Quando a chuva significava limpeza

Acordei sentindo saudades da euforia que os trovões me despertavam. Quando eu não sabia que tantas coisas terríveis podiam acontecer durante uma tempestade.


ilustração de casa na chuva sendo submersa na água
Ilustração: Mariana Baptista



No sertão do Ceará, quando eu era criança, chuva significava festa. Eu não compreendia muito bem a importância da chuva para além da magia que ela trazia consigo, mas assim que as primeiras gotas começavam a cair, eu e todas as crianças da rua nos juntávamos para brincar fora de casa, escorregar no barro vermelho molhado e tomar banho até que as nuvens se espalhassem, mostrando o sol familiar que fingia se esconder.

Por muitos anos, mesmo enquanto eu crescia e tomar banho de chuva já não tinha o mesmo apelo, a água batendo forte contra o vidro da janela e o cheiro de terra molhada me traziam o sentimento de conforto, de que aquilo era algo bom. Antes mesmo do céu começar a cair, o dia já estava “bonito pra chover”. Ainda que trouxesse algumas inconveniências, especialmente para quem andava de moto como eu, a sensação era de que o toró era um presente. Quanto mais forte, quanto mais desse para ouvir as pancadas contra as telhas da casa, mais gostoso. Era refrescante, era aconchego e era limpeza.

São Paulo sempre foi, para mim, a representação da liberdade. Vir morar aqui foi um sonho realizado e muitas das mudanças foram abraçadas por mim com avidez. Era exatamente o que eu queria. Tudo me parecia perfeito – exceto a chuva. 

Um dia acordei e percebi que a chuva já não era tudo aquilo, toda aquela poesia. Claro, algo muito forte dentro de mim ainda sentia o céu caindo como um presente, mas só se eu pudesse ficar em casa. Algo dentro de mim ainda dizia “a chuva é minha coisa favorita no mundo”, mas só se eu me mantivesse afastada das notícias. Aos poucos, fui entendendo que meus sentimentos eram conflituosos e que, na verdade, a realidade me custava muito mais palavras para que fosse transformada em poesia.

Na última quinta, antes do carnaval, encontrei amigos do Cariri para jantar. Eles vinham aproveitar os blocos e festas e nossa noite estava agradável, até que começou a chover. E diferente das vezes em que eu interpretava isso como festa, ou como conforto, eu pensei no transtorno que a chuva representava.

Não conseguimos voltar para casa por bastante tempo, as águas transbordavam do esgoto e formavam correntezas que, diferente da minha infância, eu não queria enfrentar com as pernas. Os sapatos ficaram ensopados, o para-brisa do táxi quase não permitia qualquer visão da rua e dos outros veículos, tudo gritava tensão, incômodo, receio, quem sabe até uma doencinha, mas a gente sempre confia que não vai chegar a tanto.

A exemplo das recentes tragédias em São Sebastião, o simbolismo da chuva como algo que nutre o solo também ficou esquecido. Se clico nas notícias, se vejo a timeline do Twitter, só encontro desgraças. A chuva, que já me pareceu tão amiga, tão pura, mesmo no auge dos seus relâmpagos e raios, arrastou também a comodidade da minha ignorância. Crescendo, vivendo em outro lugar, com outro clima e outros relevos, eu finalmente conheci a complexidade da natureza, que apenas existe e, também por motivos políticos, para a qual poucas vezes estamos preparados. 

Hoje acordei pensando na chuva. Sentindo saudade da euforia que os trovões me despertavam. Acordei lembrando da Jarid pequena que abria a boca e colocava a língua para fora esperando beber a água que vinha das nuvens. Quando era simples, bonito, desejado. Quando eu confiava na limpeza da chuva. Quando eu não sabia que tantas coisas terríveis podiam acontecer durante uma tempestade. Quando eu não sabia o papel do ser humano no meio de tudo isso.

Há alguns dias vi alguém brincar que, depois de ter assistido ao filme Parasita, ficou com medo de dizer publicamente que ama quando chove. Eu ri, porque comigo é mais ou menos a mesma coisa. Eu ainda preservo dentro de mim o fascínio pelos dias chuvosos, mas a vida na maior cidade do Brasil, os tênis ensopados, os acidentes de trânsito e, acima de tudo, a realidade social que acordou dentro dos meus olhos não me permitem experimentar a ingenuidade da infância.

Saiba como ajudar a população de São Sebastião: https://www.fundosocial.sp.gov.br/

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