Adolpho Veloso, outro brasileiro no Oscar

O diretor de fotografia, que concorre por seu trabalho em Sonhos de trem, depois de ganhar o Critics Choice, fala à ELLE.


Adolpho Veloso
O brasileiro no set de Sonhos de trem Foto: Daniel Schaefer/BBP Train Dreams. LLC.



O agente secreto, que concorre a quatro Oscars, não é o único brasileiro fazendo bonito na temporada de premiações. O diretor de fotografia Adolpho Veloso vem colecionando troféus pela produção estadunidense Sonhos de trem (Netflix), dirigida por Clint Bentley.

O filme, baseado no livro de Denis Johnson publicado em 2011 e disponível no Brasil pela Companhia das Letras, é o retrato de um homem que trabalha na construção de ferrovias, no início do século 20, e como ele lida com as transformações na paisagem de seu país e com as tragédias em sua vida.

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O paulistano de 36 anos concorre ao Oscar, ao Bafta e ao prêmio da Sociedade Americana de Fotografia, depois de ganhar o Critics Choice e ser laureado pela Associação de Críticos de Los Angeles. Nos discursos que fez até agora, ele sempre soltou um “Vai, Corinthians!” no final.

“É incrível tudo isso”, disse Adolpho Veloso em entrevista à ELLE, de São Paulo. Residente de Lisboa (uma decisão que torna os deslocamentos mais fáceis), Adolpho voltou à sua cidade natal para celebrar tudo o que está acontecendo perto dos seus – e, de quebra, dar uma passadinha no centro de treinamento do Corinthians, onde ganhou uma camisa do time com seu nome. “A gente, que trabalha com cinema, com arte em geral, passa por tantas crises. É bom receber um reconhecimento porque dá forças para seguir. São raras as vezes em que isso acontece. Estou muito feliz e surpreso também porque a gente não esperava nada disso.”

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Foto: Daniel Schaefer/BBP Train Dreams. LLC. © 2025.

Antes de Sonhos de trem, ele fez muita publicidade, videoclipes de Pabllo Vittar e Gloria Groove, longas de diretores brasileiros e portugueses, até conhecer Clint em Jockey (2021). E 2026 promete mais do que sua candidatura ao Oscar. Ele assina a direção de fotografia de Queen at sea, dirigido por Lance Hammer e estrelado por Juliette Binoche, que estreia na competição do Festival de Berlim no dia 17 de fevereiro, e Remain, o novo de M. Night Shyamalan (O sexto sentido), do qual ainda não pode falar nada. Sabe-se que o cineasta desenvolveu a ideia com o romancista Nicholas Sparks e que o longa estrelado por Jake Gyllenhall trata de um arquiteto em luto e com passado de depressão que tem sua vida transformada por uma mulher.

Na conversa com a ELLE, Adolpho falou sobre sua trajetória profissional até Hollywood, as surpresas da campanha para o Oscar e explicou o que faz um diretor de fotografia.

“A gente, que trabalha com cinema, com arte em geral, passa por tantas crises”

O caminho até Sonhos de trem

“Clint havia visto um documentário que fiz com o Heitor Dhalia (On Yoga: Arquitetura da paz, de 2017). Jockey era um filme muito pequeno, com uma equipe de umas 10 pessoas e orçamento baixo. Toda essa dificuldade de fazer um filme guerrilha aproximou a gente, além dos gostos em comum e pensamentos parecidos. Viramos amigos. Desde aquela época a gente já falava sobre o próximo filme. Como Jockey foi bem (o longa foi exibido em Sundance, levando o prêmio de melhor ator para Clifton Collins Jr., e Adolpho foi indicado para o prêmio Spotlight da Sociedade Americana de Fotografia), Clint começou a receber diversas propostas. O primeiro da qual ele realmente gostou foi Sonhos de trem, baseado no livro de um autor que admirava.”

O trabalho no filme 

“Foi muito bom porque Clint começou a me mandar as primeiras versões do roteiro, algo não necessariamente comum. Geralmente, o diretor de fotografia entra em uma etapa já quase prestes a rodar, então tem pouco tempo para pensar, porque já é preciso estabelecer a logística, a parte prática, de como filmar. Em Sonhos de trem, tive tempo de absorver o roteiro, a história e o personagem, entender as emoções. Quando chegou a hora de filmar, já estava tudo assimilado.”

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Joel Edgerton e o brasileiro nas filmagens de Sonhos de trem Foto: Daniel Schaefer/BBP Train Dreams. LLC.

