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Take me to your river
I wanna go

Leon Bridges

Como será uma carta por dentro? Não sei porque nunca fui carta, só sei escrever. Também sei ouvir melhor do que sei falar, embora a vida inteira tenham me dito o contrário, tanto que eu ouvi. Hoje falo de outro jeito também, a gente muda e desmuda, sempre tem quem não goste, quem prefira tudo igualzinho. Não é coisa que se exija de ninguém.

Hoje algumas das minhas amigas leem cartas, não essas antigas nas quais eu tanto insisto sem que ninguém dê mais muita bola, porque o tempo, já dizia o Dylan, é avião e se mexe tão rápido.

Tenho amigas que leem cartas de tarô, me mostram imagens bonitas de arcanos mudos que elas sabem fazer falar. Eu gosto de pensar minhas coisas sobre essas figuras, a ponto de irritar alguns estudiosos, mas não quero ter razão nem autoridade nenhuma nesse campo, de modo que podem me reprovar à vontade.

A carta da Lua parece que não é tão auspiciosa, mas gosto demais dela por identificação. Às vezes estou com os cachorros-lobos uivando pela luz, hipnotizados por miragens no céu, tentando pegar as gotas de fogo que vão caindo.

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Às vezes sou a Lua, que aparece com várias caras diferentes, meio solar, às vezes irritada, concentrada, talvez desgostosa, apenas unimpressed com a altura da gritaria.

Mas gosto mesmo é da lagosta, uma identificação estranha que talvez em outros tempos eu possa comentar na terapia. A lagosta é um mistério até mesmo quando explicada.

Uma dessas amigas me diz que tem tudo a ver uma pessoa que vira psicanalista gostar da lagosta. "Tem relação com o inconsciente, mas pode ser de um jeito ruim", ela diz, parece satisfeita e espera talvez que eu me agrade com essa ideia, vai saber. Eu, que não sei, digo, "interessante, faz sentido". Ela ri porque sabe que esse é meu jeito de encerrar o papo. Estamos as duas cansadas, ninguém liga se concordamos, muito menos nós. Somos amigas.

Quero ficar a sós com o mistério da lagosta, que pode aparecer dentro ou fora da água dependendo das mãos do artista. A lagosta às vezes aparece perto de um caminho comprido. Um dia vi alguém dizendo que a lagosta te puxa pra baixo, não te deixa caminhar. Sinceramente me parece uma afirmação equivocada no contexto, mas também não boto a mão no fogo. Claramente a lagosta quer ir fundo no rolê porque ela tem um ponto, algo a mostrar. Algo que só você pode descobrir com ela, então não adianta ela sair contando. Se você não vai ela continua chamando. Talvez isso seja puxar, mas, enfim, não culpe o mensageiro, ela diz.

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Não sei quem inventou o tarô, mas está ali alguém que entendeu alguma coisa. O que não quer dizer que desde então não se faça todo tipo de besteira com isso.

Às vezes não, às vezes a gente ouve uma história bonita, contada em trinca ou em cruz, vários arranjos. No fim, quem pergunta é que sabe mais responder, mas gostamos, precisamos de ajuda. Mesmo que venha de uma papisa mal-encarada ou coisa assim, de umas patas de lagosta.

O que me faz lembrar de uma coisa que sempre guardei na gaveta de memórias bonitas, um negócio que envolvia escrever uma carta enquanto eu comia lagosta sozinha num restaurante que pra mim tinha uma aura mítica, capturada num livro. Agora me parece um troço horroroso, escrever mastigando, caneta com prato e a lagosta ao molho. Se bem que escrever é um pouco isso, bagunçado, pra mim é assim. Não tem minimalismo certo no processo, isso pra qualquer coisa que valha um minuto de atenção, não precisa ser obra-prima.

Minha atenção anda concentrada, por isso tenho lido mais poemas do que qualquer outra coisa. Só não mostro um agora porque me parece insuportável um poema mais ou menos, como os que acho que escrevi até hoje. Além do mais não me escuto pedindo, querendo, lutando pra dar/não-dar poemas escritos ao mundo. Me dou e entrego o que não tenho em outros lugares, neles me sinto viva e sou capaz de ser um poema numa fração de segundo impublicável.

Se um dia eu publicasse um livro de qualquer coisa ele se chamaria A Lagosta. E não importa sobre o que fosse sei que combinaria.

Escrevo sim minhas coisas, mas mais abro livros dos outros como quem pede, céus, que me saia o poema que eu preciso. Não é sobre gostar porque é formal ou oficialmente bom, é bom para o meu júri das mil e uma questões, lembranças e outras quinquilharias que moram em mim. Como se alguém que eu não conheço me escrevesse em linhas, não inteira nem faltante, mas um pedacinho de nada capaz de quase tudo.

