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Em 2009, quando me formei em Design de Moda, as coisas eram um pouco – na verdade, muito – diferentes. O primeiro iPhone havia sido lançado em 2007, e colocar as mãos em um celular com internet não era tão simples. Não havia redes sociais, as relações de trabalho eram diferentes e os espaços de atuação ficavam cada vez mais restringidos com a ascensão das grandes redes de varejo, expansão do mercado de luxo global e desaparecimento das marcas nacionais. Trabalhar com moda, ainda mais com comunicação ou jornalismo de moda – área do meu interesse –, era para poucos. Ao mesmo tempo, tal comunicação ou jornalismo ficavam cada vez menos provocativos e críticos e cada vez mais descaradamente publicitários. Não era,assim como não continua sendo, uma área de atuação rentável e com muitas oportunidades.

Consegui fazer algumas coisas logo quando saí da faculdade, mas a vida me empurrou para navegar em outros mares. Até 2012, quando voltei para comunicação de moda, para trabalhar com marketing em um grupo de atacado do Bom Retiro, em São Paulo. Experimentar o chão de fábrica e as dinâmicas de produção de um polo produtivo tão grande trouxe alguns aprendizados, entre como aquele ambiente é insalubre para as trabalhadoras e trabalhadores. Minha salinha era sufocante, sem nenhum tipo de iluminação natural nem ar-condicionado, e a gente respirava todo dia todas as microfibras do corte. Sair para ver a luz e respirar não era bem-visto, assim como ir ao banheiro.

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Descobri também que coisas insanas, como containers inteiros com peças importadas da China sendo descartados por apresentarem defeitos. Vi o processo de terceirização, quarteirização e de total sufocamento da criatividade. Peças escolhidas em lojas na Europa e nos EUA, sobretudo de fast fashions, eram reproduzidas com menor qualidade e alteração mínima de design. Definitivamente, a essa altura, eu já tinha aprendido que moda, para além dos editoriais e desfiles, não tinha nada a ver com criatividade, como me tentaram convencer na faculdade. Era capitalismo puro e simples, sem nenhum tipo de encantamento.

Era hora de ir para outro lugar, embora não soubesse bem para onde. Preciso dizer que foi nesse momento que uma oportunidade caiu do céu literalmente no meu colo, e comecei a trabalhar com pesquisa de tendência segmentada. Passei três anos cobrindo sobretudo feiras e novidades do setor têxtil, bem como as semanas de moda de São Paulo. Embora durante grande parte do tempo eu gostasse do trabalho, meu incômodo com a moda e com aquele ciclo sem fim de tendências repetidas só crescia: o sufocamento da criatividade e das pessoas trabalhando na área, principalmente os designers independentes, o jornalismo publicitário, as condições de trabalho na rede produtiva, o Olimpo Fashion, a falta de seriedade para temas urgentes como questões de trabalho, uso de animais e poluição. Cada dia que passava, via a urgência de tentar ressuscitar o jornalismo de moda e, ao mesmo tempo, colaborar para oxigenar a criatividade da moda.

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Jornadas pessoais são frutos coletivos

“E se a gente ressuscitasse um jornalismo de moda crítico e fizesse isso com essa preocupação de sustentabilidade?”. Foi mais ou menos assim que eu lancei a ideia, lá em 2013, para o Modefica. A ideia inicial era ser um veículo de comunicação e marketplace de moda e comportamento dentro de uma perspectiva de sustentabilidade ou de consumo ético/consciente. Se as experiências com moda me encaminharam para um jornalismo crítico e para ideia de descentralização criativa, o veganismo e os estudos ecofeministas trouxeram a perspectiva ambiental, sociopolítica e de direitos dos animais para dentro do meu entendimento de como deveríamos falar de moda naquele momento. Num processo bastante dialético, a vida tinha me feito baixar muros inteiros e abrir osolhos para a urgência da transformação radical.

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Com a ajuda de um companheiro na parte de identidade e design, o Modefica foi ao ar em agosto de 2014. Após sete anos, o marktplace nunca saiu do papel, nossa produção jornalística aumentou, se aprimorou e o Modefica se radicalizou. Começamos a escavar em busca das raízes dos problemas da nossa indústria,de forma bastante profissional, o que nos permitiu extrapolar o jornalismo de moda e nos reposicionar como organização de jornalismo e pesquisa para justiça socioambiental e climática. A moda segue como um espaço de pesquisa, proposição e crítica bastante fértil; há muito a ser pesquisado, dito, escancarado e, obviamente, solucionado.

Faço questão de lembrar que essa jornada é fruto de um processo coletivo. Da minha formação em Moda, em 2009, até hoje, as trocas com outras pessoas e o caminho pavimentado por quem veio antes foram fundamentais para construir uma jornada profissional tão inusitada e pouco linear, de muita mudança e aprimoramento constantes.

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