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Jamais me cansarei de ter orgulho (e de me gabar também!) da altíssima qualidade dos artistas brasileiros, especialmente da música, que é a arte que continua sendo mais acessível. Temos um verdadeiro olimpo de grandes deuses das mais variadas vertentes musicais. Costumo brincar que, quando o assunto é a música brasileira, até o que é ruim é bom. E o mundo sabe disso. Tanto que somos referência internacional, e não apenas pela bossa-nova ou pelo samba, como a mídia hegemônica costuma enfatizar. Que o diga o Sepultura, uma das maiores bandas de trash metal do mundo. Ou o falecido Naná Vasconcelos, nosso cientista musical, que atravessou todas as fronteiras geográficas.

Mas, infelizmente, a nossa música comporta tantas grandezas quanto injustiças históricas. Evidente que essas injustiças são produto de um povo que tem muitas dificuldades para enxergar por conta própria os valores artísticos únicos que temos em todas as áreas. Sem o “selo gringo de reconhecimento internacional”, nosso vira-latismo não consegue ver normalidade em um Pharell ou Kayne West curtindo o Clube da Esquina em um desfile do alto escalão da moda internacional. Ficamos em um misto de surpresa com satisfação, que denuncia nossa falta de autoconfiança em se colocar no mercado com a autoridade que merecemos e que temos diante do mundo. Parece que é sempre preciso gritar, sob deboches silenciosos, verdades como: “Djonga é tão bom quanto Kendrick Lamar”. Ou ainda: “Tasha e Tracie não ficam atrás de nenhuma Doja Cat”.

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E quando a questão racial entra em cena… Daí, como diria o falecido funkeiro Kevin: "Exquece…” A coisa tende a piorar.

E a gente fica com uma Alaíde Costa soterrada nos escombros da nossa preguiça intelectual generalizada, que nos deixa reclamar do apagamento sistêmico, mas não nos motiva a sair da indignação e buscar com as próprias mãos as estrelas varridas para baixo do tapete branco da história.

Mas, ao que parece, há uma espécie de “lei do retorno” artístico, que dá suas voltas e nos coloca diante do óbvio. Isso aconteceu recentemente quando Alaíde Costa apareceu brevemente no documentário sobre a vida da doce gigante Nara Leão, que merece todas as honrarias possíveis e imagináveis.

Mas a pergunta que não cala é: por que Nara nunca saiu dos holofotes, mesmo depois de falecida, mas Alaíde Costa, uma das maiores vozes da nossa história, jamais teve o reconhecimento e status de estrela maior que é e sempre foi?

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Nas minhas primeiras colunas aqui para a ELLE Brasil, eu falei sobre o apagamento de Johnny Alf, que não por acaso foi grande amigo de Alaíde. Ambos pessoas negras de extraordinário talento, escanteados pela turma branca da bossa-nova, mesmo com os mais proeminentes nomes sempre falando sobre a grandeza desses dois. Então, podemos presumir que o apagamento de que tanto reclamamos se consolida porque nós, povo, reles mortais, que juntos temos mais força do que acreditamos, de algum modo deixamos acontecer e aceitamos apáticos nosso apagamento histórico.

É preciso buscar, falar, ouvir, ver, reverenciar incansavelmente essas pessoas que oferecem tanto a todos nós, ainda que muitos não se lembrem. Eu, por exemplo, tenho tanto Alaíde Costa quanto Johnny Alf na minha construção de memória musical afetiva porque minha avó materna amava, ouvia e fazia questão de me dizer que ambos eram “patrícios” (maneira respeitosa com que negros falavam sobre outros negros antigamente, para reafirmar o pertencimento à negritude).

Minha avó cantava Alaíde Costa, cantava Alcione, cantava Angela Maria e Elza Soares, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e sempre enfatizava as que eram negras e as que “não eram brancas, mas se passavam”.