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O que faz um diretor de fotografia

“Tem um ditado do meio que diz que uma boa fotografia não é necessariamente bonita. O trabalho do diretor ou diretora de fotografia é traduzir tudo aquilo que está no roteiro e nas intenções de quem está dirigindo em imagens. E não necessariamente isso tem que ser bonito. Nossa função é ajudar o espectador a sentir o mesmo que os personagens, quais as intenções ali postas. E isso pode ser feito de diversas maneiras, não necessariamente belas. Sempre tenho que entender o que é aquela história, aquele personagem para conseguir fazer as escolhas sobre onde botar a câmera, qual lente usar, que movimento de câmera fazer, que luz criar, escolher que hora do dia filmar. Tudo está conectado com essa emoção. Fui estudar cinema porque amava filmes. Mas, se me pedirem para tirar foto deste quarto (onde ele dava a entrevista), não saberia por onde começar. Porque meu pensamento vem da história, das emoções. Filme tem diálogos, narração. Minha premissa é sempre pensar como contaria essa história com a câmera e com a luz.”

Um álbum de fotos como inspiração

“Desde as primeiras conversas com o Clint, ele queria trazer o aspecto de memória. Não era uma biografia, mas pedaços de memória de alguém que vai contando e lembrando de uma coisa aqui e outra ali, que não necessariamente de fato aconteceu. Vimos fotos de lenhadores, pessoas que construíram ferrovias, no início do século 20. Muitas da Dorothea Lange, que fotografou a Depressão dos Estados Unidos nos anos 1920. Ficamos com a sensação de que o filme era quase um álbum de fotografias achado em um porão, em que você está tentando entender quem foi aquela pessoa por meio daquelas imagens, algumas espontâneas, outras posadas. Por isso, usamos câmeras mais fluidas, e outras mais fixas. E isso ajudou a capturar a natureza também, que é um personagem, com luz natural. Tudo veio a partir desse princípio.”

“Estava fazendo uma publicidade com orçamento incrível ao mesmo tempo em que trabalhava em um curta sem dinheiro. Nesse meio, a gente faz muita coisa por amor”

A decisão de fazer cinema 

“Sempre digo: ‘coitada da minha mãe’. Porque ela tinha um filho que queria ser cineasta, e uma filha que queria ser cientista. Mas deu tudo certo. Não tinha cineasta na família. Me apaixonei por cinema muito cedo. Eu me lembro que o primeiro filme que me impactou foi Laranja mecânica (1971), que talvez uma criança de 12 anos nem devesse assistir. E decidi que era o que queria fazer. Com essa idade, comecei a ver mais filmes, estudar mais, entender o que era essa carreira. Entrei na FAAP (São Paulo), me formei, trabalhando desde o início da faculdade. Porque sempre diziam como era importante estar em um set de filmagem. Até fazia Filosofia na USP ao mesmo tempo, mas precisei abandonar. Contei também com a ajuda de muitos professores na faculdade de cinema, porque trabalhar em set é difícil, são muitas horas, eu perdia aulas. Trabalhando, entendi que do que eu mais gostava no cinema era de fotografia.”

A ida a Hollywood

“Foi degrau por degrau. Para mim, sempre pareceram passos de formiga. Mas, quando olho para trás e entendo toda a jornada, parece algo até mais rápido do que de fato foi. Foi de um videoclipe para um amigo, a um curta, daí uma publicidade que ninguém queria fazer. Até começar a filmar na Argentina, no Uruguai, no México, na Europa, nos Estados Unidos, em paralelo a um documentário no Brasil que chamou a atenção do Clint para me chamar para Jockey. Foi tudo misturado. Eu estava fazendo uma publicidade com orçamento incrível ao mesmo tempo em que trabalhava em um curta sem dinheiro. Nesse meio, a gente faz muita coisa por amor. Teve muito esforço, trabalho, sorte e privilégio por ter estudado.”

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Joel e Adolpho no set do filme Foto: Daniel Schaefer/BBP Train Dreams. LLC. © 2025.

Representante do Brasil

“Que incrível que a gente possa estar torcendo pela arte, pela cultura, pelo cinema, quase de uma maneira como a gente sempre torceu para o futebol e os esportes em geral. Fico feliz em ser um grãozinho disso tudo, de poder representar o Brasil e levar o nome dele. É incrível o apoio que o país está dando para os compatriotas que estão lá. O brasileiro tem essa coisa incrível de que todo o mundo se sente parte de tudo. O Oscar de Ainda estou aqui é nosso também. Falamos: “A gente ganhou”. Não tenho dúvida de que, com todos os méritos do filme e que o cinema nacional sempre teve, a presença dos brasileiros nas redes sociais foi fundamental e continua ajudando as pessoas a entenderem a força dos nossos filmes e que há coisas incríveis sendo feitas aqui.”

Vai, Corinthians

“O que jamais imaginaria que ia acontecer na minha vida, principalmente fazendo um filme sobre um lenhador no meio do nada nos Estados Unidos, é que eu ia estar dando entrevistas falando sobre o Corinthians. Acho isso maravilhoso. Não que eu tenha qualquer capacidade para dar qualquer opinião sobre isso, mas eu sou muito torcedor. Sempre foi muito importante na minha vida. Acho incrível isso estar acontecendo também.”

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