Em dada hora durante o jogo do Brasil no domingo (05.07), alguém comentou: “Pelo menos tem a semana de alta-costura”. Acho que quase ninguém naquele bar concordaria com a comparação (e compensação), mas para quem gosta de moda é, de fato, outro foco de atenção. A temporada anterior, a de verão 2026 que rolou em janeiro, foi uma das melhores em muito tempo. A de agora, de inverno 2026, começou ontem (06.07). Entre os destaques, estão Schiaparelli e Dior, que virou manchete na sexta-feira (03.07) pelos looks de casamento de Taylor Swift e Travis Kelce. Imagens das roupas não há, pelo menos por enquanto. Mas essas estimativas meio malucas de impacto de mídia calculam que a cobertura do evento gerou uns 15 milhões de dólares para a marca. No mesmo dia, teve ainda o lançamento do álbum Confessions II, da Madonna, e na quinta-feira (02.07), a Chanel avisou que está comprando a camisaria Charvet. Com tanta coisa, esquecer os desfiles de Jacquemus e Marc Jacobs, ambos na segunda-feira (29.06) é perfeitamente compreensível.
Schiaparelli

Schiaparelli, inverno 2026 alta-costura. Foto: Divulgação
Daniel Roseberry, o diretor criativo da Schiaparelli, escreveu um textão para explicar o inverno 2026 de alta-costura da marca. Ele argumenta que convenções e fórmulas lhe parecem frustrantes e limitantes. Fala que a aproximação de Elsa Schiaparelli com o surrealismo tinha muito a ver com isso: “Nunca foi uma fuga da realidade, mas uma maneira de revelar realidades não ditas e inexplicáveis. Ela compreendeu que as criações mais duradouras não surgem da certeza. Elas emergem da contradição, da intuição, do acaso e da coragem de confiar naquilo que ainda não pode ser compreendido”.
Estão justificados os tentáculos de um ou outro look. A abordagem, porém, não é restrita às formas: os materiais também entram na jogada. Plástico, látex, silicone e até iluminação de LED são trabalhados sob as mesmas premissas de sedas, cetins e lãs. Essa barreira já foi rompida antes: Iris Van Herpen imprime tecidos e roupas inteiras em 3D faz algum tempo; na Balenciaga, Demna trabalhou com algodão e jeans; Jonathan Anderson, na Dior, deu todo um novo tratamento ao tricô. Tudo isso na couture.
O que destaca a visão de Daniel e a habilidade do ateliê da maison é a relação com o corpo. Trata-se de um ponto central no trabalho do estilista – e um bastante relevante. Os bustiês não são lá grandes novidades no seu repertório. Mais interessantes são os decotes, desenhos e aberturas que deixam a pele à mostra, especialmente as calças de cintura baixa e os modelos da famosa jaqueta Schiaparelli.
Dior

