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Sonhar e conquistar: os dois verbos andam juntos na trajetória de Rachel Maia, a executiva que já foi CEO da Tiffany & Co, da Lacoste e da Pandora, além de diretora financeira da farmacêutica Novartis. Atuando hoje como consultora em sua própria empresa, a RM Consulting, Rachel lançou seu primeiro livro no mês passado. Meu caminho até a cadeira número 1 (Globo Livros) é uma autobiografia que mescla histórias da infância, dos períodos em que ela morou nos Estados Unidos e no Canadá, fala de relacionamentos com a família, nascimento dos filhos, Sarah e Pedro, e desafios profissionais.


Nascida no lado sul do mapa de São Paulo, capital, a executiva começou no mercado de trabalho cedo, ainda adolescente, como monitora de uma pré-escola. Seu pai trabalhava na antiga Viação Aérea de São Paulo (VASP) e a mãe, em casa, onde se desdobrava em duplas jornadas, como relata no livro da filha caçula: ''Eu costuro. E quando eles eram pequenos, costurava bastante para ajudar nas contas da casa. Mas não dava para fazer tudo durante o dia, então eu tinha que fazer o trabalho da casa, colocar as crianças para dormir, e só depois ia trabalhar em minhas costuras''.

Rachel sonhava em ser comissária de bordo, mas começou a graduação em Ciências Contábeis na Faculdade Metropolitana Unidas (FMU). Tempos depois, conseguiu uma vaga na 7-Eleven, rede de lojas de conveniência que estava chegando ao Brasil, na época. Permaneceu por sete anos na empresa, mas sentiu necessidade de voar. E voou, literalmente: com o dinheiro da rescisão, mudou-se para Vancouver, Canadá, aos 28 anos. Aos 30, retornou à São Paulo e ingressou na farmacêutica Novartis, onde permaneceu por quatro anos, incluindo um período nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, procurou uma vaga na indústria e acabou caindo no varejo de luxo. Mais precisamente, na Tiffany, onde atuou por sete anos até migrar para a Pandora. Em seus oito anos na joalheria dinamarquesa, Rachel encarou o desafio de mostrar às brasileiras que prata também é joia e fez história com duas propostas ousadas para a época: abrir uma loja no Shopping Ibirapuera e investir no e-commerce. Ambas foram bem sucedidas.

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Ao longo do livro, Rachel discorre sobre a necessidade de ser ''pulso firme'', principalmente na convivência em espaços predominantemente masculinos. Ela explica no capítulo "Eu gosto é de cores!": ''Querem você apagada, de terninho cinza, sem mostrar seu estilo e quem você realmente é. Eu gosto do diverso, eu gosto é de cores. Trata-se de uma linha bem tênue. Vamos imaginar a seguinte situação: estou com um vestido bonito, colorido, como gosto. Se eu perguntar para um presidente homem se ele acha que a roupa está apropriada, a maioria responderá: 'Seria melhor algo mais discreto' - ou alguma variação disso. Pode apostar. O que fazer? Particularmente, não dou brecha. [...] A meu ver, não há nada mais valioso do que respeitarmos nossa identidade. E meus resultados falam muito por mim. É isso que vale, não se estou de terninho cinza.''

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Foto: Divulgação.

Em um país marcado pelo racismo estrutural, é impossível deixar de mencionar que Rachel é uma das poucas executivas negras atuando no mercado brasileiro. A pauta da diversidade é constante em sua vida, embora, obviamente, ela não se resuma a isso. No Brasil, as mulheres em cargos de liderança somam 13% – e a porcentagem cai para apenas 1% quando o recorte é de pretas ou pardas, como a autora aponta no livro. "O pioneirismo, ao mesmo tempo que dá certo orgulho – afinal, poxa, contrariando as estatísticas, cheguei lá – não me deixa feliz. Até quando mulheres negras chegarem aonde cheguei será considerado um feito? Somente quando isso for um fato comum, um fato banal, ficarei feliz de verdade", escreve Rachel.

Ao ler o livro, podemos nos transportar para diversos momentos da vida da autora. É como se ela estivesse diante de você, contando tudo que lhe marcou nos seus 50 anos de vida. São momentos cômicos, outros muito sérios. Concentra dicas para o ambiente de trabalho e dicas para viver a vida com sonhos no coração e coragem na ação. Rachel não hesitou em se abrir para o mundo por meio das palavras, e não hesitou em se abrir à ELLE, na entrevista que você confere na sequência.

Qual foi sua principal motivação para escrever sua autobiografia? Houve algum momento ou evento específico que te despertou para isso?

Fazer o livro foi uma forma de externalizar tudo que eu estava vivendo até aquele momento. Ter a capacidade de compartilhar, sem nenhum tipo de vergonha ou pudor, as felicidades e os desafios que a vida me trouxe. Para isso, tive que fazer um empoderamento pessoal da Rachel, para colocar tudo isso para fora e deixar que as pessoas soubessem de forma absoluta e verdadeira o que é a vida de uma presidente. Eu tenho tantos desafios, mas eu tive um olhar bem atento às oportunidades.

Como foi o processo de escrita? Você comentou que sempre anota várias coisas...

