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Colunistas

Que crítica te destruiu?

De repente, algum familiar diz que você precisa emagrecer. Outra pessoa desaprova seu estilo de vida. Existe crítica construtiva ou sua própria natureza é extinguir aquilo que é considerado um erro?

Ilustração: Mariana Baptista
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Dia desses vi uma crítica terrível contra o trabalho literário de um colega escritor. Publicada num dos maiores veículos de mídia que temos no Brasil, a crítica literária destruía o trabalho do autor; do começo ao fim, pancada atrás de pancada. O livro, aos olhos do crítico, era absolutamente imprestável.

Tive acesso a essa publicação por meio das redes sociais do próprio autor, que compartilhou o texto e obteve a defesa de muitos leitores que discordaram categoricamente do conteúdo. Muita gente disse que, na verdade, ler algo tão agressivo como aquilo fez despertar a curiosidade e a vontade de ler o livro. E eu, que me coloquei no lugar do escritor, fiquei refletindo sobre qual seria minha reação e como me atingiria um conteúdo como aquele. Eu compartilharia? Me faria de morta? Entraria com tudo para rebater os absurdos que foram ditos? Eu só me enrolaria num lençol e passaria uma semana de cama?

Como lidar com críticas que te acertam no meio do cara?

De repente, algum familiar diz que você come demais e engordou, precisa emagrecer. Outra pessoa desaprova as escolhas que você faz ou seu estilo de vida. Das coisas mais bobas até as que mais machucam, sempre tem quem atire críticas contra você. Parece que a intenção é te desmontar. Nessas horas, parece que a condição humana de quem sofre as críticas é esquecida e, em suas feições, só se enxerga aquilo que é desaprovado.

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Mas toda crítica é cruel? Quando é construtiva? Existe crítica construtiva ou sua própria natureza é extinguir aquilo que é considerado um erro?

Não sei se essas questões são simples ou totalmente descabidas. É lógico que existem críticas que te ajudam a ser melhor, alguns argumentam. Então é papel do criticado aguentar, dar significado positivo e mudar.

Trabalho com dezenas de mulheres escritoras que sentem um verdadeiro pavor de expor e publicar o que escrevem porque sentem medo do que uma crítica pode causar. Assim como as incontáveis vezes que a sua mãe te chamou de gorda, obviamente de forma pejorativa, cada palavra é somada a uma bagagem de traumas, receios, reações quase automáticas diante de algo parecido. Por mais que o discurso se volte para o lado positivo, por mais que insistam que você pode ser mais forte, ou usar a situação como gás para seu trabalho, até mesmo não se importar ou acatar aquilo que estão apontando, a verdade é que, para muita gente, uma crítica pode ser a rasteira final.

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Não quero chegar aqui ao lugar do “se afaste dessas pessoas que te criticam para derrubar tudo que você construiu ou é”, porque nem sempre isso é possível. Nem sempre você tem coragem, ou forças, para colocar um ponto final nessa relação. Nem sempre isso pode ser impedido. Como no caso do meu colega escritor. Uma vez publicado para que o mundo leia, o livro está sujeito aos outros. O que eu sei é que se esconder e não fazer aquilo que nos provoca paixão é uma consequência injusta e, claro, simplesmente dizer “tente não se importar tanto com isso” é como jogar as palavras para cima. É claro que você vai se importar. Aos que sabem como reagir bem diante de situações como as que citei, peço que compartilhem com todos nós. Nos digam algo mais substancial, algo que vá além do discurso clichê.

Enquanto isso, questiono: qual foi a crítica que te destruiu? Que fez desmoronar a sua vontade de criar? Que te trouxe uma relação abusiva com seu próprio corpo ou sua mente? Você responderia de modo diferente no presente?

Quanto às escritoras que chegam até mim compartilhando seus medos de exposição, vejo pelo menos um ponto crucial que é de grande ajuda: o apoio de outras. Seja conversando a respeito do assunto ou de fato fazendo parte de grupos de mulheres que escrevem e estão trabalhando para que o medo de publicar não seja maior do que seus sonhos literários, ter com quem dividir o peso, ouvir experiências similares, quem sabe escutar que a crítica não é o fim do mundo (embora pareça ser), tudo isso é parte de um processo muito importante de fortalecimento. Sobretudo quando identificamos a raiz da crítica que nos abala. Em muitos casos, aquele comentário que machuca está entranhado com pensamentos ultrapassados, preconceitos e visões reducionistas.

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Qual foi a crítica que te destruiu? Que fez desmoronar a sua vontade de criar? Que te trouxe uma relação abusiva com seu próprio corpo ou sua mente? Você responderia de modo diferente no presente?

No entanto, por mais que a gente consiga reunir dezenas de motivos para resistir, segurar as pontas e não abandonar aquilo que nos é precioso – especialmente nós mesmos – a verdade é que ser criticado, especialmente de maneira agressiva, pode nunca se tornar menos difícil. E mais: assim como o escritor que lança sua obra ao público, não temos como desviar das críticas. Elas vão nos atingir.

O nosso desafio está em perceber que ser criticado não é o mesmo que ser anulado. Não é o mesmo que deixar de existir, de ser importante, de ter sentimentos que merecem consideração. Definitivamente não é o mesmo que aceitar a crítica como um buraco para cair ou um espaço mínimo onde se encolher.

Falando tudo é muito fácil, certo? Mas sempre lembro dessa rede de escritoras que se apoiam e, vendo os resultados, consigo perceber que o terror vai diminuindo e o espaço começa a se abrir para a autenticidade que deseja se libertar.

No fim das contas, a melhor maneira de reagir às críticas é não deixando morrer o que há de mais autêntico em você.

Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 12 de Fevereiro de 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora do premiado "Redemoinho em dia quente", vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional, do APCA de Literatura na Categoria Contos e finalista do Prêmio Jabuti. Jarid também é autora dos livros "Um buraco com meu nome", "As Lendas de Dandara" e "Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis". Atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres e tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel.

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