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“Eu gosto de belas melodias me contando coisas terríveis”
Tom Waits

O número 5 no tarô corresponde à carta “O sumo sacerdote” (que também pode se chamar O Hierofante ou O Papa, em alguns deques). E foi em um dia 5 deste mês 5 que o cantor paulistano Criolo, o sumo sacerdote do rap, serviu seu álbum Sobre Viver, após 5 anos de espera de sua legião de fãs. O 5 também representa as transformações, as revoluções internas e externas, as transgressões, a rebeldia e a comunicação que movimenta e estende os limites. Parece irracional fazer análises místicas para um trabalho musical, mas o Criolo traz naturalmente uma presença espiritual em tudo que produz, o que torna inevitável fugir dessa atmosfera quando se fala dele (lembrando que ao falar em espiritualidade não estamos necessariamente falando sobre religiosidade e tampouco santificando pessoas).

Gostar ou não é uma dinâmica pessoal que depende muito da relação que cada um tem com o universo ao seu redor, com os desejos e as expectativas que cada um cultiva em si. Mas (quase) tecnicamente falando, Sobre Viver é um trabalho mais importante do que nosso olhar – e audição – limitados pela hegemonia imperialista musical podem fazer supor em uma primeira, e até segunda, escuta.

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Aliás, escutar é uma palavra que cabe muito bem aqui. Precisamos de uma escuta qualificada nesse mundo onde exigir lugar de fala virou modismo sem critério. Nem todo mundo tem algo de relevante a dizer, porque isso depende muito do investimento que se faz na escuta e na seleção criteriosa do que pode ser consumido sem nos consumir.

Pensar o contrário disso nos tornou essa legião de emocionados, viciados em frases de efeitos e eloquências ocas. Criolo, do lugar de sumo sacerdote que ocupa na música, tem o que dizer. Poderia ter repetido a fórmula do sucesso que arrebatou o Brasil em Nó na orelha e o consolidou em Convoque seu Buda. Mas decidiu transgredir e se despir diante do seu tão variado e imprevisível público. Em tempos de cancelamentos, ou da tênue linha que divide o vitimismo da disputa de narrativa, isso é sinônimo de coragem. Ou de necessidade sincera de ser não apenas ouvido, mas, principalmente, compreendido.

Nas composições verborrágicas que revelam um domínio consciente da palavra, o cantor entrega o seu já conhecido labirinto de referências. Algumas soam esquisitas (como rimar Hermione com Alcione), mas dentro dos contextos das suas narrativas os universos não têm lá muita distância. É uma visão espiritual da vida: tudo está relacionado e se complementa mesmo quando distante.

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Assim pensa o Sumo Sacerdote do tarô, que representa a ponte, o lugar em que o divino e o mundano se encontram e, por vezes, se confrontam. Assim parece pensar, sem abandonar nem por um minuto o tom melancólico que torna menos agressiva a contundência de sua voz, o sumo sacerdote do rap.

Nas músicas apresentadas nesse álbum, é exatamente assim: um confronto entre a dor aguda e uma esperança teimosa que faz questão de esperançar. E isso me lembrou uma antiga entrevista de outro compositor, e também sacerdote da música, que transgride o sofrimento com a mesma elegância de Criolo, Tom Waits.

“O mundo é um lugar infernal e a má escrita está destruindo a qualidade do nosso sofrimento.”
Tom Waits

Nenhum sofrimento pode ser inútil. Todos eles devem servir para algum propósito, nem que seja caber na música e encontrar outros sofrimentos que perambulam por esse mundo infernal, como descreve Tom Waits e realiza Criolo e suas parcerias poderosas em Sobre Viver.

Longe de querer romantizar os processos dolorosos que permeiam a nossa expansão humana, mas precisamos de compositores que devolvam ao sofrimento sua única e nobre virtude: a de desenvolver o humano que habita em nós e que por vezes é atravessado por espirais de ilusões tão sedutoras que nos tiram do domínio de nós mesmos. Como a ilusão da posse e, principalmente, da perda. Ou a difícil e inevitável vivência do luto, assunto que está onipresente em todo o álbum de Criolo, e não poderia ser diferente em se tratando de um artista que está vivendo a primeira (para muitos, mais dolorosa) fase dessa experiência que iguala a todos nós.

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Os problemas sociais potencializam nossas dores pessoais de uma maneira única e insuportável. Enlouquecer pessoas também é um plano do sistema, como bem pontuado pelo cantor em “Diário do Kaos”, para depois invocar um caminho de resiliência e um chamado à fé em "Ogum ogum" definindo a coletividade ativa como antídoto social contra essa estrutura que adoece:

“Somos a cura. Somos a mágoa dessa estrutura”

Sobre Viver parece o resultado de uma pausa para recalcular a rota e pegar de volta o rumo das coisas. E as coisas não estão boas. Para ninguém. Mas tem amor. Enquanto houver amor, há tempo. Mas amor nesse mundo tão problemático do sétimo templário é possível? É possível amar quando se está cheio de revolta e (res)sentindo a morte que não pede perdão?

Claro.

É o único caminho.

Mas daí a gente precisa trazer Audre Lorde e seus ensinamentos de canalização do ódio, que no sumo sacerdote do rap parece ser intuitivo e devidamente registrado na música que é minha preferida do álbum:

"Quem planta amor aqui vai morrer".

Talvez você discorde de mim, mas o ponto mais tocante de Sobre Viver são os feat. de altíssima qualidade, tanto na produção quanto nas vozes e composições. Nos dá a impressão de que, quando o compositor da voz versátil e das reflexões profundas se perde na próprias tristezas, fazendo parecer que não vai conseguir emergir do seu kaos, são as participações que estendem a mão e o puxam para cima, seja pelas vozes que suavizam, como a de Liniker e de Mayra Andrade, seja pelo frescor inusitado de Mc Hariel. Ou ainda pela modernidade dançante dos cientistas da música Daniel Ganjaman, Marcelo Cabral e Tropkillaz. Criolo parece saber muito bem o que lhe falta (pelo menos nesse momento de sua carreira) e usa isso a seu favor para escolher parcerias que o complementam.

Todas são impecáveis, mas duas presenças inevitavelmente emocionam: Dona Maria Vilani, sua mãe, e Milton Nascimento, seu mestre e o maior e mais conhecido sumo sacerdote da música, que representa a primeira e mais nobre linhagem espiritual da arte.

É quase insuportável ouvir “Me corte na boca do céu a morte não pede perdão”. Duas forças geracionais trabalhando na alquimia que transforma sofrimento em beleza.

Parece que, entre o moço que acreditava que as pessoas não são más e o homem que se veste de solidão para ir para a rua em pleno carnaval, há um caminho importante percorrido rumo à maturidade pessoal, espiritual e musical, seladas pelas presenças da mãe e do mestre, simulando um renascimento subjetivo, que pode ter sido conquistado a um altíssimo custo. E quem ganhou fomos nós (ouvintes ou “escutadores”) a oportunidade de ver a nudez muito sincera e despretensiosa de um dos artistas mais importantes desse tempo em que vivemos.

Joice Berth é arquiteta, urbanista, escritora, feminista e apaixonada por uma boa série. É autora do livro O que é empoderamento, da coleção Femininos Plurais.

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