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O Verão das Malas Perdidas

Viajantes em busca de férias da pandemia se deparam com o caos de ter suas bagagens extraviadas; a desoladora cena das malas espalhadas no aeroporto serve de gatilho para Erika Palomino, numa crônica de viagem pra lá de pessoal.

Ilustração: Mariana Baptista
O Verão das Malas Perdidas
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Aqui no Brasil já tivemos o Verão da Lata, inesquecível para muitas pessoas, quando toneladas de maconha apareceram no litoral paulista e fluminense, na virada de 1987 para 88. Já houve também, como se sabe, o Verão do Amor, nos anos 1960, marco do movimento hippie e da então contracultura, que desembocou nas manifestações de 1968 no mundo. Já houve até o Segundo Verão do Amor, em 1988, quando o ecstasy atingiu em cheio as pistas de dança inglesas, tendo o hedonismo como rito de passagem, fenômeno embalado pelas batidas da acid house. Pois este ano, o Verão 2022 do Hemisfério Norte já vem sendo chamado de O Verão das Malas Perdidas. Nem é o que as florestas da Europa estão em chamas. Ou as do Brasil. Mas O Verão das Malas Perdidas.

Ó, vida.

Talvez você já tenha visto fotos da cena ou, pior (melhor?), terá visto ao vivo imagens de centenas, milhares de malas jogadas pelo chão de algum aeroporto da gringa, um Heathrow qualquer. Esperando por seu dono, aguardando por ser encontrada por sua dona, misto de abandono e revolta, raiva e desencanto. O esporte bretão da vez consiste em escalar essas montanhas de bagagens, conforme se vê no Twitter. No noticiário, chegou também a imagem da Delta Air Lines, que enviou um avião vazio, sem passageiros, para Londres, apenas para buscar cerca de mil malas extraviadas para levá-las de volta aos Estados Unidos. Em português, o rolê vem sendo chamado de uma expressão que a gente costuma conjugar: caos aéreo. E do caos aéreo não escapa celebridade nem classe executiva: Anitta, Marina Sena e Gilberto Gil também tiveram bagagens sumidas nesta temporada, para consolo de nós, demais mortais. Quer dizer, imortal, por enquanto, só Gil que está na Academia Brasileira de Letras. Anitta está em processo de, se conseguir junto com a gente eleger o Lula. Marina Sena é musa.

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Bagagem extraviada é coisa que pouca gente merece (porém, tenho aqui minhas sugestões). A sensação de ver sua bagagem fofita, bonitinha, conhecida, familiar, com todas as suas coisas dentro, saindo lá de trás daquela cortina de borracha feia, aquele treco barulhento e impessoal, para desfilar diante de todos na esteira até chegar a seus braços, minhas amigues e meus amigos, é indescritível.

Nem é coisa de priviliegiades que dão rolês por aeroportos internacionais. Basta uma conexãozinha aqui mesmo, em aeroportos temsos como os de Brasília, por exemplo, hub para todo o país, que o sapo se instala no estômago. Fui visitar Pedro recentemente no Ceará, e orei com sinceridade para Nossa Senhora do Make Up que a escala longa em GRU não impedisse que minhas roupas próprias para aquele calor (bem específico, ou seja: biquínis) e os presentes que eu levava com tanto carinho para a Ana <3 chegassem ao destino. Junto comigo, de preferência.

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Porque tem essa modalidade, né? Tem a bagagem que chega depois, tem a bagagem que demora a chegar, tem a bagagem que não chega nunca. Ordens diferentes de transtorno. Transtorno que já começa ali mesmo, instalando o temor de que toda a sua viagem siga a mesma toada. Com a barriga encostada no balcão da companhia aérea, começa a via crucis. Descrever a mala consiste em avançado exercício literário. Passei a fotografar minha bagagem, quando ela está ainda incólume, sendo pesada.

Uma vez, na Índia, chegando de um vôo no meio da madrugada, era tarde, estava cansada, peguei por engano uma mala de um alemão clone da minha amada Rimowa preta. E só fui descobrir no dia seguinte. Naturalmente, tive que levar a bagagem dele até o aeroporto de volta, entrando nos bastidores do aeroporto de Mumbai para encontrar a minha, experiência surreal. And cara. And que fez a gente perder um tempão da viagem de pesquisa em curso.

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De outra vez, a malinha com roupas e todos os tarja preta nervosos que eu tomava na época não desembarcaram como eu, na Costa Rica. Pipocando pela estrada, de carro, a mala estava sempre uma cidade depois da gente, até que, no último destino, nos reencontramos.

Chega de causos de viagem, ou essa coluna vai ficar parecendo as do Zeca Camargo, e ele escreve disso muito melhor que eu!

Vamos voltar para o assunto com a memorável abertura de Prêt-à-porter, em que Julia Roberts chega para a temporada sem nenhum modelo. Pânico para fashionistas, blogayras e influencers. Ref antyga! Vamos voltar para o assunto então com o post recente da querida Carol Trentini, que deu show ao mostrar no reels como viaja para a temporada de desfiles de dez dias com apenas uma bagagem de mão. Chic-issima.

Nada, nada, nada é mais chique do que gente que viaja leve. Pack light. Uma arte. Outra querida, Gloria Kalil, sempre ensinou, desde os tempos do Chic. Nunca aprendi. Quer dizer, estou aprendendo, melhorando, como na vida, espero.

Já carreguei muito peso nessa vida, seja na ida, achando que ia precisar de mais roupas e variações de looks do que eu realmente precisava (coisa cafona) ou trazendo quilos de livros e revistas, que no final custaram muito mais caro pelo excesso de peso que pagava, do que pelo preço deles em si. Disso, nunca me arrependi. Livro e revista em viagem valem muito. Daí a tristeza quando você retorna para casa e essas coisas que comprou com esforço e afeto desaparecem da sua vida. Como aconteceu com Cassio Prates e Eve Barboza. Você até pode processar a companhia aérea, como fez a Rose Elias. Mas não traz suas compras de volta.

Ó, vida.

A gente no Brasil gosta de muita mala, né? Terror e pânico quando as companhias passaram a cobrar pela bagagem. E daí é aquele tal de sacola pra tudo. A gente no Brasil também ama bagagem de mão, mochila, pacote de duty free e bolsa de loja, daquelas que nem fecham. Uma sacolagem nos maleiros, aquele furdunço na hora de entrar no avião. E de sair também.

Mas a gente não gosta de pagar pelo excesso de peso. Já viu? Tem sempre a ideia de querer dar o famoso jeitinho. Costanza Pascolato, na época que eu chorava de ter que pagar excesso de peso voltando com os livros, me ensinou: comprou, está carregando, tem que pagar. Essa lição aprendi. Isso sim é ser chique até o final da viagem. Agora que você pode comprar pelo volume online, mais fácil e menos dramático. Não precisa mais daquele personagem de que a "elite brasileira" sempre cultivou, a do despachante da companhia aérea (!!!).

Oh, few, oh happy few, we band of brothers. Com os preços das passagens, tenho mesmo é feito a ponte aérea Novo Rio-Tietê. Sem dramas também. Levo uma única peça de bagagem, que coloco eu mesma na mão do moço no bagageiro ou no maleiro do ônibus. No desembarque, sei que ela está lá, e não passo nervoso algum. Nem com o peso, nem de achar que meus remédios e roupas não vão estar ali. Chegaremos, juntos, à terra prometida.

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