Hoje vamos de boa tarde em vez de bom dia. Culpa do jogo do Brasil e da festa junina da ELLE, um atrás do outro. Mas aqui estamos. Terminou no domingo (28.06) a semana de moda masculina de Paris. O saldo até que foi positivo. Jonathan Anderson, na Dior, parece estar se encontrando – os ternos superleves e desestruturados, o clima de festa em casa, a decadência, algumas ótimas calças, boas camisas e bolsas estão entre os destaques da coleção. Sarah Burton, diretora criativa da Givenchy, introduziu oficialmente sua linha masculina (que não chega a ser nova, só não havia sido mostrada publicamente). As roupas foram apresentadas no showroom da marca e em fotos. Parece promissor. Como no feminino, a alfaiataria é o ponto forte. A estilista não trabalha com referências ou imagens específicas, mas com arquétipos e silhuetas que podem representar diferentes estilos. A abordagem amplia consideravelmente as possibilidades de uso e de interesse. Não acontece a mesma coisa com o verão 2027 de Dries Van Noten. É tudo lindo: a delicadeza, as cores, as levezas. Porém, a imagem final parece um tanto idealizada demais. Willy Chavarria fez seu melhor desfile, curiosamente sem as teatralidades das estações anteriores. Como consequência, as peças ganharam leituras mais diversas – e os visuais também se desapegaram de fórmulas previsíveis. Numa temporada de costumes de fibras naturais com caimento fluido, Soshi Otsuki oferece as versões mais desejáveis e convincentes. E aí, meio como o Brasil, veio a Celine, no limite do segundo tempo, e mudou tudo.

Por que gostamos tanto da Celine

A onda de calor que atingiu a Europa na semana passada teve mais impacto na interpretação dos desfiles do que nas roupas em si. É que boa parte das coleções masculinas de verão 2027 já estava pronta quando os termômetros ultrapassaram os 40ºC. Não havia tempo para grandes mudanças. Quem se apresentou mais para o fim da fashion week teve um pouco mais de margem de manobra, mas nada drástico.

Willy Chavarria passou duas semanas trabalhando só de cueca (samba canção, no caso) de tão quente que estava a sala onde realizou suas provas de roupa. “Eu tinha uma regra de que depois de uma certa idade não usaria shorts em público. Mas nesses últimos dias em Paris, não tive escolha”, disse o estilista ao WWD. Acabou que a peça ganhou toda uma outra importância no styling de seu desfile. 

A Celine divulgou teasers divertidos que representavam bem a sensação de derretimento e o clima de festa que se espalhou pela cidade. Na edição mais recente da newsletter High Margin, Robert Williams, editor do The Business of Fashion, descreve como as temperaturas elevadas reorganizaram a vida social de uma parcela dos parisienses em torno de atividades coletivas ao ar livre. Ele ainda relaciona o fato à exclusividade da moda de luxo e ao foco dos seus principais agentes em clientes de altíssimo poder aquisitivo.

Já abordamos o assunto aqui antes. Muita gente teve o orçamento comprometido pela inflação dos custos de alimentação, energia, transporte e moradia. A carestia reduziu os gastos dos consumidores chamados de aspiracionais – aqueles que impulsionaram o boom de crescimento no pós-pandemia. Para compensar a baixa nas vendas, as grifes apostaram valendo nos super-ricos. 

Resultado: uma galera se sentiu (e foi mesmo) excluída. De acordo com a consultoria Bain & Co., o mercado de luxo perdeu 50 milhões de consumidores entre 2022 e 2024. Entre as causas, a maior é o aumento expressivo de preços. O problema da atenção demasiada em uma demografia diminuta é a alienação. Hoje, com desigualdade social galopante, há uma crescente aversão à riqueza e tudo a ela associado. E se, além de não conseguir comprar, a pessoa não encontra nenhuma conexão, a marca se torna irrelevante – ou pior: indesejada.

Tendências de moda masculina do verão 2027.

Celine, verão 2027 masculino. Foto: Divulgação

É por isso que o verão 2027 masculino da Celine foi tão arrebatador. É difícil afirmar com precisão o que gerou tanto interesse naquelas roupas. A resposta talvez seja a falta de direcionamento e linearidade. A impressão é menos de looks pensados para um desfile e mais de interpretações do que se poderia encontrar em certos círculos sociais.

O clima segue o das coleções anteriores, pautado por espontaneidade, personalidade e liberdade. Tudo meio bagunçado, imperfeito, fora do lugar e sem uma fórmula específica aparente ou linha de raciocínio delimitada. As formas são amplas e justas, há um tanto de formalidade e casualidade na mesma medida. A barra de uma calça ampla pode vir presa por dentro da meia, mas de um lado só. A cueca escapa pelo cós, sobre um suéter de tricô quase sem querer, por engano.

Tecidos embolados, presos às cinturas ou parcialmente enfiados em bolsos ou dentro das roupas criam volumes amarrotados e desalinham as silhuetas com displicência. Alguns desses acessórios, se é que podemos chamá-los assim, vão parar nas cabeças ou são carregados pelas mãos. Colares de contas, sementes, madeira, madrepérola e flores são combinados com looks preppy, às vezes usados como cinto. A gravata onipresente nesta estação chega cortada e desfiada.  Os calçados são um destaque à parte. A Celine foi uma das responsáveis pela tendência dos sapatos de jazz, super em alta no momento. Eles continuam em cena, mas agora dividem espaço com sandálias e tênis em parceria com Reebok – que certamente virarão hits absolutos.

Em uma carta enviada à imprensa, o diretor criativo Michael Rider elenca algumas palavras-chave: sinceridade, estilo, risco, coragem, customização, free-styling, possibilidades. Mas o melhor trecho é sobre como ele e sua equipe provam, aproveitam e desejam tudo o que criam. Isso faz toda a diferença. Estabelece uma relação de proximidade e familiaridade bastante convincente e nada restrita com o público. 

Ao evitar linhas narrativas fechadas e referências delimitadas (o preppy, a aristocracia, o surfe, a silhueta skinny), as interpretações se ampliam e permitem que mais pessoas desejem aquelas peças. Claro, nem todo mundo pode consumir aqueles produtos, mas o apelo não é impossível nem desassociado de estilos, vontades e comportamentos comuns a muita gente. Parece de verdade e não fabricado de acordo com idealizações do que define a moda de luxo.

Luigi Torre

Luigi Torre é diretor de reportagem de moda da ELLE Brasil.
Texto originalmente publicado na newsletter RE-SEE, enviada às terças-feiras.