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Confesso não gostar muito de ser portadora dessa informação, mas algumas pessoas precisam fazê-lo – e eu venho fazendo isso há algum tempo. Voltemos a 2017 ou a 2019, quando eu falei que equidade, democracia e justiça ambiental não se compra no mercado. Porém é muito difícil superar um discurso tão palatável quanto fast-food e precisamos retomá-lo o tempo todo.

Lá vamos nós: o papo sobre consumo consciente dominando parte do debate público hoje tem servido mais às corporações do que aos movimentos sociais, ambientalistas e climáticos. A narrativa de que fazendo melhores escolhas de consumo nós vamos mudar as coisas tem soado como música nos ouvidos das grandes empresas, que conseguem, rapidamente, transformar tudo em oportunidade de negócio. Do movimento feminista à questão climática, a resposta costuma ser sempre a mesma: "Vendam isso a eles, e lembrem-se de cobrar mais caro pela dose de ativismo". Ao mesmo tempo, essa conversa tem servido para distrair as pessoas da raiz do problema: o modelo capitalista neoliberal de acumulação infinita.

Não me entenda mal. Eu sou vegana, garanto meus orgânicos em feiras e institutos de orgânicos, bem como faço parte da CSA – Comunidade que Sustenta a Agricultura. Eu escolho meus cosméticos com total consciência dos seus impactos e compro produtos certificados sempre que possível. É claro que compostamos em casa, separamos o lixo reciclado e tentamos colocar todas as boas práticas em prática. E eu realmente espero que pessoas privilegiadas como eu, que podem fazer algumas melhores escolhas, as façam. O estímulo vem, acima de tudo, por saber que por trás do produto tem história boa de verdade para contar.

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Porém e sobretudo, eu não sou cega à realidade do quanto isso está cada vez mais difícil com processos acelerados de concentração de renda e monopólios, deixando a maior parte população global impossibilitada de sequer comer, quanto mais escolher o que comprar. Uma rápida olhada em dados básicos já evidenciam nosso caos social em ascensão: o Brasil retornou ao mapa da fome e algumas projeções apontam para 20 milhões de novos miseráveis ainda esse ano. No trimestre encerrado em setembro de 2019, as estimativas eram de 27,3 milhões de pessoas recebendo até um salário mínimo. O valor de um salário mínimo é de R$ 1.100, enquanto o valor real para sustentar uma família de quatro pessoas, formada por dois adultos e duas crianças seria de R$ 5.330. Ainda sobre 2019, metade dos brasileiros ganhava R$ 438 mensais, menos de R$ 15 por dia. Estamos falando de quase 105 milhões de pessoas.

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A má gestão da pandemia no país, somada ao desmonte de praticamente todas as políticas públicas – de saúde, educação, pesquisa e ciência, seguridade social, ad infinitum – nos reserva um futuro bastante desafiador (para não dizer, trágico). Isso sem falar no empobrecimento devido às alterações climáticas que afetará milhões de pessoas. Uma relação, inclusive, bastante estreita com o ciclo vicioso entre emissões de gases de efeito estufa (GEE), vulnerabilidade social e trabalho análogo à escravidão na moda que eu já falei por aqui.

Por sua vez, quem pode escolher está soterrado em estímulos de consumo. Estima-se que somos expostos a cerca de 5 mil anúncios e marcas por dia. Somos uma sociedade que sofreu intensa lavagem cerebral para crer que dando nosso melhor conseguimos alcançar o que quisermos, que ter coisas – cada vez mais coisas – é símbolo do sucesso, que os bons sempre vencerão, que vale quase tudo por dinheiro. O eu é soberano e se preocupar com coisas absolutamente triviais, como as condições de vida das pessoas, é "mimimi". Está tudo muito vivo em nossas mentes, eu espero, e não precisamos relembrar as respostas das lideranças às consequências da pandemia.

Compre consciente, pero no mucho

No meio disso tudo, corporações compram pessoas como se fossem coisas e balizam narrativas a seu próprio favor, escondendo seus processos produtivos ou dizendo que elas não têm nada a ver com isso. Fazer logística reversa de embalagens "é um grande desafio", mas afundar comunidades isoladas em comida porcaria é "plano de expansão". Enquanto isso, dá-lhe campanhas publicitárias para convencer as pessoas que tomar aquele iogurte ultraprocessado é bom para saúde. Ah, claro, e o agro é pop.

Mas nem o campo da publicidade vê grandes esforços. Apesar dos milhões de seguidores e orçamentos rechonchudos que dariam belas campanhas de consumo consciente, estimulando as pessoas a comprarem menos, a pesquisarem sobre a origem de seus produtos, a conhecerem a rede produtiva da marca, nós temos as mesmas campanhas de sempre estimulando o consumismo em cada detalhe. Afinal, é preciso vender. Compre consciente, pero no mucho. Aqui está o segredo. O próprio sistema econômico e social é produtivista e expansionista, o que significa que produzir mais e lucrar mais é essencial para o seu modo de funcionamento.

As notícias evidenciando a brusca queda no consumo e os impactos na economia dessas alterações deveriam ser suficientes para expor uma importante contradição a ser endereçada. Além do mais, todos os acordos globais, começando pelo NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio), em 1994, tiverem justamente a função de facilitar a produção rápida, centralizar capitais e acelerar o fluxo internacional de mercadorias, estimulando o consumo via preços baixos e às custas da qualidade de vida da maior parte das pessoas. Um aumento de 41% nas emissões globais anuais de GEE desde então é a outra face da mesma moeda.

O balde de água fria ainda está por vir. Na moda, por exemplo, os executivos das maiores empresas globais disseram que as mudanças realmente vêm quando é preciso se ajustar às legislações. A afirmação apareceu na pesquisa The Pulse of The Fashion Industry, do Global Fashion Agenda de 2017. O papo do consumo consciente tem servido muito mais para abrir nichos de mercado do que promovido mudanças reais. Voltemos aos dados. As projeções são de aumento de emissão de GEE, mostrando que os nichos não estão fazendo cócegas nas emissões. Nem a ameaça climática tem feito os executivos, inclusive os que não têm dinheiro para se refugiar em bunkers, moverem a agulha. Ah, e essas pessoas já são ricas e detêm poder e capital o suficiente para crescerem suas fortunas apenas com juros e especulação. Importante ter isso em mente no caso de você estar achando que simplesmente não comprar em suas empresas imediatamente as deixaria menos ricas. Não é assim que as coisas funcionam no sistema de acumulação, o que, particularmente, acho uma pena.

Poderíamos colocar outras questões que complexificam ainda mais a conversa e enfraquecem a base argumentativa já bastante frágil do consumo consciente como rota de saída para a era das crises, porém os argumentos já abundam. Vamos checar as etiquetas das nossas calças jeans, claro. Mas não nos esqueçamos de endereçar o elefante branco na sala: temos que escolher entre o capitalismo neoliberal e a vida na Terra. As duas coisas não podem existir em harmonia. Infelizmente essa não é uma escolha (de consumo) individual – e apenas uma pequena fatia da população sai ganhando quando acreditamos que é.

Marina Colerato é jornalista, Diretora Executiva do Modefica, organização de mídia e pesquisa que atua por justiça socioambiental e climática por meio de uma perspectiva ecofeminista. É co-fundadora da Futuramoda, agência de comunicação e design, além de mestranda em Ciências Sociais pela PUC/SP.

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