Eles sempre me acham, mas é mais fácil porque eu vivo procurando. Procurar não é garantia de achar, mas já é movimento. A gente precisa se virar, às vezes do avesso. De qualquer forma não me arrependo de ter mastigado a lagosta com a caneta, na época foi o q deu pra fazer depois de ter andado muito tempo sem rumo.

Às vezes eu paro. Como quando parei pra perguntar como é a carta por dentro, essa que eu estou agora enchendo de lagostas e me arriscando a pagar de louca. Vocês podem bem se perguntar também porque o que estiver por dentro dá seu jeito de parecer por fora. Não é que seja idêntico, mas deixa pistas. Pareço maluca e de fato sou, o que é bom e me enche de forças, mas não é a mesma coisa, vai um tempo pra ligar uma frase com a outra porque se trata de gente.

Agora mesmo tive uma dessas coisas que se chamam déjà vu. Freud falou disso, mas eu não vou entrar em detalhes. Tem a ver com reconciliar representações, coisas e palavras. Vai ver é obra da lagosta que eu engoli, posso ir longe nessa história. O Freud também falou em telepatia em termos muito específicos e interessantes, mas vocês sabem como é, poucos têm essa coragem.

Enquanto isso seguimos cercados de imbecis por todos os lados, a cada esquina um charlatão abre um castelo, passa Deus no crédito e no débito, e em nome disso mandam tudo pelos ares. A quarentena oprime menos do que o encolhimento do universo, parece que se fala de tudo e cada vez mais tenho a impressão que se pode mesmo falar de menos coisas. Não me rendo.

Não estou pra comentar tanta notícia, as opiniões me distraem ou confirmam um estado de estupefação pela normalização do horror. Escuto música dia e noite, especialmente quando desligo tudo. Os cachorros ladram de muitos jeitos, tem hora que assusta. Mas não se pode deixar impressionar demais, não irremediavelmente. O perigo de mergulhar sem volta existe, e o mais fácil é culpar um bicho qualquer por isso...

O oráculo do shuffle manda um Leon Bridges dizendo me leve ao seu rio, eu quero ir. Sem dúvida uma canção de amor, penso eu, mas sabe-se lá em que termos.

O rio que a gente se joga por dentro enquanto pensa se vai morrer por ter ido ao supermercado ou coisa assim. O rio de afogar milhões num túnel de trem igual filme do Bruce Willis sem mocinho. O rio de pensar, aaaaah, quando acabar, quando eu puder, ah quando eu botar minhas mãos. Podemos passar um vida nisso. Que é melhor do que matar e morrer por uma espuma de chopp, mas bem pior do que nadar com certa liberdade.

O rio de não sei quando, mas se for agora eu não vou. O rio de agora vai. O rio de me leve ao seu rio, eu quero ir. Será que a gente quer ir pro rio dos outros fazer o quê? Ser margem, ser barco, remador, pescador, peixe, lixo ou rio também. O seu rio é o principal ou o afluente, como é que fica isso daí? Se a água se mistura temos um, dois ou três rios nessa história? Enfim, a complicação.

Deixo a minha cachorrada uivando, não vou olhar a Lua por mais bonita que esteja, mentira, vou sim. Minha amiga tem algo a dizer sobre a minha Lua em Sagitário. Ela nunca é tão ocupada pra essas coisas. De Sagitário eu não entendo nada também, só gosto porque une cavalo e uma coisa meio Cupido. Eu amo as duas partes. Mas juntas imagino que elas causem mesmo. Causar também pode ser bom, mas não bonzinho. Bom como o que vem de Eros, do Amor, esse grande transformador.

Só de pensar já lembrei aqui uma música de sol pra cantar, mas eu que lute até lá. O céu não tá pra brincadeira. O mar não tá pra azulzinho. Mas algo me diz pra persistir agora no rolê da lagosta, pra estar presente na descida e na subida.

Água fria, inverno feio, mas cê sabe, nosso movimento é que dá chance pro Verão. Eu quero é brotar com o Sol nesse jogo. Entra ano sai ano, minha fé é no calor.

Se cuida.

Um beijo, V.

Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.

Ilustração: Marcela Scheid


Sobre o documentário Axé, hits de Carnaval e a necessidade de plantar amor.


Sobre dançar em casa, amigos, música e a festa que pode começar dentro da gente.


Sobre dedicar músicas, amar, mudar as coisas e fazer um programa de rádio por escrito.

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