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Andrea Beltrão passou o começo da pandemia dentro de casa. Só saía para andar com o cachorro. Mas, depois de um tempo, voltou aos estúdios da Rede Globo, onde está há quatro décadas, para gravar a novela Um lugar ao sol (2021-22), no papel de Rebeca, que deu visibilidade às mulheres maduras e colocou em discussão a sexualidade feminina. E, agora, consegue finalmente estrear o longa Ela e eu, filmado antes da pandemia e pelo qual recebeu os prêmios de melhor atriz e roteiro (em parceria com o diretor Gustavo Rosa e Leonardo Levis), no Festival de Brasília do ano passado.

No filme, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (21/07), Andrea interpreta Bia, que, na juventude, entra em coma devido a uma complicação no parto de sua filha. Vinte e cinco anos depois, na cama, de cabelos brancos, ela é cuidada pela sua filha, a agora jovem Carol (Lara Tremouroux), pelo marido Carlos (Eduardo Moscovis) e pela atual mulher dele, Renata (Mariana Lima). Um dia, Bia acorda. E, assim como ela precisa reaprender a falar, a andar e a comer sozinha, a família precisa reaprender a estar com ela de fato presente.

Ela e eu | Trailer Oficialwww.youtube.com


Trabalhar em roteiros é algo relativamente recente na carreira de Andrea. Ela começou a brincar com textos em Verônica (2009), um projeto feito com Maurício Farias, seu marido desde 1994, pai de seus três filhos e que a dirigiu tanto no seriado Tapas & beijos (2011-2015), que ela protagonizou com Fernanda Torres, quanto em Um lugar ao sol. Depois, escreveu o roteiro de Antígona 442 a.C. (2021), também dirigido por Farias. O filme é baseado em uma versão modernizada da tragédia clássica grega Antígona, de Sófocles, que a atriz criou e encenou com o diretor Amir Haddad em 2016. Em Ela e eu, o convite partiu do diretor Gustavo Rosa.

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Em entrevista à ELLE, a atriz e roteirista de 58 anos falou sobre morte, da passagem do tempo, da pandemia e da sexualidade feminina representada em Ela e eu e em Um lugar ao sol:

O que te interessou mais em fazer a Bia em Ela e eu?
Eu achei o argumento muito bonito, de ser alguém entregue a uma total limitação, quase a uma inutilidade real. E o não abandono daquela pessoa. Esse ponto de vista da história me interessou muito, porque é difícil você lidar com uma pessoa com tantas limitações. São casos que acontecem. Talvez não seja tão comum ficar 25 anos em coma, mas a gente lida muito com a nossa falência. Ela é real. A gente envelhece, tem problemas, às vezes até antes disso. Achei muito legal a possibilidade de falar sobre esse assunto, que é sempre tabu. É muito difícil lidar com a falência de alguém que a gente ama muito.

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Andrea em cena de "Ela e eu"Fotos: Divulgação


Fazer o filme foi uma maneira de pensar mais no assunto?
Foi. Já tive alguma coisa parecida na minha família, mas não no núcleo mais próximo. O marido de uma pessoa de quem eu gosto muito, teve um problema muito parecido e ficou muitos anos na cama, sendo muito bem cuidado por ela. E casos de outros amigos e amigas que já vi passarem por essa situação. São muitas as dificuldades, as angústias que isso acarreta. Mexe demais com quem está em volta. E acho que pensar nisso não é uma coisa mórbida. É pensar em um aspecto da vida. Isso está posto. Pode acontecer.

É interessante porque a Bia acorda quando está mais velha, mas ela entra em coma na sua juventude. O filme é muito sobre como não dá para planejar a vida.
Esse é o grande mistério. O que vai acontecer nos próximos cinco minutos? Está tudo encaixado, em harmonia, acontecendo de uma maneira confortável e de repente algo ocorre, e sua vida vira de cabeça para baixo. A sua e a de muitos. Acho que isso tem beleza porque faz parte da gente. É humano demais.

