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De um lado, locais em chamas ou inundados. Argélia, Grécia, China, Turquia, Estados Unidos, Brasil, só para citar alguns dos desastres climáticos que ganharam manchetes nas últimas semanas. Do outro, governos negacionistas, liberais reacionários e lideranças empresariais com campanhas de marketing verde esvaziadas de sentido e descoladas da emergência na qual o mundo se encontra. Coroando essa difícil realidade, o mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) nos mostra que o mundo está mais quente do que imaginávamos e esquentará ainda mais rápido do que o previsto. As ações de redução de emissões de gases de efeito estufa precisam ser radicais, ou seja, ir na raiz dos problemas, e para ontem.

Mas o clima é só uma das nossas crises atuais. Não estou desconsiderando as várias outras crises, como as crises humanitárias que estamos presenciando, do Afeganistão às ruas de São Paulo, tomadas por pessoas em situação de rua em número crescente. Que tempo horrível para estar viva. Onde devemos nos agarrar para garantir um pouco de sanidade no nosso mundo particular e não colapsar? Trabalhar com justiça ambiental e climática é se fazer essa pergunta diariamente.

Penso em Antonio Gramsci, o jornalista intelectual italiano socialista que viveu entre 1891 e 1937. Preso pela ditadura fascista italiana em 1926, foi liberado sob liberdade condicional apenas em 1934 por questões de saúde. Faleceu três anos depois, aos 46 anos. Gramsci reconhecia as péssimas condições da classe trabalhadora de sua época. Mas, como disse o jornalista, "a concepção socialista do processo revolucionário é caracterizada por duas notas fundamentais que Romain Rolland resumiu em seu slogan: 'pessimismo da razão, otimismo da vontade'''. Se, de um lado, a situação material e concreta de miséria, opressão e exploração das pessoas fundamentava o pessimismo da razão gramsciano, a capacidade de uma "organização enérgica" por parte dos setores revolucionários pode construir outras formas de sociabilidade, capazes de superar a miséria capitalista que recai sobre a maior parte da população global.

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Retomar Gramsci é, então, não se deixar paralisar pelas notícias sobre o fim do mundo. Na esteira das imagens de um planeta parte em chamas, parte submerso, é preciso, recuperando outra citação gramsciana bastante conhecida, tomar partido. Escrevo numa revista de moda, portanto esse tomar partido aqui posto é direcionado a todas as pessoas que se relacionam, de alguma forma, com essa indústria. Reforço: pessoas. Não falo em empresas, em consumidores, em marcas. Pessoas estas que, seja por um compromisso ético e moral com a questão climática e ambiental, por reconhecerem como o aquecimento global engendra múltiplas formas de injustiça, seja por uma preocupação pessoal ("em que mundo seus descendentes irão viver?"), se sentem tocadas e, ao mesmo tempo, desesperançosas frente a tantas crises sociais, ambientais e econômicas.

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Empregar o otimismo da vontade exige, previamente, uma escolha consciente sobre de qual lado se está. Não ser indiferente, afinal, "a indiferença é o peso morto da história", que normalmente pesa a favor dos dominantes e, sobretudo, a favor de interesses particulares em detrimento dos interesses coletivos, como escreveu Gramsci:

"Quem vive verdadeiramente não pode não ser cidadão, assumir um lado. Indiferença é apatia, parasitismo, velhacaria, não é vida. Por isso odeio os indiferentes [...] Sou resistente, vivo, sinto na virilidade da minha consciência pulsar a atividade da cidade futura que estou ajudando a construir. Nela, a cadeia social não pesa sobre poucos, cada acontecimento não é devido ao acaso, à fatalidade, mas é obra inteligente dos cidadãos. Não há ninguém na janela contemplando enquanto alguns se sacrificam, se esvaem em sacrifício; aquele que permanece de plantão na janela para aproveitar daquilo que a atividade desses poucos alcança – ou para desafogar a própria desilusão vituperando o sacrificado – desfalece sem conseguir o que pretende. Vivo, tomo partido. Por isso odeio quem não o faz, odeio os indiferentes".

Tomar partido é se informar, questionar incansavelmente as narrativas hegemônicas e, sobretudo, se movimentar, na prática, para a transformação que precisamos, se quisermos um futuro diferente do que tem sido desenhado por e para nós.

Produtos "verdes" e corporações "conscientes" não vão nos salvar, como não o têm feito desde sempre. Não vamos esquecer que há pelo menos 40 anos os cientistas vêm alertando sobre a necessidade de mudanças estruturais para conter as alterações climáticas – por que esperar até agora? Ainda, frente à urgência, muito pouco tem sido feito e há mais diversionismo e incentivos a nichos de mercado "verde" (a exemplo do mercado de créditos de carbono), do que mudanças efetivas que podem realmente colaborar para manter o aquecimento da Terra no limite de 1,5ºC, o que significa menos pessoas brutalmente afetadas por esse aumento de temperatura.

Tomar partido é se entregar ao otimismo da vontade e solapar as falsas narrativas que nos levam às lojas, mas nos afastam dos movimentos coletivos e da organização enérgica clamada por Gramsci. Tomar partido é se informar, questionar incansavelmente as narrativas hegemônicas e, sobretudo, se movimentar, na prática, para a transformação que precisamos, se quisermos um futuro diferente do que tem sido desenhado por e para nós. Na moda, tomar partido é utilizar a moda não como instrumento de acumulação capitalista, diversionismo ou simples mitigação – é recolocar a criatividade e o fazer à serviço dos muitos em detrimento dos poucos.

Marina Colerato é jornalista, diretora do Modefica, organização de mídia e pesquisa que atua por justiça socioambiental e climática por meio de uma perspectiva ecofeminista, e mestranda em Ciências Sociais pela PUC/SP.

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