A queda do céu

Algoritmo, ChatGPT, deepfake, inteligência artificial, burrice humana e a impermanência: os atravessamentos provocados pela surreal realidade do Brasil.


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O ChatGPT vem encantando quem observa o zeitgeist. Seja por responder perguntas cabulosas sobre os assuntos mais cabeludos, da ordem das religiões e das filosofias, por fazer artigos, teses e trabalhos de faculdade. Também parece ser o futuro das ferramentas de busca na internet. Estamos falando de algoritmo e de inteligência artificial, de produção de conteúdo de uma forma que nossas gerações ainda não haviam visto, incluindo a própria criação.

Porém, podem ficar tranquiles que essa coluna não é pra ficar explicando o ChatGPT. 1. Porque você ainda pode dar um bom google e achar zil matérias sobre isso. 2. Porque desde quando essa coluna se presta a explicar alguma coisa? Chacrinha, estou mais para confundir do que para explicar. 3) Porque nada mais chato do que textos que ficam dando palestrinha sobre as últimas 9dades do rolê.

(Ando impaciente.)

Maaaas, fato é que ando também acompanhando o assunto, como venho acompanhando as imagens geradas por inteligência artificial, desde a coqueluche (rápida, vai) das fotos das pessoas no Instagram feito personagens épicos de algum filme (ruim, vai). Algumas, entretanto, até que boas. Como venho acompanhando os retratos produzidos pela mente das pessoas, como no caso do perfil @newrelva, que é da fotógrafa e diretora Vivi Bacco. Uma viagem pós-fotografia digital, analógica, pós-tudo. “Fiquei muito impressionada sobre ter fotografias de pessoas que não existem, isso é algo muito louco, tão realista e que não existe”, conta.

“O programa funciona com um descritivo do que você quer gerar, a partir daí faz a interpretação dele. Então, por exemplo, quando você coloca fashion model ou top model ele te entrega um perfil de pessoa que ele acredita ser uma top model. O que torna tudo muito limitado.” Vivi observa que a AI (artificial intelligence, no original gringo) foi desenvolvida e alimentada no Vale do Silicio, “então é uma máquina cheia de algoritmos racistas, programadas por um certo tipo de pessoa que ensinou a ela que top model, por exemplo, é uma pessoa branca, magra e loira. Então, tento driblar esse algoritmo com palavras que não significam exatamente o que são, e dessa maneira construir uma imagem mais próxima do que eu quero chegar.”

Bora enganar o algoritmo.

A questão é na vida real: “Outro dia eu estava em uma festa e conheci um menino IDÊNTICO a uma criação minha. Aí mostrei pra ele e ele ficou até assustado, porque parecia uma fotografia dele. Isso começou a me instigar a querer fotografar essas pessoas, mesclar a realidade com o artificial, até que em determinado momento vire uma coisa só”. 

Como o ChatGPT, a brinks também funciona no trabalho: “Estamos tentando usar a IA também para criar treatments, moodboards, tudo o que a gente faria em um pré-job, que levaria um tempo maior de pesquisa”, antecipa a diretora.

Os artistas Pedro Victor Brandão e Giseli Vasconcelos participam com um trabalho em A.I. ou I.A da mostra “Atos de revolta: outros imaginários sobre independência”, aberta em setembro último no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Chama “Nheenga Cabana” (2022) e é baseado nos arquivos do jornalista e sociólogo paraense Lúcio Flávio Pinto sobre a revolta da Cabanagem. As cenas foram geradas por processos de aprendizado de AI. O resultado discute as fronteiras entre fato e fake, bem como o que nos é enfiado goela abaixo sobre as narrativas históricas oficiais.

Deepfake é outra viagem, e os chineses nesta semana em que atrasadamente escrevo essas mal traçadas linhas lançaram apresentadores de TV pós-Lu do Magalu dando notícias também falsas, distribuídas por contas de bot pró-China no Twitter e no Facebook. Quase a campanha da Balenciaga dos âncoras futuristas. Só que reais. Reais? Surreais? Não saem da minha mentchy as caras daquela galera medonha do Instagram @contragolpebrasil. Ah, se essa gente existisse somente ali. Ou se nem existissem. Terror. Terrorismo. Golpe. Real, e transmitido pela TV e outras mídias más.

Aproveitei para jogar lá no ChatGPT o tema original desta coluna, que era/ é / sobre impermanência. De lá, vem a explicação que a impermanência se refere à ideia de que todas as coisas são transitórias, temporárias, e em constante mudança. Que nada nunca permanece o mesmo. Central para o budismo, o reconhecimento e a aceitação da impermanência é a chave para alcançar a iluminação e nos libera do sofrimento.

Fato.

No aplicativo do Plum Village, do monge coreano Thich Nhat Hanh (mago do mindfulness, ativista pela paz, acho que já falei dele aqui, né?), uma curta meditação guiada sobre o tema me conforta nas manhãs mais difíceis, e tenho levado esse pensamento para tudo, nos últimos tempos.

Numa camada mais mundana, digamos, do tópico, a impermanência poderia servir também para as modas, onde tudo muda, tudo acaba, onde nada será como antes, amanhã. Nem mesmo o sucesso e a glória são garantias de longevidade. Só a antropofagia nos une.

É porque na-verdade-na-verdade mesmo, eu ia escrever sobre o fim da era Alessandro Michele na Gucci. Qual o quê. Fui atravessada pela flecha do tempo e por uma dessas voadoras na pleura que a vida nos dá. 

Eu ainda me emocionava com a subida da rampa e, como todes, entramos em choque com o 8 de janeiro. Pensar na impermanência, entretanto, não me ajuda a suportar a indignação com a gravíssima situação dos Yanomami, algo que as gerações atuais não viram nem nunca sonharam com, nem no maior pesadelo. Recomendo a leitura de A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Tá tudo explicado lá, contado lá, com a publicação, em 2015, desse importante livro, verdadeiro grito de alerta para tudo isso que estamos constatando agora. 

Para os Yanomami, a “queda do céu” é uma lenda que descreve um evento apocalíptico que aconteceu no passado e que mudou o mundo como eles o conheciam. De acordo com a mitologia Yanomami, antigamente, o céu estava muito próximo da terra e as pessoas viviam em harmonia com os deuses e os espíritos da natureza. No entanto, um dia, houve uma briga entre os deuses e o céu desabou sobre a terra, causando a morte de muitas pessoas e animais. A partir daí, o mundo mudou, tornando-se mais perigoso e hostil, e as pessoas tiveram que aprender a sobreviver em meio às adversidades.

Esta lenda tem uma forte relação com a cosmologia Yanomami, que vê o universo como uma espécie de “grande casa” composta de diversos elementos, como o céu, a terra, as árvores, os rios, os animais, etc. A “queda do céu” é, portanto, uma metáfora para a mudança na ordem do mundo e na relação entre as pessoas e a natureza.

Essa explicação não é minha não, tá? É do ChatGPT.

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