue mais acompanhar as tendências? Saiba que não é o único
Street Style, em Nova York, em junho de 2022. / Foto: Getty Images
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De acordo com Philip Kotler, estudioso do marketing moderno, uma tendência é uma direção ou uma sequência de eventos que promete durabilidade. Desenvolvida pela necessidade de inovação de uma sociedade, ela pode ser rastreada através de sinais em contextos sociais, culturais, econômicos ou políticos. Isso quer dizer que ela não é criada no vácuo, como um movimento concebido pela pura 一 e, às vezes, falha de 一 imaginação. Ou, pelo menos, não costumava ser assim.

Abra o TikTok e você irá se deparar com um mundo estranho e selvagem (mas inegavelmente fascinante) em que usuários se esforçam para encontrar a próxima grande tendência de moda. No aplicativo, as previsões para o resto do ano incluem uma lista extensa, que vai do balletcore ao ressurgimento da Pucci. No entanto, em alguns casos, não há qualquer argumento para fundamentar a tal aposta, muito menos dados ou contextos. Embora contrarie Kotler, ali, nada disso parece ser um impeditivo.

Basta um ou dois vídeos virais exibindo uma certa estética para que ela se torne uma espécie de micro-tendência. A partir desse instante, as redes de moda ultra-rápida ativam suas produções e reproduzem as peças em tempo recorde para que, em uma questão de dias, já estejam disponíveis para a venda. Varejistas em rápido crescimento e marcas de ultra-fast-fashion, como a Shein, parecem fazer disso toda a sua estratégia de negócio.

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Anne Hathaway no desfile de alta-costura da Valentino.Foto: Getty Images

Iza Dezon, pesquisadora de tendências e comportamento, no entanto, esclarece: “a forma com a qual a gente fala sobre tendências já estava banalizada muito antes do TikTok surgir”. A especialista paulistana acredita que desde os anos 2000, com o movimento inicial dos blogs, foi dada uma outra guinada para a velocidade do consumo, que ali se manifestava no fast fashion. Quando o Instagram se torna um catálogo de compras, a aceleração é elevada ao extremo. “O sistema de produção moderno faz com que a gente deseje a novidade e ele é capaz de nos entregar isso”, completa.

Testemunhar reviravoltas entre tendências está longe de ser algo novo. Pense, por exemplo, naquele momento em que vasculhava fotos antigas e se deparava com uma composição esquisita. No fundo, você já sabia que, provavelmente, duas décadas depois, haveria uma súbita proliferação daquele estilo outra vez. Um dia, esse foi o tempo suficiente para que uma aposta de moda ganhasse popularidade, fosse esquecida e então retornasse.

Corta para hoje, quando já se fala sobre a volta de estéticas observadas na década de 2010. Embora a tal regra dos vinte anos permaneça fiel até certo ponto, há uma confluência de forças acelerando ferozmente o ciclo de tendências. “Com essa enxurrada de referências, os métodos de certeza estão sendo questionados", comenta Iza. Costumava se falar, por exemplo, sobre cinco estágios: a introdução, a ascensão, o pico, o declínio e, por fim, a obsolescência. Agora, no entanto, certas etapas parecem ser puladas ou, no mínimo, percorridas em um espaço de tempo muito mais curto.

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Em um nível, o hiperciclo tem a ver com a globalização. O aparecimento e desaparecimento de uma tendência são calculados não só por marcas, mas também por terceiros. Pode ganhar popularidade por um motivo e cair em desuso por outro. Foi tornada menos previsível pelas mídias sociais, enquanto o comércio digital permitiu acesso. Todo o jogo parece ter sido revirado, desde a rapidez com que as apostas mudam até a rapidez com que são fabricadas e, posteriormente, anunciadas e compartilhadas.

@grrlbossbabe

Imagine if everyone just developed their own personal style instead of shopping for the next aesthetic #coquette #twee #parisiangirl #microtrends

Na nova dinâmica, há um abandono do velho sistema em que poucas figuras possuíam a influência desmedida de articular o que seria considerado legal, enquanto todo o resto deveria apenas acatar. Esse, no entanto, é um dos poucos aspectos positivos. Embora possa parecer uma diversão inofensiva, as tendências têm ido e vindo em uma velocidade tão apressada quanto os algoritmos que as documentam. É como estar na roda de um hamster, perseguindo novidades de uma forma que beira a obsessão.

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Em uma semana, a aposta é a indie sleaze. Na seguinte, já é a coconut girl. Na outra, é a royalcore. Além do óbvio efeito ao meio ambiente, tem sido exaustivo tentar acompanhar o ritmo. “Essa aceleração tem sido conducente ao stress e ao mal-estar, nos levando para um frenesi auto-destrutivo”, alerta Iza. Quanto mais as pessoas adotam uma tendência, mais querem ir para a próxima, construindo um ciclo vicioso que perpetua a cultura de descartabilidade e colabora para a estafa mental.

Quando a síndrome de FOMO entra na equação, é fácil se tornar vítima. Você realmente ama alguma dessas tendências? Ou apenas sente que deve adotá-las? O que isso significa para a maneira como se veste? Ter a resposta para algumas dessas perguntas ainda parece difícil, mas entender como corrigir o ritmo acelerado inclui a disposição para ter conversas desconfortáveis.

“É muito fácil acusar o algoritmo, mas quem pega no celular é a gente”, elucida Iza Dezon. Ela explica que o tal algoritmo não produz ideias originais, apenas potencializa interesses já existentes, como uma reação ao comportamento humano. “A culpa não é do TikTok. O aplicativo, assim como todas as outras redes sociais, é um espelho das nossas ações”.

Leonie Hanne no desfile de inverno 2022 de alta-costura da Fendi.Foto: Getty Images

Porquê, então, uma geração que clama pela individualidade seria radicalmente obcecada por tendências? Georg Simmel, creditado por divulgar uma das primeiras teorias de moda em 1895, acreditava que o estilo é definido pela tensão entre o desejo de se conformar e o de se distinguir. Até certo ponto, Iza concorda: “movimentos existem, porém ninguém quer ser inteiramente diferente”. “Você quer ter o seu diferencial ainda se encaixando em um grupo. Isso vem da necessidade de pertencimento do ser humano.”

Para a especialista, porém, a resposta tem mais a ver com o cenário global: “o frenesi de consumo está relacionado ao mal-estar coletivo que estamos vivendo”. Não que em alguma época, as coisas tenham sido mais fáceis. Mas é que, agora, as tragédias, as atrocidades e o ódio são amplificados pelas redes em um acesso irrestrito e repetitivo. “Como consequência, a gente quer fugir da realidade”, explica.

Diante desse movimento, o próprio conceito de tendências passou a ser borrado e ganhou uma conotação negativa quando, na verdade, é uma coreografia delicada. “No TikTok, o que as pessoas chamam de tendência costumam ser só referências. Tendência é algo muito mais profundo”, diz.

Diante da complexidade, a responsabilidade de examinar a semântica não pode ser subestimada. A previsão de apostas é como uma reportagem investigativa e íntima, a qual é necessária ter a certeza de que todas as brechas estão sendo cobertas em diferentes perspectivas. Só a partir de fragmentos culturalmente relevantes, o espírito do amanhã pode ser rastreado.

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