E se… as nossas roupas durassem para sempre?

Resolver a questão da moda com o descarte não é tão simples quanto a máxima "menos roupas, com mais qualidade, pagando mais caro por elas".


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Numa cultura onde tudo se tornou descartável, inclusive as nossas roupas, faz mais sentido projetar roupas de excelente qualidade e durabilidade ou roupas para serem descartadas? Pode parecer uma pergunta estranha em um primeiro momento. Mas é um questionamento válido com o qual me deparei nas minhas pesquisas sobre economia circular e sustentabilidade. Se o capitalismo neoliberal acelerou a produção de coisas e, com o auxílio da internet e das redes sociais, exponenciou nosso desejo pelo novo a níveis que beiram o insaciável, talvez tenha passado da hora de começar a projetar as coisas sob a lógica do descarte.

Olhar para as diretrizes da economia circular pode ajudar a pensar em como. Menos material nos produtos (por exemplo, tecidos de menor gramatura, menos aviamentos, estampas e uso de insumos reduzido na fase de produção), itens que são de fácil desmontagem, de um material único e com uma cadeia produtiva estabelecida em solo nacional para viabilizar a logística reversa. A nível sistêmico, insistir em políticas públicas que viabilizem a circularidade e os materiais reciclados enquanto dificulta o extrativismo e a produção de itens prejudiciais ao meio ambiente e à saúde das pessoas. Para garantir que está tudo dentro dos conformes, podemos recorrer às certificações, como a já existente Cradle to Cradle® (algo como “do berço ao berço”, em tradução literal).

Soa como um bom plano. E de fato é. Pelo menos parcialmente. É que seria um engano tremendo pensar que é possível dar conta de reciclar tudo infinitamente e em volumes tão expressivos. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), só no Brasil, em 2018, foram produzidas 9 bilhões de peças de roupas, algo como 42 peças por habitante. Não temos ideia da quantidade de tecidos e roupas que acabam nos nossos aterros sanitários e lixões (para se ter uma ideia, os números variam de 170 toneladas por ano em todo Brasil, segundo estimativas do Sebrae, a cerca de 60 toneladas por dia só em três bairros de São Paulo, segundo a Loga, empresa responsável por parte da gestão de resíduos na cidade), tampouco conseguimos ter acesso ao estoque parado de tantas marcas e confecções espalhadas pelo país.

Em 2018, só no Brasil, foram produzidas 9 bilhões de peças de roupas, algo como 42 peças por habitante.

Reciclar ou reutilizar esse tanto de roupa, além das dificuldades inerentes ao processo, exigiria uso de recursos como energia, emissão de gases de efeito estufa e talvez não garantisse a diminuição do uso de recursos virgens (podemos pegar como exemplo a indústria das garrafas PET; mesmo sendo altamente centralizada e monomaterial, sua logística reversa é completamente deficitária). Ademais, reciclar ou reutilizar sem questionar os volumes de produção não tocaria numa questão tão crucial quanto a questão do uso de recursos: somos uma sociedade cada vez mais endividada, processo que só se intensificou com a crise da Covid-19, deprimida e ansiosa. Não podemos, sob hipótese alguma, não ver a relação entre nossa insatisfação consumista e os problemas do nosso tempo – que vão da crise climática à epidemia da depressão. A produção excessiva de roupas, de imagens, de estímulos de consumo via desfiles, campanhas e influenciadores digitais têm tudo a ver com isso.

Se não é 8, talvez 80

O outro lado dessa conversa costuma ser assim: precisamos fazer menos roupas, com mais qualidade e pagar mais caro por elas (ou, o quanto elas realmente valem). A ideia é valorizar o processo, as pessoas envolvidas e, claro, a peça de roupa e todos os recursos naturais e humanos empregados na sua concepção. De novo, soa como um bom plano. E de fato é. Pelo menos parcialmente. Mas fazer roupas com excelente qualidade não necessariamente significa fazer menos. Um exemplo é o mercado de luxo, em constante crescimento.

Fazer roupas com excelente qualidade não necessariamente significa fazer menos. Um exemplo é o mercado de luxo, em constante crescimento.

No final de 2020, um estudo publicado na Nature Communications, afirmou que “consumidores altamente ricos conduzem o uso de recursos biofísicos (a) diretamente por meio de alto consumo, (b) como membros de facções poderosas da classe capitalista e (c) conduzindo normas de consumo em toda a população”. Eles não só compram mais do que todo o resto, o que significa mais uso de recursos e mais emissões de gases de efeito estufa, como também influenciam o consumo das outras classes.

O movimento por sustentabilidade na moda tende, indiretamente, a culpar as pessoas pobres ou de classe média por seu consumo desenfreado e de “baixa qualidade”, mas raramente elas consideram as altas classes e seu consumo supérfluo e, por vezes, pornográfico em quantidade e cifras. Desconsideram igualmente que toda a estrutura e organização capitalista depende do consumismo para manter a roda girando. Seguir a rota mais fácil e culpabilizar as pessoas – algumas pessoas em particular – sem olhar para as estruturas que fomentam e sustentam o hiperconsumo, a exploração das pessoas e uso indiscriminado de recursos naturais está colocando todo o movimento de sustentabilidade em um beco sem saída. Não importa quantas marcas “verdes” com preços realmente justos (embora nem sempre) pipoquem por aí; nosso planeta segue em chamas.

O caminho do meio

Fazer roupas que durem para sempre, e possam ser usadas, reusadas e ainda revendidas, é algo realmente necessário se quisermos que a moda tenha um papel importante na contenção das várias crises que vivemos. Mas apenas fazer roupas de maior qualidade não resolverá o problema. Pelo contrário, significará abarrotar brechós e aterros sanitários com bilhões de peças para além das já estocadas em lojas que vendem as últimas tendências – sejam elas de luxo ou de fast fashion, pouco importa. Continuar produzindo bilhões de peças, mesmo com um pensamento circular, não vai resolver também. Nós precisamos fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Porém, há um desafio ainda maior para que tal estratégia dê certo: nós precisamos “des-produtificar” a moda, “des-comoditificar” a criatividade, criar estratégias socioeconômicas que não dependam de vender produtos de forma desenfreada e “des-materializar” a nossa felicidade. Sim, é um desafio enorme, que vai além da moda. Entretanto, por seu poder imagético e caráter efêmero, a moda tem um papel essencial nessa transformação e pode ajudar a construir novos desejos, novos comportamentos e novas ideias. Aceitar esse desafio significa pensar na roupa para além da estética, mas significa também pensar moda para muito além da moda.

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