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Já vou começar essa coluna fazendo uma confissão: eu nunca tinha assistido Sex and the City até começar a escrever aqui na ELLE. Não sei muito bem o que aconteceu que me fez demorar todos esses anos para apertar o "play", ainda mais gostando tanto de maratonar séries dos anos 90, mas depois da quantidade de comparações que recebi das minhas amigas por estar escrevendo sobre um assunto tão gostoso quanto sexo, como a nossa querida Carrie Bradshaw, esse foi um caminho sem volta.

Claro, muitas das séries mais queridinhas do planeta envelheceram um pouco mal. Um exemplo disso é Friends, que por mais que tenha sido minha companheira fiel por tantos anos, me faz retorcer de mal estar quando a revejo e me deparo com o tamanho da gordofobia, homofobia, machismo e outras coisas seríssimas em forma de piada. Sabemos que muitas falas "engraçadinhas" existentes nessas séries não estariam mais presentes se fossem escritas hoje, e que bom. Sinal de evolução, não é mesmo? Mas agora focando nas partes boas, e que consequente fazem parte desse sucesso todo, é inegável ver como muitos temas importantes foram tratados de maneiras icônicas e inovadoras para a época.

Sexo é um assunto primordial na sociedade em que vivemos, é algo que gera curiosidade, medo, empolgação e até sentimentos que ainda não possuem nome. Ver ali naquela tela quatro mulheres tomando as rédeas da sua própria narrativa sexual (todas dentro de um recorte totalmente privilegiado, importante frisar), certamente foi empoderador pra muitas que se viram representadas nessa jornada, mas que ainda não tinham com quem dividir todo esse mundo de descobertas e situações estranhas que, vez ou outra, acabam por acontecer. Assistindo a série, consegui perceber dois momentos que foram cruciais para mudar de uma vez por todas o rumo dos vibradores e a nossa forma de se relacionar com eles:

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O rabbit

(Temporada 1, episódio 9, 2 de agosto de 1998: The Turtle and The Hare)

Imagem: reprodução

Foi nesse episódio que o mundo dos sex toys se abriu, diante da descoberta de um vibrador que era colorido, divertido e que estimulava o clitóris e o ponto ao mesmo tempo. Todas se rendem ao encanto do Rabbit, principalmente Charlotte, que resolve não sair de casa por nada, só pra curtir melhor a companhia do seu novo amor. Mesmo tendo sido inventado 15 anos antes pela marca Vibratex, foi nesse exato momento da foto acima, nas mãos de Carrie, que o Rabbit se tornou famosíssimo e um dos itens mais procurados entre as mulheres. Logo após, várias marcas de vibradores começaram a produzir modelos similares ao Jack Rabbit da série e milhões de unidades foram vendidas entre os EUA e Reino Unido, tudo em apenas 12 meses após o episódio ter ido ao ar. Até hoje ele permanece no seu posto de best-seller, mesmo já tendo passado por várias reformulações de design. E não é por acaso: esse toy realmente tem algo a mais. Ele possibilitou o primeiro orgasmo de muitas mulheres ao longo dessas décadas. Então, por isso e por todos os orgasmos que ainda virão: Obrigada, meninas!

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A magic wand

Temporada 4, episódio 8, 15 de julho de 2001: My Motherboard, My Self
Temporada 5, episódio 6, 25 de agosto de 2002: Critical Condition

Sobre esse item em particular, eu realmente preciso agradecer com ainda mais vigor. A magic wand é, sem sombra de dúvidas, o meu vibrador preferido nesse mundo, e isso eu não escondo de ninguém. A história dele é mais antiga: foi em 1968 (!) que a empresa japonesa de eletrônicos Hitachi registrou a marca magic wand para o seu novo massageador muscular. Nos anos 70, algumas mulheres tiveram a oportunidade de garantir seu Hitachi de maneira acessível e discreta, bastava ir a qualquer loja de eletrodomésticos e pagar pelo seu massageador, como quem comprava um liquidificador. Ainda na década de 70, e depois nos anos 80 e 90, quem teve uma grande participação na trajetória de popularizar esse vibrador clitoriano maquiado de massageador de pescoço foi a educadora sexual e minha guru pessoal Betty Dodson. Betty iniciou workshops focados no prazer feminino e na busca pela autonomia desse orgasmo ainda tão marginalizado. E a Magic Wand se tornou a sua principal aliada (e de todas suas alunas também). Esse toy é revolucionário por não ser nem um pouco fálico, ser enorme e, ainda sim, 100% dedicado ao clitóris (ou a outras partes externas do corpo), e ter uma potência digna de 5 estrelas. Por isso, em 2001, foi sua vez de brilhar em Sex and the City. Sua aparição na 4ª temporada foi breve, mas causou grandes impactos. A cena de poucos segundos, onde Samantha pega sua wand e busca seu orgasmo, enquanto pede para não ser incomodada pela amiga no telefone, se tornou tão icônica que até hoje vemos ela por aí em gifs e imagens por toda a internet.

Já no segundo ato, um ano depois, na 5ª temporada, a atenção e a história ao redor desse objeto tão amado cresceu. Samantha vai até uma loja convencional trocar seu vibrador e o atendente se sente ultrajado com esse nome, enfatizando que aquilo "é um massageador de pescoço". Eu fico encantada toda vez que vejo esse diálogo, ainda mais por saber que, bem na época, a marca Hitachi também não sabia lidar com a fama do seu próprio produto. Tanto que em 2013 eles desistiram oficialmente de ter seu nome ligado a um sex toy. Mas voltando pra série e toda naturalidade de Samantha em saber que ninguém comprava aquele objeto para apenas massagear o pescoço, a conversa se estende para outras mulheres que também estão de olho nesses aparelhos vibrantes, e a personagem usa seus conhecimentos para ajudá-las. E booom! Mais uma explosão de vendas no mercado mundial. E por mais que no Brasil a fama ainda não seja tão grande como é nos EUA, esse foi um dos primeiros produtos que eu fiz questão de trazer para a Climaxxx. Apostei todas as fichas neles, porque os orgasmos não mentem.

Botar em foco objetos de prazer de uma maneira divertida e natural é admirável, ainda mais com um grande público em vista. Seja com um rabbit, uma magic wand, ou o que quer que vibre, muitas pessoas puderam ter seu primeiro acesso a essas potências só por causa da aparição delas na série, e é inegável que isso reverbera até hoje. Muita coisa mudou (pra melhor, ainda bem), mas não podemos esquecer de quem começou esses processos lá atrás. Não foi sobre vender o produto x ou y, mas sim sobre a coragem que é falar abertamente sobre acessórios tão saudáveis e que fazem tão bem pras pessoas, mas que ainda são vistos como "sujos". Isso também faz parte de uma pequena revolução, e é uma delícia poder não só assistir, mas também vibrar e poder fazer parte dela.

Clariana Leal é educadora sexual e carrega como propósito a abertura honesta e inclusiva do diálogo sobre sexo, desejo e corpo. Ela é também sócia da primeira sex shop brasileira 100% focada no prazer feminino. Na sua coluna Prazer sem dúvidas, responde mensalmente as dúvidas do público da ELLE pelo Instagram e também aqui no site.

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