Colunistas

Por que precisamos falar sobre Marc Jacobs

Há quem diga que o estilista está fora de moda. Eu prefiro acreditar que ele está à frente do nosso tempo – e não pára de dançar.

Ilustração Gustavo Balducci
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Há uns seis meses meu sono não tem hora. Na última semana, ele teimou em acabar logo antes do sol aparecer – e eu odeio ver o sol aparecer. Além disso, é um horário bem ingrato: muito cedo para levantar e tarde demais para reforçar a dose do remédio. Na impossibilidade de dormir, comecei a ler as notícias do dia ainda de noite. Uma delas era essa matéria da T Magazine, do The New York Times, sobre o baque que a moda levou com a pandemia do novo coronavírus. O assunto já foi pauta de ELLE e super vale a leitura. Mas não é bem sobre isso o tema desta coluna. É sobre Marc Jacobs.

Na reportagem, o estilista é retratado como símbolo de uma era e geração sem cabimento hoje. Eu mesmo já compartilhei dessa ideia. Me incomodava algumas das coleções (principalmente a partir do inverno 2018) carregadas de homenagens, releituras e memórias de outros ícones e tempos.

Acontece que tempo é uma coisa complicada. Leva tempo pra gente entender o tempo. Muitas vezes, só o entendemos de verdade quando já não é mais tempo. Por isso, é importante falar sobre Marc.

Os últimos anos não foram fáceis para o estilista – pelo menos em termos de negócios. Com vendas em queda, das 250 lojas espalhadas pelo mundo, em 2013, restam apenas quatro. Não foram poucas as entrevistas com executivos da LVMH (grupo do qual a label faz parte) sobre o descontentamento com os resultados da marca e sobre seu futuro incerto. Rolou até uma matéria no NYT, em 2018, dizendo que o estilista estava fora de moda.

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Ela não deitou. Bem pelo contrário. Hoje, Marc raramente aparece sem uma plataforma e um colar de pérolas. Quem ri do look é porque nunca subiu num salto ou saiu por aí com um bom colarzinho. Mas deixa isso pra lá... De volta às coleções: elas também tomaram outro rumo.

Marc é fã declarado de Miuccia Prada. Assim como a italiana, suas ideias mudavam completamente de uma temporada para outra. Numa estação, eram looks claros de silhueta fluida à la anos 1920 (verão 2007); na outra, todo um rigor de alfaiataria e cores sóbrias (inverno 2007). Uma hora, vinha um monte de looks transparentes e plastificados (verão 2021), depois, sobreposições mil de peças com ares vintage (inverno 2012). Tudo muito bem alinhado aos contextos (aka tendências) daqueles momentos.

E memória tem disso também, né? São elas que mantém as coisas vivas. Nós mesmos inclusive.

De umas cinco ou seis coleções para cá, porém, a abordagem mudou. A conexão com o tempo presente também ficou menos evidente ou pelo menos em segundo plano. Era como se ela não importasse tanto quanto as memórias, emoções e paixões históricas (Marc sempre amou história) vividas e recordadas pelo estilista.

Não sei vocês, mas eu passo boa parte dos meus dias lembrando do carnaval, da risada do meu amigo, da música que tocou na festa bem quando ia chamar um táxi, da conversa sem fim na mesa do bar e das incontáveis bebedeiras e decisões erradas (mas acertadíssimas) com aquela outra amiga. Pode parecer nostalgia, mas não é. Nostalgia é a lembrança de algo findado, daquilo que não volta mais. É diferente de saudade. Tudo isso há de voltar um dia. E memória tem disso também, né? São elas que mantém as coisas vivas. Nós mesmos inclusive.

E memória é diferente de registro. Quem registra é a máquina. A gente lembra. Do nosso jeitinho, com sentimentos. Marc tava lembrando de um tanto de coisas para dizer que não estava contente. A diferença é que ele não precisou de uma pandemia para perceber que o barco estava afundando.

Há alguns meses, o estilista participou de uma live, na qual comentou nosso momentinho digital. A Covid-19 acelerou e potencializou tudo isso, mas a base já estava construída há anos. Não é de agora que algoritmos ditam o que devemos assistir, ouvir, ler e vestir. As tecnologias foram apenas aprimoradas e contextos sociais ficaram mais permissivos. Houve avanços positivos, claro. Acabamos de publicar toda uma edição sobre o assunto (corre aqui para assinar). Porém, há quem acredite que estamos indo rápido demais. Marc, por exemplo.

O problema dessa rapidez não é a velocidade em si, é a falta de breque (pode chamar de intervalo se quiser). Não há tempo para entender, processar, pensar em nada. E, assim, não há luto. E luto é importante. Chato e doloroso muitas vezes, porém necessário. É como assimilamos nossas transformações, superamos pontos problemáticos e falhas. É importante marcar o fim das coisas e, mais ainda, reconhecer o aquilo significa.


A matéria da T Magazine justifica Marc como um símbolo do passado com suas próprias falas: "não faz sentido criar nada agora, sem saber como vamos viver daqui para frente"; "é muito difícil estar presente quando o futuro é tão incerto"; "não é humano pensar roboticamente no futuro". Segundo a reportagem, moda hoje é 100% dependente de análises numéricas, dados e tecnologia. E quem não acompanha ou endossa o novo modus operandi, tem mais é que viver recluso num hotel com um colar de pérolas.

Números e dados são importantes, mas não exclusivamente importantes. Qualidade humana é inerente à moda. Em suas últimas coleções, Marc fez disso sua tese central. Eliminou cenários, usou apenas luz, música, modelos e dançarinos para evocar todo um turbilhão de sentimentos e interpretações. Sem precisar de muito, ele nos mostrou o poder da imaginação e da roupa como símbolo de construção narrativa.

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Seu desfile mais recente, de inverno 2020, é todo sobre imagens (ou lembrança delas) que compõem o imaginário estético de Nova York: a patricinha do Upper East Side, a fashionista do Downtown, as senhoras e ladies who lunch, a indie do Lower East Side, a clubber do Brooklyn, as bichas e travestis do Meatpacking District e do Chelsea e por aí vai.

A sala de desfile era composta apenas por mesinhas e cadeiras, como um café. A iluminação pontual e precisa revela, de repente, uma bailarina que se contorce toda e logo segue em passos firmes. Era a coreógrafa Karole Armitage, contatada horas antes da apresentação para conceber e dirigir aquela performance. Uma combinação de catwalk com dança ante e entre os convidados tão caótica quanto rigorosa, eufórica e melancólica ao mesmo tempo. Bem como a gente se sente quando ouvimos aquela música que nos fazia rodopiar na pista.

Não tinha projeção 3D, não tinha avatar virtual, não tinha cenário mirabolante nem nenhum pirotecnia. Tinha só gente, roupa, nossa imaginação e algumas memórias. O efeito e potência emocional disso tudo, tecnologia nenhuma consegue reproduzir. E aí, eu te pergunto o que você quer: vestir uma roupa e sair dançando por aí ou só "vestir" seu corpo fotografado? Pode escolher os dois, não tem problema. Só não pode mentir sobre o que te faz mais feliz ou o que mais te emociona.

Tempo é um negócio estranho, né? Falei disso lá em cima. Pois bem… Talvez Marc estivesse à frente do nosso tempo, já sentindo que nossas boas memórias seriam o que nos faria esperar tanto por dias melhores. Porque como ele mesmo disse: "nunca vamos parar de sonhar e vamos sempre dançar".


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