Foi um processo longo, de quase três anos. Eu sou uma pessoa que começa o dia com cadernos, sou digital mas tenho uma mala de cadernos e anotações. Esse processo de anotar ajudou bastante, foi por ali que consegui consolidar a história.

No livro, você começa falando de pessoas. Também fala de inspirações e da sua vontade de que a obra seja inspiração para outras meninas e mulheres. Quem foram as pessoas inspiradoras na sua vida?

Primeiro Deus, sem sombra de dúvidas. Sempre fui temente e praticante, a minha inspiração sempre foi minha fé em Deus e no divino. Ele, o divino, sempre me encantou. O propósito do existir tem muito mais, e vejo um link com o divino, o espiritual e muitas vezes coisas que, às vezes, não entendemos... O risco do incerto, mas, ao mesmo tempo, da possibilidade, de encontrar e tocar. Sou grata aos meus pais, em especial à minha mãe, ela foi minha extrema apoiadora de forma incondicional. Abaixo de Deus, meus pais; abaixo de meus pais, as pessoas que amo de forma incondicional ou condicional.

"Minha experiência na moda foi isso: experimentar aquilo que era fechado para poucos e, ao mesmo tempo, continuar na autenticidade do que eu gosto", diz Rachel.Foto: Claudio Gatti

Sei que você é fã da Michelle Obama, que também escreveu uma autobiografia… Você foi inspirada por outras personalidades famosas?

Sem dúvidas. Destaco Obama, Papa Francisco, a própria Michelle. Coloco gente daqui, Luiza Trajano, Virginia Any… Eu destaco pessoas que não me deixaram esmorecer, que fizeram as coisas acontecerem, mas que me impulsionaram e me deixaram ciente, por mais pesada que a jornada fosse.

Como foram suas experiências internacionais de trabalho?

Do lado nova iorquino eu experimentei mais o corporativismo. Agora, no lado europeu, experimentei mais o fashion. Eu respirava o ar de Nova York igual respirava São Paulo, muitos negócios. Mas, na Europa, na minha visão, tudo gira em torno da cultura, existem os grandes museus, filósofos, ações espetaculares do universo da moda… Então, consegui vivenciar de forma bem separada. Na Europa, estive em desfiles, seja em Paris ou Milão, e isso foi uma experiência ímpar, entender aquele olhar, porque aquilo que estava acontecendo virava uma tendência.

Você frequentava as semanas de moda? O que você achava?

Total! Estar selecionada naqueles pequenos grupos, para entender o que iria acontecer nos próximos 12 meses. Eu não tinha essa visão ampla antes de viver aquilo, e quando vivi achei espetacular. Você olhar para um desfile como uma tendência da cor, da moda e do corte. Isso é uma experiência única.

O que é moda para você?

Sempre tive minha moda e continuei com minha definição de moda: o que eu gosto e o que me faz bem. Tenho que olhar e gostar, quando eu olhava e gostava, essa era minha moda. Tem que se sentir bem naquele processo. Eu entendi que é um mercado que dita, mas ao mesmo tempo não, porque te deixa dentro de um processo de "crie sua moda". Minha experiência na moda foi isso: experimentar aquilo que era fechado para poucos e, ao mesmo tempo, continuar na autenticidade do que eu gosto.

Você acha que ainda falta diversidade na moda ou ela já é um espaço mais democrático?

Não é democrático porque tem seus clusters. Não é e não foi, as passarelas são fechadas e, se são fechadas, não são democráticas. A parte boa, hoje, é que você pode falar o que não é democrático sem ter medo de represálias.

Tomara que falemos mais sobre isso mesmo…

Quanto mais diversificarmos, mais iremos pluralizar e tornar democrático. Enquanto tiver uma só cara, jeito e turma não haverá nada de democratico e plural. A moda não tem essa característica do diverso, precisamos trazer isso pra moda: do diverso, sustentável e disruptivo. Viver sua moda da forma mais plena e absoluta, sem ter esses vínculos que só pode isso ou só pode aquele outro.

Como você acredita que podemos avançar nesse sentido, de tornar a moda mais plural?

Educando, fazendo com que a ação seja verdadeira, fazendo com que a pluralidade não esteja só na passarela, mas também na liderança. E isso vai além da cor da pele, é em todos aspectos.

Em outras ocasiões, você citou a Adriana Barbosa, da Feira Preta… Que outras mulheres da moda você destacaria?

Já dei mentoria à Adriana e à Feira Preta, que se tornou uma aceleradora, não só de visibilidade, mas para impulsionar os negócios. Vejo mais como um empreendedorismo, algo voltado para o business, do que para a moda. Mas cito a Patricia Santos, Ana Fontes… tem muita gente fazendo um trabalho bem bacana.

Você acompanha algum estilista ou marca específica?

Eu vou de brechó até a moda que eu escolher no momento. Não tenho uma só marca. Adoro vasculhar em brechó, tenho cadastro em vários. Olhei, gostei, eu compro.

Tem alguma peça de roupa que te marcou, que você tem uma memória?

A peça que usei na capa da Forbes foi icônica. Tenho um xale, que é da minha infância, que amo. Também um maiô, que trouxe de um outlet dos EUA, chamado Ross, que é bem bacana, está conectado aos meus momentos de vida.




Seis estilistas no comando de suas próprias marcas dividem suas histórias e experiências como mulheres na moda.

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