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Nossa sociedade possui uma característica muito feia de impor agressivamente certos padrões e depois simplesmente chamá-los de "o normal, correto e/ou natural". Aconteceu com a heterossexualidade e é o que eu vejo acontecendo com a monogamia. A ideia de monopolizar os afetos nem é tão antiga e, mesmo assim, já é encarada pela maioria como a única opção disponível. Acreditamos que a monocultura nos atende, que só podemos ter um melhor amigo, que todos possuem uma outra metade (partindo do pressuposto de que somos incompletos), que os pais sempre possuem um filho preferido, e por aí vai. Vivemos em um resumo presumido na falsa sensação de segurança e importância que essas limitações trazem.

Até os que sentem no fundo do coração que existem mais maneiras de amar, às vezes caem na armadilha de temer que o desejo pela liberdade seja visto como uma confusão passageira ou falta de amor. E, antes de iniciar os principais tópicos dessa coluna, preciso dizer: 1) Este texto não tem nenhuma pretensão de converter os leitores à não-monogamia e 2) Relacionamento é consentimento e diálogo, é algo que combinamos conforme nossos termos e limites, logo, é 100% negociável e adaptável à cada realidade individual.

Escrevo aqui não só como uma educadora sexual treinada para repassar informações sobre maneiras saudáveis de se relacionar consigo e com os outros, mas também como uma mulher que não nasceu se encaixando no sistema monogâmico, e que se estranhou por muito tempo até entender que era normal e que havia outras pessoas compartilhando dos mesmos sentimentos. Talvez você seja uma delas. Talvez você já tenha rejeitado completamente a ideia, mas agora resolveu clicar aqui. Talvez o assunto te desperte um leve interesse, mas você ainda não tenha informações o suficiente pra desenvolver qualquer opinião. Enfim, o que importa é que essa escrita foi feita de uma maneira pessoal, mas também conjunta com toda a troca e as dúvidas que recebi de amigos e seguidores nos últimos anos.

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As aberturas

Falar que uma relação é aberta pode significar muitas coisas, isso é o que chamamos de "termo guarda-chuva", pois ele abarca uma gama imensa de formatos e acordos. Vai desde fazer parte de um casal e consentir "dates" paralelos, até uma abertura geral sem hierarquização ou vetos. Na verdade, vai muito além! Porque estamos falando de um espectro e de tudo que acontece entre pólos distintos que seguem em constante expansão. A vontade da abertura pode vir também de diversos fatores, como distância geográfica no relacionamento, diferenças na libido entre um parceiro e outro, vontade de viver essa experiência em conjunto ou pelo simples fato de não estar de acordo com essa imposição e não querer se repreender por se interessar por mais pessoas. Há quem veja como uma decisão política anticolonial e antipatriarcal, assim como há quem apenas esteja experienciando outros jeitos de amar aos poucos, sem querer transformar isso num debate. As possibilidades, motivos e opções são infinitos.

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Natural para quem?

Onde aprendemos que relacionamentos fechados eram o certo? Segundo estudos, no mundo animal, apenas 3% a 10% dos mamíferos tendem a ficar com o mesmo parceiro durante a vida e, ainda assim, isso não significa exclusividade sexual. Para nós, seres racionais, também não há nenhum indício de que seríamos biologicamente monogâmicos, nenhum. A própria história nos mostra como a ideia de matrimônio – imposto por motivos socioeconômicos –, junto com a criação do amor romântico no início do século 20, foram decisivos pra criar essa imagem de monopólio das paixões. Nossas formas de se relacionar são moldadas de acordo com a época, cultura, imposição religiosa e situação política, então, muito do que consideramos "normal" aqui e agora pode não ser visto da mesma forma no futuro ou em outros lugares do mundo. Se estamos falando da escolha consensual entre adultos, é bem importante não julgar ou querer impor suas verdades pessoais. Sentimos e escolhemos viver as experiências de maneira única, então, não temos como ditar o que é certo ou errado pro outro. Cada vez mais, vemos que essa ideia de promiscuidade associada a quem escolhe viver aberturas no amor é puro preconceito. Estamos falando de humanos com trabalhos, famílias e responsabilidades completamente normais.

