Halston, Bianca Jagger, Jack Haley Jr. e Liza Minnelli, no Studio 54. | Foto: Getty Images
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Não sei para vocês, mas as ideias andam escassas por aqui. As poucas que aparecem são xoxas, capengas, mancas, anêmicas, frágeis e inconsistentes. E assim são por um motivo bem óbvio: cancelaram o convívio social. Não tem mais a conversinha do café no trabalho nem mesa de bar depois dele. Festas são impensáveis e encontros aleatórios na rua, cada vez mais improváveis – quando não indesejáveis. Cadê Gloria Kalil com a etiqueta de cumprimentos na pandemia?

Fato é que nossas leituras, conversas de WhatsApp e redes sociais não chegam aos pés do que acontecia na nossa cabeça com o que víamos, vivíamos, ouvíamos e nem sempre entendíamos nos encontros e desencontros da vida pré-COVID. Vivi Whiteman já falou um pouco sobre a série Faz de Conta que NY É uma Cidade, de Martin Scorsese e Fran Lebowitz. Mas gostaria de voltar ao assunto e transcrever uma fala da escritora:

"Há muito o que ser dito sobre o contato físico com outros artistas. Estar por perto é importante. Tinha o Max's [Kansas City] e um milhão de outros lugares. E mais outro milhão antes daquilo. Era Nova York, Paris... Épocas diferentes, cidades diferentes. Mas o contato é importante.

Me lembro de quando Michael Bloomberg fez a lei sobre fumar… Eu ainda falava com ele e disse: 'Sabe como artistas sentados em bares e restaurantes, falando, bebendo e fumando, são chamados?'.

Ele disse: 'Como?'

E eu: 'História da arte.'"

É isso, sabe? Todas as grandes revoluções estéticas, artísticas, culturais e sociais aconteceram mediante o encontro de pessoas. Foi assim na República de Weimar depois da I Guerra Mundial, foi assim em Paris nos anos 1920 e também no Rio de Janeiro naquela mesma época (até mais que em São Paulo com sua Semana de Arte Moderna). Momentinhos de loucuras sem limites. De lá saíram a Bauhaus, alguns dos principais artistas modernistas da história e os nomes mais revolucionários da literatura, música, arte e dramaturgia brasileira do começo do século 20.

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Foi também de pequenas grandes aglomerações que nasceram movimentos extremamente influentes como a Disco Music, o Hip-Hop, o Rap, o Funk e toda cena clubber dos anos 1990 em diante. Esta, aliás, tem uma relação especial com a moda. John Galliano, Alexander McQueen, Stephen Jones, Riccardo Tisci e, mais recentemente, Charles Jeffrey, da Lover Boy, são apenas alguns dos nomes fortemente impactados pelas festas e personagens da noite londrina em diferentes momentos das últimas décadas. Antes deles, vale lembrar, Halston, Yves Saint Laurent e até Karl Lagerfeld já bebiam (literal e metaforicamente) nas pistas do Studio 54, em Nova York, e do Régine e Le Palace, em Paris.

Eu era uma gueizinha mirim, recém-ingressada no jornalismo de moda, quando ouvi de duas pessoas admiráveis que o problema de tal estilista era não ir para a buatchy. Eram os jornalistas Vitor Angelo e Ricardo Oliveros comentando um desfile da São Paulo Fashion Week, provavelmente entre 2008 ou 2009. Não por acaso, Vitor e Ricardo fizeram parte de uma cena clubber bem importante não só para a noite paulistana, como também para a moda brasileira. (Leiam o livro Babado Forte, da Erika Palomino)

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Scans do livro Babado Forte, de Erika Palomino. Página livro Babado Forte, de Erika Palomino.Foto: Reprodução

P\u00e1gina livro Babado Forte, de Erika Palomino. Página livro Babado Forte, de Erika Palomino.Foto: Reprodução

O que hoje conhecemos como a maior semana de moda da América Latina, a SPFW, começou com desfiles em clubes undergrounds de São Paulo, nos anos 1990. Walter Rodrigues, Alexandre Herchcovitch, Caio Gobbi, Marcos Morcerf, Sucumbe a Coléra e Escolas de Divinos são só alguns nomes de estilistas e marcas clubbers que surgiram nas pistas de clubes como o Massivo, Columbia e Sra. Krawitz.

Depois veio o Clube Glória, as festas de techno, o boom do carnaval de rua em São Paulo. Com isso, o escopo e gatilho criativo a partir do contato social só se expandiu. Não são poucos os empreendimentos de moda que surgiram, focados ou a partir de cada uma dessas cenas. De um lado inspiracional, tem a permissividade e liberdade de experimentações típicas dessas festas. Do outro, tem as pessoas. Aquelas que incomodam, causam estranhamento, estouram sua bolha e mostram novas possibilidades de ser, sentir, existir, se relacionar e se expressar.

Nada disso pode mais. E quem acha que está podendo, está errado. O resultado, pelo menos em termos de moda, a gente pode ver nas últimas fashion weeks. Não que os trabalhos sejam desinteressantes ou ruins. São só viagens pessoais, desdobramentos de pontos de vista bastante limitados, carentes de interação e influências externas. Do lado de cá, de quem escreve, reporta e comenta, não é diferente. Novidades e bons assuntos não chegam espontaneamente em nossas caixas de entrada. As melhores pautas são encontradas em curvas de rios e nas ocasiões mais improváveis.

Mas tudo bem, es lo que hay. É bom para percebermos e dar valor aos encontrinhos fugazes que tanto sentimos falta, ao eventinho chato que ninguém quer ir e sempre acaba no boteco mais próximo (quando não em buatchy). E assim, esperamos por uma grande explosão criativa e de ideias coletivas quando, depois de vacinados, pudermos todos partir para o abraço, para as mesas de bar, para as pistas e, claro, para as fofocas e assuntinhos ao vivo, a cores e com toques, por favor.



Nova série documental da Netflix, Faz de conta que NY é uma cidade, joga luz sobre a escritora, uma das mais sarcásticas observadoras de Nova York.

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