Dior, inverno 2026 alta-costura. Foto: Getty Images
Jonathan Anderson meio que arrasou na sua segunda coleção de alta-costura para a Dior. Não que a primeira seja ruim, mas essa, a de inverno 2026, é mais bem resolvida e, sobretudo, leve, sem tantas estruturas armadas ou volumes complicados.
A sensação é de que, aos poucos, o diretor criativo está se entendendo com a imensidão simbólica que a maison carrega e encontrando meios de traduzir isso de um jeito próprio e relevante. E o fato de esse entendimento acontecer na couture não é por acaso. Por se tratar de um segmento restrito, tem menos pressão (não precisa agradar a tanta gente) e mais possibilidades (com costureiros habilidosos e tempo extra).
Alguns pontos em comum com o verão 2026, apresentado em janeiro, são os drapeados e os cortes em viés, dois resquícios da era de John Galliano (que Jonathan admira bastante); a botânica como pano de fundo na decoração, tanto do cenário quanto das roupas (Christian Dior amava flores) e uma presença considerável de tricôs e malhas (no caso de cashmere). A técnica não é muito associada à alta-costura, e isso interessa ao estilista, que explora maneiras de torná-la especial.
Mas o foco principal é nos plissados. Os três primeiros vestidos (e os mais elogiados) do desfile de estreia de Jonathan na alta-costura eram plissados. Os de agora são um pouco diferentes e estão presentes em quase toda a coleção e em vários tecidos. A referência vem das esculturas de Lynda Benglis, com quem o estilista já havia colaborado na Loewe. Os metalizados, as pontas soltas e assimétricas, os amassados, os leques com bordados coloridos, algumas estampas e padronagens são outras leituras diretas do trabalho dela (nem todas bem-sucedidas).
Além das formas orgânicas e abstratas, como movimentos congelados no tempo, uma característica das esculturas de Lynda são as camadas visíveis que se acumulam ao longo do trabalho, funcionando como registro do processo. Vêm daí as interpretações mais interessantes. Em muitos looks, os forros são aparentes, seja pela barra e mangas viradas para cima, seja pelo comprimento mais longo. Algumas extremidades são desfiadas e superfícies bordadas ou tramadas vão se desfazendo, como se estivessem sem finalização e deixando expostos alguns vestígios das manualidades.
Ah, e uma curiosidade sobre as referências à artista: em um ensaio para a revista Artforum, em 1974, Lynda posou nua, usando apenas óculos de sol e um dildo entre as pernas. A foto causou todo um fuzuê na equipe da publicação e no mundo das artes. Uma versão holográfica da imagem foi bordada em um conjunto chiffon.
Farm Rio

Farm Rio, verão 2027. Foto: Divulgação/@vinicomfritas
Na quarta-feira (01.07), a Farm convidou um grupo de jornalistas (este incluso) para conhecer os lançamentos de verão 2027 em sua sede, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. A coleção é uma continuação da série As Cariocas, que guia a comunicação da marca em 2026. Trata-se de desdobramentos da iconografia da cidade, de paisagens (as orlas de Ipanema e Copacabana, por exemplo) até práticas cotidianas, como a cultura dos botequins e, no caso mais recente, as feiras livres. Tudo traduzido em estampas, principalmente. Outra novidade é a collab com a estilista cearense Marina Bitu, prevista para chegar às lojas nos próximos meses.
Criada em 1997 por Katia Barros e Marcello Bastos, a Farm é um case de sucesso na moda brasileira. Integrante do portfólio da Azzas 2154 (resultado da fusão do Grupo Soma com a Arezzo & Co.), hoje a etiqueta responde por quase um quarto do faturamento total do grupo. No primeiro trimestre deste ano, foi a única das quatro unidades de negócios da empresa a registrar crescimento, com avanço de 4,5%. Em 2025, a receita líquida foi recorde: 3,4 bilhões de reais. Desse montante, cerca de 1 bilhão veio das operações internacionais, desde 2019 em franca e consistente expansão.
Em 2023, entrevistei os fundadores sobre a investida no mercado externo, especialmente nos Estados Unidos (com destaque para Nova York e Los Angeles), em Paris e em Londres. A matéria foi publicada em maio daquele ano no Volume 12 da ELLE Brasil. De lá para cá, muita coisa mudou – para melhor. Na visita da semana passada, Marcello disse que as vendas gringas da Farm representam algo por volta de 40% do faturamento. A expectativa, segundo o executivo, é de que, em breve, a receita de fora supere a interna.
Não à toa (e nem só por isso), a Azzas 2154 está considerando abrir mão do controle da marca. No fim do dia 19 de junho, uma sexta-feira, o grupo anunciou a contratação do banco Morgan Stanley para avaliar opções para a Farm. Quando o mercado reabriu, na segunda-feira (22.06), as ações da companhia dispararam. Entre as alternativas, está uma possível venda, talvez para um investidor internacional. Conforme reportagem do jornal Folha de S. Paulo, a transação tem potencial de chegar a 5,4 bilhões de reais, número acima dos 3,2 bilhões da capitalização total da Azzas.

Luigi Torre é diretor de reportagem de moda da ELLE Brasil.
Texto originalmente publicado na newsletter RE-SEE, enviada às terças-feiras.