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Mas e se eu não quiser mais de uma pessoa?

Não se relacione com mais de uma pessoa, apenas isso. A monogamia também é uma escolha que deve ser pensada e acordada entre os envolvidos. Estamos tão acostumados a entrar numa relação e, automaticamente, sem nenhum tipo de penso, achar que ela deve seguir a mesma fórmula "tradicional" de sempre, que acabamos correndo o risco de deixar alguns fatores importantes de lado. Sabe qual a diferença mais vista entre casais não-mono x mono? A frequência do diálogo. É comum vermos a comunicação como topo da prioridade nessas relações, para que não haja nenhum mal-entendido ou desamparo. Essa manutenção é necessária pra qualquer tipo de casal e, assim como normalmente se conversa muito na hora de abrir uma relação, também seria interessante pensar em conjunto sobre a escolha da exclusividade sexual/afetiva, já que ela não é via de regra pra todo mundo.

Até quero na teoria, mas e se eu me sentir "trocada" na prática

Alguns mitos engraçados (outros nem tanto) rondam a vida de quem vive relações não-monogâmicas. Uma delas é a de que existe uma autoconfiança inabalável e que não se sente ciúmes nunca. Calma lá, não somos sobre-humanos nem mais "evoluídos" que ninguém! Mesmo numa abertura, não estamos imunes aos ciúmes e inseguranças. Então, como lidar? Mais uma vez, dialogando. Trazer o sentimento e entender não só o que pode ter engatilhado isso, mas também como esse incômodo pode ser cuidado, é uma das saídas. Como eu disse no começo do texto, existe uma falsa sensação de segurança na monogamia, mas estar num namoro/casamento fechado não impede de maneira alguma que sua parceria se encante ou apaixone por mais alguém. Afinal de contas, quantas pessoas que já traíram ou foram traídas você conhece? Quantas fugiram pra viver um novo amor? Quantas possuem relações paralelas de maneira escondida? Sabemos que é comum e até aceito socialmente que homens mantenham uma segunda família além da "oficial". Então, por que não seria mais tranquilo lidar com a possibilidade de que podemos, sim, nos apaixonar por mais de uma pessoa ao mesmo tempo e tratar isso da maneira honesta e ética possível? Só porque não seria feito "por debaixo dos panos"? Ou porque a mulher nesses casos também poderia viver sua sexualidade com a mesma liberdade que já foi dada ao homem? Monogamia não é um cercado de proteção, nunca foi. Entender como conversar e quais decisões tomar caso a situação aconteça talvez seja um caminho menos doloroso pra todo mundo.

Ego: expectativa x realidade

Somos quase 8 bilhões de seres humanos no mundo. Imaginar que o outro só vai achar a gente interessante parece um pouco irreal. Isso diz menos sobre o que vamos decidir fazer com as atrações paralelas e mais sobre como o ego humano é complexo. A propagação da cultura da insegurança afeta o nosso psicológico de várias maneiras. Principalmente pra nós, mulheres, que crescemos num ambiente competitivo, onde precisamos diariamente buscar a perfeição (atrelada a expectativas raciais/econômicas), caso contrário, somos facilmente "descartadas". A dor de fazer de tudo e ainda sentir que não é o suficiente pode causar inseguranças profundas. Mas, se alivia um pouco, saber que existem outras pessoas bonitas no mundo jamais vai tirar nossa beleza. Saber que o outro pode achar alguém interessante além de nós não diz absolutamente nada sobre nós. Como já trouxe aqui, relação é escolha, uma decisão conjunta diária. Se alguém está com a gente, é porque quer estar (e vice-versa). E se em algum momento o desejo se expandir pra além de nós, não é sobre ser ou não o suficiente, e sim sobre a possibilidade de o mundo ser vasto e do controle amoroso ser uma ilusão.

