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Colunistas

O poder do (novo) erótico

Quais as melhores formas de acessar conteúdos eróticos que abracem os desejos femininos, em vez de estereotipar ou impor comportamentos nocivos ou distantes da realidade? Confira as dicas da nossa colunista Clariana Leal.

Ilustração: Mariana Baptista
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Em algum lugar da história nos deixamos levar pelo papinho de que apenas homens tinham o dom de se sentirem atraídos por estímulos visuais quando se tratatava de sexo, já as mulheres, nem pensar. Isso colou muito bem porque o conteúdo adulto que literalmente assistimos crescer nas últimas décadas foi feito para o olhar masculino, a partir de uma narrativa imaginária e fantasiosa, mas ainda assim 100% masculina. Produtoras de filmes e revistas se apropriaram e se beneficiaram dessa história toda de um jeito quase que admirável e ficaram multimilionárias. Enquanto a indústria pornográfica ia crescendo cada vez mais intensa de um lado, do outro, a literatura erótica foi ocupando o espaço na tentativa de construção de uma certa narrativa do desejo feminino. Com essas histórias "mais ousadas", muitas mulheres tiveram seus primeiros acessos aos efeitos que uma história erótica é capaz de lançar sobre o corpo e pensaram em masturbação pela primeira vez na vida. E assim nasceu um movimento, ainda muito discreto, mas impactante o suficiente. Por mais que não tenha agradado a todas (e eu me incluo nessa), é inegável que qualquer mulher moderna já teve conhecimento da existência do controverso 50 Tons de Cinza, suas sequências, cópias e afins

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Porém a literatura erótica não é novidade e nem sempre é fiel aos desejos e representações femininas. Marquês de Sade e Leopold von Sacher-Masoch (que, inclusive, foram tão marcantes que deram nome ao sadismo e masoquismo) já narraram suas aventuras e chocaram absolutamente todo mundo há mais de um século. Um bom tempo depois, começamos a ver nomes de mulheres autoras das suas próprias fantasias e/ou vivências, além de descobrir que muitos nomes masculinos eram, na verdade, pseudônimos para escritoras que não queriam ou podiam ter sua identidade revelada. Vimos Anaïs Nin na década de 40 escrevendo o famoso Delta de Vênus (que só foi publicado após sua morte, em 1977, porém mesmo assim), Hilda Hilst nos anos 1980, os clássicos de Emmanuelle Arsan, que começaram na década de 60 e viraram até filmes clássicos de soft porn (quem aí não lembra de espiar na sessão Cine Privé que passava durante as madrugadas em rede nacional?), e por aí vai. Mas, além de datada, essa antiga literatura erótica ainda possuía os vícios performáticos do que seria o ideal de feminino lidando com seu "dever" de proporcionar o prazer para o outro. Esses livros, que eram guardados a sete chaves, acabavam pendendo entre o obsceno e o óbvio. Por isso passei tanto tempo achando que simplesmente não gostava de literatura erótica, tirando uma ou outra exceção.

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Mas o bom de trabalhar com sexualidade é acompanhar de perto as mudanças de todos os aspectos que acompanham esse tema. E já que maio é conhecido internacionalmente como o mês da masturbação, separei minhas principais dicas sobre o novo erótico feito por mulheres, que podem te ajudar a dar uma levantada não só no repertório dos momentos solo, mas também na criatividade sexual como um todo.

Livro Rio Profano, de Lua Menezes


Recentemente, li esse romance, que já virou o meu preferido da categoria, e senti uma empolgação sobre as delícias do desejo feminino como não sentia há muito tempo. Rio Profano, escrito pela especialista em sexualidade e psicologia positiva Lua Menezes, conta a história de Mel, uma mulher como muitas de nós, que banca suas vontades, mas também é vulnerável; que sabe muito de si, mas entende que não sabe de tudo; que honra seu gozo, mas também acolhe seu passado doloroso. Me apaixonei por Mel justamente por essa humanidade, que foge da personagem donzela, submissa, passiva, que está ali apenas para ser guiada. Mel guia sua própria história, que nem sempre é um mar de rosas ou ideal, mas é conscientemente vivida (e quente, meu povo, quentíssima). Me vi em Mel e na sua própria confusão inúmeras vezes, nessa ânsia pela liberdade, pelas trocas sexuais profundas e reveladoras, nesse coração e tesão gigantes que guardam espaço para (quase) todo mundo. Pequeno spoiler: essa é a história de uma mulher bissexual vivendo paixões gostosas e um amor fortíssimo dentro de um trisal. A história se passa no calor do Nordeste brasileiro, com direito a banho de mar e rio, cenários paradisíacos e um castelo que acolhe o tórrido amor dos três. Sabe aqueles livros que você devora com fome, ao mesmo tempo em que se delicia com a escrita fluida e bem feita? Rio Profano é um desses, porém com o adicional de cenas de sexo que trazem sua libido de volta em menos de 3 dias.

