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The Gilded Age não é lá essas coisas. Foi anunciada com muita pompa, é do mesmo criador de Downton Abbey, o produtor Julian Fellowes, mas – na opinião deste que vos escreve – não entregou tudo o que prometeu. Mas este texto não é sobre isso. É que a ideia dele veio enquanto eu assistia ao nono episódio da série. Assim como outras produções – A Feira das Vaidades, Maria Antonieta, Romeu e Julieta e tantas outras –, a produção da HBO reflete alguns traços sociais que insistem em não mudar. A questão de aceitação, pertencimento e acesso, por exemplo. São pontos nevrálgicos da trama e também do mercado, da indústria e de tudo mais que se relaciona à moda.

Boa parte da atração e fascínio pela moda vem da ideia de exclusividade, de um clubinho para poucos, de quem entende, de quem faz parte, de quem consome e de quem dá algo em troca. Sempre foi assim. Até que quem não estava na lista começou a questionar a exclusão. Mais do que isso, passou a exigir atenção e o devido respeito, como consumidor e, sobretudo, como ser humano, como voz ativa.

Nada disso é novidade, e acredito que não precisamos entrar em detalhes ou didatismo sobre o assunto. Ainda assim, é importante prestar atenção em alguns discursos vendidos como revolucionários e progressistas.

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Comecei a escrever esta coluna depois de um lançamento de coleção de uma grande varejista. Por motivos de pandemia, fazia tempo que não ia a um evento do tipo. Como se sabe, foram todos suspensos ou adaptados para apresentações digitais. E já que é/era tudo online, não há/havia porque limitar os acessos. Esquece a lista de convidados. Finalmente, a tal democracia da moda poderia acontecer.

E aconteceu até certo ponto. Por um breve momento, estava todo mundo vendo o mesmo desfile, do mesmo lugar, do mesmo ponto de vista. Não tinha mais primeira, segunda ou terceira fila. Tinha só o que a câmera e a edição queria mostrar. Claro, membros da imprensa e compradores tinham informações e conteúdos exclusivos e privilegiados. Ainda assim, no geral, o espetáculo era comum a todos. Pelo menos a todos que tinham acesso, conexão e tempo disponível para assistí-los.

Com a aceleração de tudo que é digital, não demorou para marcas e criadores se voltarem às plataformas e tecnologias de realidade virtual e aumentada. De repente, era tudo sobre o metaverso, aquele espaço, mundo que só existe digitalmente, onde tudo é possível – para quem pode chegar lá.

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No evento desta segunda-feira, 21.03, o desfile, que normalmente acontecia na passarela, só podia ser visto com óculos de realidade virtual. Por meio deles, versões 3D das roupas eram apresentadas em cenários e locais que inspiraram a nova coleção. No site da marca, o mesmo conteúdo está disponível em um vídeo. A experiência digital completa, contudo, foi limitada e exclusiva aos convidados – por motivos sanitários, tecnológicos e financeiros. Um exemplo pequeno, bobo talvez, mas simbólico dos alcances e problemas da tal revolução digital na moda.

Tímido e um tanto antissocial que sou, saí fugido do evento e decidi voltar a pé para casa. Caminhando pela avenida Paulista, a realidade não poderia ser mais contrastante. Às portas fechadas, com nomes na lista e testes de Covid negativados, eram looks combinandinhos, pensados para engajamento máximo, ou aqueles propositalmente fora da curva ou apagados (o meu, no caso). Do lado de fora, era a vida como ela é, moda de verdade. Quase como a que estava exposta lá dentro em alguns manequins e cabides, só que acrescida do estilo, necessidade e urgência de quem não vive de like como moeda de troca.

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Curiosamente (ou não), a mesma coleção apresentada virtualmente para só um tanto de gente apareceu em um comercial veiculado no intervalo da novela das nove da rede Globo. Horário nobre da publicidade tradicional. O completo oposto do tipo de comunicação que apostam alguns dos tech-gurus – talvez um tanto insensíveis ou alienados da realidade de boa parte da população nacional. Para uma tecnologia tão revolucionária e democrática, parece que a ideia de acesso e pertencimento não mudou tanto assim, né? É que moda, como outras coisas essenciais, depende do contato, troca e vivência social IRL (in real life) ou, em bom português, na vida real.

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