Como abrir? A chave é o diálogo

Sempre digo que é mais difícil se relacionar com apenas uma pessoa que não sabe dialogar do que com várias que entendem a importância da escuta e da sinceridade. Toda relação precisa ser trabalhada para que seja bem-sucedida, sem exceção. Vivemos num mundo tão distante do consentimento, que somos desencorajados desde cedo a entender e verbalizar com clareza nossas vontades e limites. Quando não há autoconsciência, não há como estabelecer acordos. Se você já está em uma relação fechada e deseja experienciar aberturas, primeiro entenda consigo que tipo de formato faria mais sentido, até onde você gostaria de ir, como você se sente imaginando os cenários dessas novas experiências e, principalmente, como você conseguiria manter o cuidado e a comunicação com quem já ocupa um lugar de afeto na sua vida. É preciso ter tato, sabendo que o outro pode não gostar da ideia e simplesmente não concordar. Nesses casos, jamais force ou use chantagens emocionais. Lembre-se: toda imposição é violenta. Converse sempre com cuidado e, se precisar, converse mais um pouco. Negociar os acordos é um diálogo de dentro pra fora, onde o respeito pela decisão de cada um deve prevalecer. Essa manutenção, apesar de constante, também pode ser leve e aprimorada com o tempo. Abertura não tem nada a ver com "oba-oba", como muitos acham, e sim com responsabilidade afetiva.

Quando não seguir esse caminho

Quando é imposto. Quando não se tem certeza. Quando é para "salvar" a relação (nesses casos apenas fuja). Quando não há limites bem estabelecidos. Quando não existe uma base sólida de confiança e companheirismo. Quando não se deseja.

Quando seguir

Quando houver um interesse genuíno. Independentemente de qual fase da vida você está, se é solteiro ou acompanhado, com filhos ou sem, numa cidade pequena ou na capital, sempre vai ter alguém que já passou por momentos e questionamentos semelhantes. Então, faça sua pesquisa! Procure textos, livros, podcasts, perfis que falam sobre o assunto, quem está disposto a dividir suas vivências, e amplie os horizontes. Existe toda uma comunidade de troca e acolhimento quando se trata de não-monogamia, e ela só cresce.

Leituras obrigatórias

A parte do "obrigatória" é brincadeira, mas se você chegou até aqui e quer aprender ainda mais, recomendo MUITO esses dois livros aqui. O primeiro já é conhecido mundialmente com a bíblia do poliamor, lançado há mais de 20 anos nos EUA, mas que recentemente ganhou uma versão adaptada e traduzida para o português. É o Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas (ou em inglês, The ethical slut: a practical guide to polyamory, open relationships, and other freedoms in sex and love).

A segunda indicação é da escritora e psicanalista Regina Navarro Lins, que há décadas é uma das maiores referências sobre temas da sexualidade humana aqui no Brasil. Poderia indicar toda sua obra, porém, para começar, acredito que o livro mais interessante seja o Novas formas de amar, lançado em 2017.

Por fim

Sendo ou não uma maneira que combina com sua visão de relacionamento, reconhecer que existe todo um universo que vai além do normativo é extremamente enriquecedor. Acredite, essa é apenas a introdução mais resumida que consegui fazer sobre o assunto. Poderia passar horas falando sobre outros mitos, diferenças entre fetiches x não-monogamia, poligamia x poliamor, tipos de arranjos, preconceitos, termos mais comuns etc., mas uma coisa de cada vez. Quem sabe escrevo uma segunda parte destrinchando esses e outros pontos? Aliás, ficou alguma dúvida ou você quer compartilhar alguma reflexão? Se a resposta for sim, basta mandar uma mensagem lá pelo Instagram! Vou amar seguir com essas trocas, porque são exatamente elas que nos movem pra frente. Não há nada mais impulsionador do que conhecer e bancar os próprios desejos!

Clariana Leal é educadora sexual e carrega como propósito a abertura honesta e inclusiva do diálogo sobre sexo, desejo e corpo. Ela é também sócia da primeira sex shop brasileira 100% focada no prazer feminino. Na sua coluna Prazer sem dúvidas, vai responder mensalmente as dúvidas do público da ELLE pelo Instagram e também aqui no site.

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