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Ela estava sentada na calçada de casa. Segurava um cachorrinho miniatura em seu colo e, com a maquiagem borrada, chorava para que os paparazzi a deixassem em paz.

Foi assim que conheci Britney Spears, entre os anos de 2007 e 2008, no meio de um furacão de colapso mental provocado, alimentado e espetacularizado pela mídia. Imediatamente me senti comovida, indignada, triste. Eu não conhecia suas músicas, não acompanhava sua carreira artística, mas, por causa desse momento em sua vida, passei horas ouvindo o álbum Blackout enquanto atualizava a página de um fansite tentando saber o que estava acontecendo. Qual era a notícia da última hora? Onde os paparazzi encontraram Britney com os cabelos cheios de nós e os olhos perdidos cheios de lágrimas?

De repente, eu também me tornei parte do show da exploração humana, não refletindo a respeito do meu papel naquele horror, sem entender que eu também me alimentava do declínio ao mesmo tempo em que alimentava a engrenagem que moía a mulher Britney Spears.

Hoje penso sobre como conheci a artista e sobre como continuo, continuamos, quase fascinados pelo show da miséria humana. Parece que queremos algo para nos provocar indignação. Parece que fertilizamos esse sentimento e não enxergamos que somos peças no problema. Quantos cliques precisamos dar e quantas reproduções precisamos fazer e quantos textos na internet precisamos escrever até entender que há algo de muito errado?

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Em muitos casos, não podemos sequer distinguir onde começa a revolta e termina a curiosidade mórbida pela crise de saúde mental que artistas – e pessoas próximas – estão vivendo. O setembro amarelo, mês dedicado à campanha de combate ao suicídio, parece um borrão de hipocrisia na realidade cruíssima do descaso e estigmatização diante de problemas de saúde mental. Como um mês de "não ao suicídio" conseguiria superar todos os outros onze meses distribuindo por aí palavras que carimbam pessoas como loucas e, ao mesmo tempo, relacionam a loucura à maldade humana? Por que pessoas ruins, desonestas e poderosas são chamadas de loucas, enquanto pessoas que estão realmente sofrendo são dignas de deboche? E descaso. O que precisa acontecer para que Britney Spears, e eu, e você tenhamos a chance da empatia, da privacidade e do cuidado?

Tenho dificuldade de responder muitas coisas. Também me assombra o sofrimento humano e escrevo sobre ele. Me debruço sobre as cenas da Britney raspando a cabeça e preciso me esforçar para ir além do clichê "está mal mentalmente". O que Britney quis nos dizer? Depois de ter sua vida judicialmente entregue nas mãos de seu pai, que assumiu o controle de sua carreira e vida financeira sob a alegação de que ela estava mentalmente incapaz de defender seus melhores interesses, o que Britney calou durante todos esses anos? Sob poder do pai, que acabou estendendo seu abuso de poder, a artista hoje tem não apenas sua vida financeira controlada, mas também sua vida pessoal, assim como sua autonomia corporal impedida. Onde eu estava e qual profundidade dei a sua fala de "estou sendo muito controlada" quando Britney retornou sua carreira com o álbum Circus e, no documentário For the record apareceu chorando?

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Não consigo evitar o pensamento: e se for a minha vez de cair, qual estigma terei que carregar?

Você já pensou sobre isso? Como gostaria de ser tratado caso sua saúde mental sofresse?

O caso de Britney Spears é terrível não somente porque todos os dedos estão apontados para sua sanidade, mas também porque, com a desculpa de controlar sua "loucura", todo seu corpo é controlado. Em audiência pública, Britney disse em juízo que é obrigada a ter um DIU em seu útero e que é proibida de engravidar, mesmo desejando. E ainda que faça milhões em dinheiro trabalhando, de toda a fortuna que ganha, segundo seu relato e dados registrados em juízo, recebe uma mesada semanal mínima, não pode dirigir e nem viajar. Ainda assim, a maioria dos artistas americanos não se posicionou pela liberdade da cantora. Muitos artistas que amo não disseram nada até agora. Mas será que não estão assistindo ao espetáculo?

Britney nos contou que foi tão abusada até mesmo por psiquiatras e psicólogos, com trocas absurdas de medicamentos, internações psiquiátricas compulsórias e falsas, que afirmou não acreditar em psicoterapia. Como acreditaria? Quem acreditaria? Você acreditaria?

Hoje vejo seus vídeos dançando no Instagram e leio comentários quase infindáveis debochando de sua aparência, da forma como ela se move, além de risadas que derramam emojis e perguntas insistentes de "Britney você está bem?"

Nós estamos bem? O que estamos esperando?

Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 12 de Fevereiro de 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora do premiado "Redemoinho em dia quente", vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional, do APCA de Literatura na Categoria Contos e finalista do Prêmio Jabuti. Jarid também é autora dos livros "Um buraco com meu nome", "As Lendas de Dandara" e "Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis". Atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres e tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel.

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