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Aplicativo de áudios eróticos Dipsea (em inglês)


Lembro de ter comprado a assinatura anual do Dipsea no comecinho da pandemia. Pensei: "Sabe lá quanto tempo vou ter que ficar trancada em casa, então, qualquer estímulo que mantenha o fogo aceso é sempre bem-vindo, não é mesmo?" E foi a melhor decisão. Nesse aplicativo, conseguimos acessar inúmeros tipos de histórias eróticas contadas numa narração bem natural, completamente diferente daquela voz forçada que víamos em filmes pornôs, e em situações extremamente possíveis e reais. Ele também conta com exercícios guiados por especialistas que estão ali para te ajudar no processo de descoberta do próprio corpo. Uma das minhas histórias preferidas é a de um casal que recém comprou uma casa e, durante uma visita da reforma, ficam com vontade e transam ali mesmo. Simples assim. Sem pirotecnias, mil poses ou alegorias, só duas pessoas celebrando um momento importante em conjunto, de uma maneira íntima e afetuosa. Os contos são bem escritos e feitos por mulheres. O aplicativo possui versão gratuita com contos limitados ou a assinatura mensal/anual para acesso completo, porém, por ser estadunidense, só está disponível em inglês.


Plataforma de educação sexual com contos e áudios eróticos Share Your Sex (em português)


A SYS, ou Share Your Sex, começou 10 anos atrás como uma comunidade no Facebook para mulheres poderem compartilhar suas dúvidas e experiências sexuais num ambiente seguro. Mesmo com a censura constante das redes, a fundadora Mariah Prado não deixou a peteca cair e foi buscando formas pra que a SYS continue sendo esse lugar de narrativa do prazer feminino livre de julgamentos. Hoje, a comunidade já possui sua própria plataforma, que é o SYS Club, e conta com contos, áudios, meditações guiadas, exercícios e cursos. Mais um ótimo exemplo de mulheres sendo protagonistas do seu próprio erotismo e mostrando ele pro mundo de uma maneira sensível, mas sem precisar deixar o tesão de lado.


Perfis de arte erótica feita por mulheres no Instagram

Recentemente, fui compartilhar os perfis que mais gosto de acompanhar de mulheres que produzem artes eróticas, porém o Instagram derrubou as postagens e ameaçou remover minha conta caso mostrasse qualquer conteúdo sexual novamente. Que pena, Instagram, você talvez nem tenha noção do quanto perde e nos afasta com esse moralismo sem sentido. Confesso que me chateio bastante com isso, mas ainda bem que nesta coluna maravilhosa a sexualidade é livre e celebrada. E já que dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, pra quem busca esse estímulo contado também através de pinturas e desenhos, vou deixar aqui minhas recomendações de perfis que você deve seguir se quiser uma dose extra de erotismo no seu cotidiano que não oprime nem objetifica.


@agathesorlet










Construir uma mente erótica no dia-a-dia é primordial para que a gente comece a pensar em prazer, apesar da correria, dos boletos, do que está acontecendo com o nosso país. Sabe aquela história de que só a arte salva? Na sexualidade não é muito diferente! Por mais mulheres escritoras, pintoras, escultoras, roteiristas, filmmakers, diretoras etc., que possam contar sobre os múltiplos tipos de desejos, trocas, formas de sentir e viver o tesão que pulsa em cada uma de nós. Um ótimo Masturbation Month pra todas vocês.

Com amor,
Claris Leal.

Clariana Leal é educadora sexual e carrega como propósito a abertura honesta e inclusiva do diálogo sobre sexo, desejo e corpo. Ela é também sócia da primeira sex shop brasileira 100% focada no prazer feminino. Na sua coluna Prazer sem dúvidas, vai responder mensalmente as dúvidas do público da ELLE pelo Instagram e também aqui no site.

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