Tenho tanto Alaíde Costa quanto Johnny Alf na minha construção de memória musical afetiva porque minha avó materna amava, ouvia e fazia questão de me dizer que ambos eram “patrícios”.

Felizmente, hoje, temos condições de fazer resgates preciosos de gente que sumiu do mapa musical, mas ainda enriquece o mundo com suas presenças (quase) ancestrais. É o que tem feito José Miguel Wisnik, levando ao público um show intimista onde a joia rara da música brasileira, Alaíde Costa, interpreta as suas impecáveis composições (algumas feitas especialmente para ela cantar). E é o que o doutor honoris causa Emicida, em parceria com o produtor musical e jornalista Marcus Preto, também tem feito. Nesse caso, a dupla nos entrega, como resultado do seu respeito à música, à história e à doce presença de Alaíde, um dos maiores lançamentos da década, o emblemático até no nome O que meus calos dizem sobre mim, da gravadora Samba Rock Discos, lançado em maio deste ano. Não, Alaíde não esteve parada esse tempo todo. Pelo contrário, sempre esteve dispondo do seu talento para nossa sociedade ingrata, que insiste em ignorar talentos negros. Daí, entra uma questão importante: a responsabilidade de Emicida, que usa sua visibilidade para jogar luz em quem o sistema tenta manter no escuro. Isso é precioso e surte efeitos fundamentais.

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Para quem bota a maior fé na força dos encontros geracionais, esse álbum é um presente. Ele é atual e nostálgico ao mesmo tempo. Renova o frescor e a força de Alaíde Costa, sem extrair a marca registrada de sua personalidade, dentro e fora do universo musical: a doçura na forma como interpreta as canções, por vezes bem dolorosas, porque contam de seus calos.

Alaíde fala, se comporta e canta como uma autêntica realeza, imprimindo uma elegância única, que sempre fez e continua fazendo toda a diferença no panteão das deidades da música brasileira. Não é por acaso que ela é a única voz feminina a marcar presença no místico e mítico álbum do Clube da Esquina, em um dueto transcendental com o sumo sacerdote Milton Nascimento em “Me deixa em paz”. Ela é única.

Nesse novo álbum, rápido como a escrita de uma assinatura pessoal, ela abre com a aveludada "Turmalina negra". Uma bossa “pop” que faz apelos por um mundo melhor e foi composta por uma dupla que sempre entrega coisas bonitas, Céu e Diogo Poças. Em “Berceuse”, a gente escuta a força de Alaíde muito bem colocada na interpretação de uma composição linda, que só podia ter sido escrita pelo incrível hitmaker Guilherme Arantes, uma canção de ninar que derrete todas as nossas durezas cotidianas. Aliás, é preciso destacar o altíssimo time de compositores, que, mesmo que quisessem, não conseguiriam esconder que são fãs de Alaíde, já que compuseram músicas no timing correto da versatilidade que também é marca registrada da cantora. Tem nomes mais que especiais, como Fátima Guedes, Erasmo Carlos com Tim Bernardes, João Bosco com seu filho Francisco Bosco, Emicida com Joyce e Ivan Lins (marcando outros encontros geracionais brilhantes), Nando Reis destacando outro talento de Alaíde, o de compositora! E ainda tem Pupillo na impecável direção musical. É um trabalho histórico, perfeito como um bordado tecido de afetos e calor humano.

Não tem erro, esse álbum. É uma celebração de imensurável valor a tudo de mais sincero e bonito que nossa música pode produzir e uma coroação emocionante da estrela maior que Alaíde Costa é, sempre foi e continuará sendo. O que os calos de Alaíde dizem sobre ela? Dizem que ela é imensa e que nós devemos nos dar o direito de ouvi-la. Viva!

Joice Berth é arquiteta, urbanista, escritora, feminista e apaixonada por uma boa série. É autora do livro O que é empoderamento, da coleção Femininos Plurais.

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