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Cortado, comprido, trançado, tingido, aparado ou escovado, descolorido, descabelado, bonito, cruzado, seco ou molhado. Mas vem cá, cadê a parte dos cabelos brancos?! Cabelo branco não é sobre ser desleixada, e também não é coisa de quem não quer assumir a idade. Cabelo branco é uma escolha e todas deveríamos ter a chance de fazer nossas escolhas com autonomia. O problema é que muitas vezes a gente acha que é uma escolha com autonomia e, na verdade, existe toda uma narrativa por trás nos levando a fazer um tipo único de escolha.

Muitas de nós estão entrando em contato com os grisalhos pela primeira vez. Seja pela idade, pela genética ou mesmo pela quarentena que nos obrigou a encará-los. Então, pela liberdade de escolha, vamos fazer uma incursão pela história?

Colorir os cabelos tem sido um dos atos mais representativos de embelezamento realizado por homens e mulheres desde a Antiguidade. A história registra que há mais de três mil anos os egípcios foram os primeiros a desenvolver a técnica de tintura de tecidos e de cabelos, utilizando inúmeros corantes que extraíam da matéria animal e vegetal como a camomila e a henna. Esses mesmos corantes foram utilizados por muitas civilizações no decorrer dos séculos passando pelos gregos, romanos, hebreus assírios, persas e nas culturas contemporâneas, sucessoras dos antigos chineses e hindus até os dias atuais.

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Na Antiguidade, por exemplo, as tinturas de cabelo eram feitas com amoras esmagadas e extratos de plantas, e aplicadas nos cabelos como um creme rinse. Mas o tempo passou e pintar o cabelo não é mais só vaidade. Enquanto Brad Pitt e George Clooney são considerados cada vez mais sexys com seus cabelos brancos, as mulheres ainda são vistas como desleixadas, e passam a ser carta fora do baralho à medida em que envelhecem.

No mercado de trabalho, então, a coisa só piora: somos quase obrigadas a esconder nossa idade — e nossos fios brancos — se quisermos concorrer a uma vaga. Mas de onde vem isso? Vamos à história mais uma vez.

Desde sempre, a tarefa mais importante de qualquer espécie foi garantir que ela não fosse extinta. Mas homens e mulheres funcionam de maneiras diferentes. Enquanto um homem pode fazer um filho até seu último dia de vida, as mulheres só podem gerar uma criança enquanto estão ovulando. Então, para garantir que o mundo não acabasse deserto, a natureza deu um jeito do homem não perder tempo com qualquer fêmea. Como? Fazendo com que eles transassem muito mais com as que ovulavam.

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E sabe o que aconteceu? Por sentirem-se atraídos pelas mais novas, já que só elas poderiam garantir o futuro dos genes deles, eles acabaram associando juventude à beleza. Resumindo bastante, está gravado em nosso inconsciente que ser bonito é ser jovem. E como ser jovem está associado a ser produtivo, então, as mulheres que não aparentam ser jovens acabam sendo associadas a algo próximo ao... "inútil".

Isso pode explicar porque tantas de nós, mesmo sem entender muito bem o porquê, pintam o cabelo. Além disso, o sistema capitalista não deixa barato esse nosso poder de escolha. Ele empurra goela abaixo a necessidade que temos de pintar o cabelo, agindo diariamente contra nós por meio da mídia.

Mais do que batons e cremes, os cosméticos nos vendem o "medo da feiura" quando nos sugerem padrões de beleza que eles mesmos criaram para criarem em nós uma necessidade que originalmente não existia. É um círculo sem fim e, certamente, não vamos conseguir quebrar isso tão facilmente em uma única geração.

E sobre pintar o cabelo em casa, vale um pouquinho mais de história para percebermos que fomos pouco a pouco engolindo uma narrativa que foi inventada PARA nós. E não POR nós!

Até o começo do século XX, por exemplo, as mulheres pintavam o cabelo no salão porque a química era muito pesada. Então, para incentivar as mulheres a pintarem em casa e venderem um produto recém-descoberto, a propaganda que fizeram foi cruel.

Infelizmente, eles disseram (e nós acreditamos) que "cabelo grisalho é a ruína do romance". Numa época em que a mulher não podia trabalhar fora e, portanto, não conseguia garantir o próprio sustento, o medo de perder o marido provedor para alguém mais jovem (ou que parecesse mais jovem porque pintava o cabelo) era o pior pesadelo de qualquer dona de casa. E, até hoje, mulheres no mundo todo pintam seus cabelos brancos para esconderem sua idade e se sentirem aceitas pela sociedade.

Mas nem tudo está perdido. Lá nos anos 70, os cabelos coloridos vieram como um dos símbolos da contracultura punk o que foi o start dessa moda de cabelos coloridos que existe até hoje. Hoje, pintar o cabelo com cores como azul, rosa ou verde, ou simplesmente não pintar o cabelo e assumir os brancos, passou a ser visto como um ato político, que representa a liberdade de escolha.

Atualmente, no mundo todo, já existem vários movimentos pró-madeixas brancas como o #silversisters, o #goinggraygracefully, o #grayhairmovement. Aqui no Brasil, recentemente foi lançado o documentário Branco & Prata, em que várias mulheres contam como passaram seu processo libertador de revolução branca.

E o que antes era visto como rebeldia ou até desleixo agora já é encarado por muitas como novo estilo de vida. Essa libertação feminina também gerou uma demanda nova no mercado da beleza. Os salões perceberam novas clientes querendo fazer a transição ou a manutenção dos brancos.

Cada vez mais mulheres estão desapegando da necessidade de pintar os cabelos quando os fios começam a perder a cor. Afinal, qual é o problema de assumi-los maduros e naturais? Então, você que está aí na quarentena, tem a oportunidade de flertar com os seus e experimentar um jeito novo de se olhar. E tudo bem se você não curtir ou nem quiser experimentar. Pelo menos agora que você já conhece a história, pode decidir se quer ou não ficar com os cabelos brancos por você mesma e não pelo que sempre foi imposto pela sociedade.

Como dissemos lá no começo, o importante é fazer sua escolha com autonomia. Afinal, pintar ou não seus cabelos brancos não define quem você é. O importante é escolher o que te faz mais feliz.

Sem regra, sem tabu e sem preconceito.


Camila Faus e Fernanda Guerreiro falam sobre envelhecer em uma sociedade que tem dificuldade de entender que mulheres não são eternamente jovens. Nesta coluna, elas abordarão o assunto com humor e a seriedade que ele merece.


Apesar de ter dado seus primeiros passos rumo à diversidade, o conceito de beleza ainda é dominado por padrões hegemônicos e opressivos. Como chegamos a eles e por que esses ideais de beleza continuam tendo papel importante na emancipação das pessoas? Na busca por essas respostas, você também vai encontrar muitos motivos para quebrar paradigmas.

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