Ilustração: Marcela Scheid
PUBLICIDADE

Ai,

Que vontade imensa de sair correndo, de abrir a porta e dizer simplesmente eu tô indo. Cheguei. Como eu quero dar oi, um abraço. É quase dezembro, já era pra estar tudo mais pra sim do que pra não, era pra tudo alargar, era pra ter mais rua e menos tranca. E pra muita gente teve sem ter, teve sem olhar pro lado, sem pensar no outro. Teve de um jeito que precisa ser muito egoísta pra não ver que não podia ter, que foi de mentira essa saída prematura.
A rua não é só o nome e o mesmo asfalto, a mesma calçada. A rua são as pessoas e suas verdades, a rua é o vínculo entre as presenças, as ausências e o movimento. Encontro de quem não deveria ter saído com quem nunca pôde entrar.
Há quanto tempo a desigualdade é regra entre nós?
Se tivesse sido sempre isso, se fosse mesmo essa a natureza das coisas será que perceberíamos tudo tão forte? Se é assim que as coisas são por que tudo destoa tão alto, por que as coisas doem de um jeito terrível, por que a ordem não convence?
Talvez na realidade tenha sido sempre assim, ao menos a partir de um certo momento. Mas que não tenha sido assim mesmo que em um só lugar, mesmo que por um espaço de tempo que não seja mais do que um instante, isso já basta. Já basta pra abrir um furo indesfurável, pra revelar algo impossível de desver, basta pra que muitos entre nós se recusem a aceitar qualquer tipo de encaixe definitivo desse arranjo.
Neste ano, mês após mês dentro da nossa casa, li pra minha filha trechos de Alice no País das Maravilhas. Quanto tempo é pra sempre, pergunta Alice. Às vezes, apenas um segundo, responde o Coelho que, irônica ou tragicamente, está sempre atrasado. Um segundo que dura pra sempre não dá conta de tudo, mas pode mudar uma história ou eternamente lembrar o que deseja dizer.
Repetir com a paciência da morte, que não tem pressa nem se atrasa, daí o truque do Coelho. Não para enganar a morte, mas para escrever sua presença, por uma espécie de oposição, no caminho da vida. O Coelho, porém, é submisso à Rainha de Copas, a tirana que decide quem deve viver ou morrer conforme o humor do dia. E ela adora matar.
A morte, inevitável, irrepresentável, por que corremos atrás dela nas ruas fingindo que não ouvimos a dica do Coelho? Sim, ele é submisso, mas com seu atraso, com sua indiscrição, com sua mínima inadequação é ele quem chama o olhar de Alice, uma criança capaz do espanto diante da ordem das coisas de um mundo dominado.
Por que nos arriscamos pra entregar os outros, os que julgamos piores, mais fracos, os que contribuímos para que sejam coletivamente mais vulneráveis? Pra quem sacrificamos pessoas como se suas mortes nos fizessem viver eternamente, a que rei ou rainha? Por que fingimos que tudo foi sempre e será sempre assim quando cada primeiro espanto, cada arrepio de inconformismo nos diz o contrário?
Alice nos fala do espanto, essa força imensa que a infância pode potencializar como apenas ela pode, mas também do que se pode fazer dele. Ela acha normal que o Coelho fale, o que mais tarde acha engraçado. O espanto se manifesta não quando ela se interessa pelo relógio que ele tira do bolso do colete, mas quando se joga no buraco sem medo de investigar o mistério.
Não conformar-se, ser grande, pequena, média, não ignorar as circunstâncias, mas antes buscar um movimento que não seja o de sempre se adequar buscando a definitiva paz, mas antes ser movido pelo incômodo, antes nada aceitar como peça que nos complete, antes ter coragem de viver e dizer a vida.
O Chapeleiro de Alice está preso no chá das seis. Acusado pela Rainha de Copas pelo interessante crime de "assassinar o tempo" enquanto canta pra ela, ele é sentenciado à morte. Vai ver não cantou como ela queria, talvez não houvesse como acertar desde o princípio. Ele não é decapitado, mas fica congelado pelo Tempo numa eterna cerimônia do chá. As xícaras estão sujas, a mesa, uma zona, tudo é frenético. Sua única chance de sanidade diante da repetição mortífera é ficar louco, celebrar a sequência de desaniversários denunciando o absurdo de sua prisão circular.
Ele originalmente não se chama Chapeleiro Maluco ou Mad Hatter, é apenas Chapeleiro. É o Gato que, ao falar sobre ele, diz que se trata de alguém doido.
Mas aonde eu quero chegar com essa confusão toda? Não sei, calma. "Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço – disse o Chapeleiro – não falaria em gastá-lo como se ele fosse uma coisa. Ele é alguém."
E se o tempo for alguém com quem conversamos, como ele diz? E se com ele fazemos acordos, e se dele alcançamos pedidos, se com ele dançamos e dormimos abraçados, esperançosos que nos conte em nossos sonhos o que ainda não pudemos saber de nós mesmos?
Se o Tempo prende o Chapeleiro, se briga com ele, não é decerto porque tenha sido assassinado nos termos da Rainha, sempre tirânicos. Matar tempo, matar hora é uma expressão do mundo patrão. O Tempo talvez tenha parado na esperança que se desfaçam esses termos, que se revogue a obrigação do chá cordial, que as cerimônias mortíferas sejam interrompidas. O Chapeleiro diz do absurdo da situação ficando louco, mas lhe falta o passo fora e lhe falta um olhar que reconheça o que se passa. Talvez Alice possa ajudar.
Mas dizem que tudo ali é um sonho da própria Alice, que pertencem ao seu universo interno, à sua subjetividade, tanto Coelho quanto Chapeleiro, Gato e Rainha. Talvez todos eles sejam ecos do mundo, talvez Alice esteja tentando lidar com a tragédia de uma realidade de trabalhadores exauridos, ridículos tiranos e crianças que para crescer precisam aprender a lidar com tudo isso como algo corriqueiro.
Talvez Alice esteja crescendo e quando as cartas do baralho real caem sobre ela no sonho, ela acorda. Sua irmã a observa narrar sua aventura. Ela mesma tem um breve sonho, e o livro termina com uma reflexão sobre crescer. Alice talvez queira e não queira crescer, não pra continuar pequena, mas para não perder uma certa capacidade de se espantar não só diante da beleza e do imprevisível do mundo mas também diante da dor do outro.
É dezembro e eu queria sair por aí escancarando portas mas lendo Alice para a minha filha me lembrei do espanto.
O número espantoso de mortes que carrega esse ano, o número espantoso de gente sem máscara nas ruas e fingindo, o número espantoso escondido em nome das eleições, o número espantoso de vidas levadas pela incompetência de um governo covarde e inútil. Me espanto, mas como adulta, o que não dá no mesmo.
Mas também há o espanto diante da possibilidade de amar e mudar as coisas. Isso faz a gente se jogar.
Penso em beijo, abraço, voto, solidariedade.
O amor talvez seja o motor do espanto.

PUBLICIDADE

Um beijo, V.

Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.



Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE