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De todas as pautas que invadiram a internet nesses tempos em que vozes inferiorizadas pela história ganharam corpo, representatividade e empoderamento são as mais esvaziadas. A medida desse esvaziamento é a importância que esses dois conceitos têm. Asseguro que são infinitamente importantes. Um dos instrumentos de opressão sempre foi o apagamento pela exclusão de representantes de grupos oprimidos (negritude, mulheres, indígenas, LGBTQIA+) das vistas da sociedade e dos espaços onde o poder se faz atuante.

Daí entra a figura da primeira mulher não branca a ocupar o posto de vice-presidente da centralidade política do mundo, Kamala Harris. Ela sintetiza em sua imagem alguns dos elementos que caracterizam aqueles que sempre estiveram às margens da sociedade ou na base da pirâmide social: é mulher, se autodeclara negra, é filha de imigrantes e de origem pobre. Imageticamente falando, podemos comemorar a representatividade que tanto importa, afinal, a imagem também é instrumento de controle e de imposição de discursos excludentes. No entanto, ao que parece, é chegada a hora de retomar esse assunto e discutir com muita lucidez quais os limites da representatividade e até onde esse conceito aplicado na prática pode nos impulsionar a uma mudança civilizatória consistente. Ver pessoas que sempre estiveram excluídas é importante. Mas quando essas pessoas atuam para cessar essas exclusões é decisivo.

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Daí pulamos para a questão do empoderamento. Grosso modo, empoderamento é a emancipação social total e irrestrita. Os números de feminicídio nos dão a certeza de que a estrutura patriarcal atua através de um cinturão mundial que oprime e mata mulheres. *Será que Kamala Harris vai conseguir trabalhar pelo empoderamento real mediante a aparente promessa de reconsideração futura de seus equívocos, tendo em vista que há um passado político crítico que contraria princípios fundamentais para a emancipação social das minorias? Não há condições de afirmar que uma mulher é empoderada, quando outras continuam convivendo com a opressão de seus corpos sistematicamente. Não existe empoderamento individual, pois esse só pode se concluir na emancipação da coletividade.

É a primeira vez que vemos uma mulher em outra posição que não a de acompanhante, sustentando o protagonismo tradicional patriarcal. Ainda que mulheres como Michelle Obama tenham sido acompanhantes com ares de altivez e discreta divisão de poderes, ser primeira-dama é um posto que reforça a lógica do segundo sexo ou da cidadã de segunda classe. Mas o que interessa aqui é olhar além para apurar se o carisma de Kamala vai conseguir se transformar em força de confronto à lógica ainda vigente de "mulheres abaixo de homens". Ou ainda, se a representatividade vai extrapolar os limites da visualidade e se colocar como combustível de políticas sérias para empoderamento de todo um grupo de mulheres e de pessoas negras.

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A subida de Kamala Harris a esse lugar de poder e decisão traz uma esperança, ainda que debaixo das desconfianças justificáveis de muitos. Mas nenhuma posição política pode se limitar ao simbólico. Em sua postagem em rede social, Kamala evoca, reconhece e agradece a todas as mulheres que vieram antes dela, se comprometendo com a continuação de um legado que custou a vida de muitas. Foi bonito tanto quanto sua vitória nas eleições ao lado de Joe Biden. Resta a nós torcer para que Kamala derrube as barreiras imagéticas e simbólicas da representatividade e, em honra ao legado das inúmeras mulheres históricas citadas por ela mesma, construa elementos para a consolidação de novos marcos civilizatórios realmente comprometidos com o real significado emancipatório do empoderamento individual e coletivo. Se assim o fizer, será apoiada por mais de milhares de "manas".

Joice Berth é arquiteta, urbanista, escritora, feminista e apaixonada por uma boa série. É autora do livro O que é empoderamento, da coleção Femininos Plurais.

Para alcançar um estado de transformação social e coletiva, no entanto, é preciso percorrer os caminhos do aprimoramento interno.



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