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A Bia quase tem um olhar de criança. É uma lição, não?
Sim. Eu acho que a gente é muito arrastado pelo nosso cotidiano, pelas coisas que a gente faz, nossas tarefas, nossos desejos, vontades e planos. A gente vai como uma locomotiva. E em alguns momentos da vida, tem de deparar com a extrema dificuldade de segurar um copo. De se levantar. Acho muito bonito no filme e na vida esse lugar do tudo novo de novo, de “não sei mais fazer isso agora, desse jeito”. Há uma possibilidade de um reencontro com um final feliz. Porque na vida a gente não tem garantia do final feliz permanente. A gente não sabe nada. Em muitas pessoas que sofrem acidentes ou passam por doenças ou distúrbios graves, você vê uma coisa meio atlética em reaprender um pequeno gesto. Não prestei atenção a nenhuma vez em que bebi água hoje. Não percebi quão fina é a sintonia de conseguir levar um copo à boca sem derramar. Ao longo da nossa vida, a gente vai não se dando mais conta de certas habilidades impressionantes que tem, e às vezes a vida chama a gente para voltar cem casas.


Como foi a pandemia para você?
Fui muito rigorosa comigo, com minha família, com meus filhos. Não saí de casa. Acho que fiquei um ano e pouco sem sair. Eu ia levar o cachorro na rua e voltava. Até porque eu moro em Copacabana, em frente à praia, e era muito impressionante ver a rua completamente vazia e nenhuma pegada na areia. Parecia um filme de ficção científica, sabe? Fui muito obediente. Sou até hoje. Não vou a lugares fechados sem máscara, de jeito nenhum. Para ir para o trabalho, eu testo. Quando estou com alguém que eu não conheço direito, mantenho a máscara e depois faço um teste. Não só por mim, mas pelos outros. Outro dia, sonhei que a gente não usava mais máscara. E era muito bom. A gente até esquece que as pessoas têm boca.

Como foi fazer a novela Um lugar ao sol em plena pandemia?
Foi o máximo. Conhecia muita gente, porque sou muito dinossauro na Rede Globo, estou lá há 40 anos. Mas, com o pessoal novo, eu ficava trabalhando, trabalhando, e um dia eu falava: “Vou me afastar, e você tira a máscara para eu ver sua boca e o final do seu nariz, para um dia eu te encontrar em outro trabalho e saber que eu trabalhei com você”. Era uma experiência sensorial (risos). A gente teve o SUS maravilhoso, médicos incríveis falando incansavelmente, cientistas do mundo todo, e algo de bonito aconteceu nesse sentido. Mas eu também não acredito em “nós saímos melhores dessa pandemia”.

"Sou pessimista, mas tenho esperança"

Muitas mulheres vêm abraçando seus cabelos brancos. No filme, por causa do papel, você aparece assim. Como vê esse movimento?
Eu achei legal. Fiquei com três ou quatro dedos de raiz branca durante a pandemia porque não sei pintar o cabelo. Unha, eu já não faço há bastante tempo porque a manicure da minha vida partiu. A Dilza era uma das minhas melhores amigas. Pensei que ia ficar de cabelo branco ou raspar, porque achei feios aqueles quatro dedos meio acaju, porque vai desbotando. Aí eu pintei o cabelo porque a personagem pedia, dei um corte, ficou legal. Mas eu quero ter o cabelo branco um dia. Ainda não estou com vontade, não. Mas acho lindo.

O filme aborda as sexualidades femininas de forma muito natural. Sua personagem na novela também foi marcante por lidar da mesma forma com o tema. Acha que as coisas estão mudando?
Sim, acho que as coisas estão mudando. Forças muito interessantes estão se movimentando. Placas tectônicas. Espero que a gente tenha um país melhor nessa eleição agora, que a gente faça uma limpeza, um detox total. Acho que as coisas estão mudando e vão mudar muito mais. Tenho muita esperança nisso. Sou pessimista, mas eu tenho esperança (risos).

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