Carol Ribeiro no Oscar 2020 | Getty Images

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De Belém do Pará para o mundo, Caroline Ribeiro começou a carreira como modelo aos 16 anos. Já foi de Angels, da Victoria Secrets, musa de Tom Ford e rodou pelas passarelas mais famosas da moda. Em 2015, caiu nas telas, mas dessa vez, como apresentadora no canal TNT. Ela assumiu a missão de apresentar o tapete vermelho das grandes premiações internacionais: Oscar, Emmy (a partir de 2018), Globo de Ouro e SAG Awards. Já são sete anos entre entrevistas com artistas, conhecidos ou anônimos, e vários perrengues que quase ninguém vê.

Neste ano, a 93ª cerimônia da premiação do Oscar ocorre fora do calendário tradicional. Será domingo, 25 de abril, em Los Angeles, com um número reduzido de participantes e diferentes apresentadores. Também haverá conexões em Nova York, Londres e Paris. Aqui, você confere tudo o que precisa saber antes da premiação e a lista das 56 produções indicadas às 23 categorias.

Carol Ribeiro no tapete vermelho do Oscar 2017.Foto: Divulgação/TNT

Com limitações impostas pela pandemia, o tradicional tapete vermelho será reduzido. Carol, acostumada com a antiga dinâmica, diz sentir falta das aglomerações. Para ela, olhar no olho do entrevistado faz diferença e é possível sentir o quão aberto ele está – ou não – para conversar. Mas ela não vai ficar de fora da festa. No Brasil, Carol estará ao lado de Tiago Abravanel para fazer o Esquenta TNT, na TV e no Youtube, comentando o tapete vermelho e acompanhando as entrevistas feitas por Axel Kuschevatzky direto do tapete.

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E, apesar de não estar fisicamente no Dolby Theater ou na Union Station, o momento da escolha do look continua sendo parte fundamental da preparação da apresentadora. Direto do Uber, indo fazer a prova e escolha da peça da vez, Carol conta que sempre prefere vestir estilistas brasileiros, justamente para valorizar a produção nacional e divulgar a criatividade do país para o mundo. A seguir, em entrevista exclusiva à ELLE, ela conta curiosidades que a TV não mostra e relembra momentos marcantes desses anos de cobertura.

Como tem sido, neste contexto de pandemia, cobrir um evento que sempre reuniu tanta gente, como o Oscar?

Para mim, foi uma novidade. Estamos acostumados a viajar para lá (Los Angeles), chegar uma semana antes, ensaiar no tapete. Neste ano, estamos fazendo pré-show, em estúdio, no Brasil. É a primeira vez desde que começou a pandemia que uma premiação vai ter tapete vermelho. É quase no formato antigo, mas com umas diferenças. Nós vamos pegar as entrevistas do Axel Kuschevatzky (apresentador que cobre as premiações na América Latina). Eu senti falta do tapete no Globo de Ouro, e o Oscar, como é mais tradicional, arrumou essa forma de entregar os prêmios. É realmente uma incógnita e estou curiosa para saber o que vai acontecer.

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Qual a sua expectativa para esse novo formato?

Tenho a impressão de que, ao assistir, vamos achar a mesma coisa de sempre. Até pelo fato de ter o tapete, a única diferença é que eles serão em vários locais. Eu estou torcendo para voltar ano que vem, porque a emoção é diferente.

Que diferença você sente da sua primeira cobertura para essa, que é a sétima? Como lidar com o nervosismo?

Hoje eu já conheço o ambiente, então, dá uma calma por saber a logística. Você se acostuma com as partes técnicas. Até com o encontro com as celebridades você vai se acostumando. Claro que, por exemplo, dá um nervoso quando você vê uma Regina King, mas depois você se acalma. É legal essa história do olho no olho. Aprendi que é muito de sentir o mood, o espírito da pessoa na hora, entender se ela está a fim ou não de conversar. E, se você olhar no olho da pessoa, você tem essa resposta, você sente e tem que buscar essa calma. O nervoso é o mesmo e só passa depois que rola, pelo menos, a terceira entrevista. Aí, começa a ser muito rápido, porque a primeira hora vai chegando aos poucos. Na última uma hora e meia de tapete, começam a chegar os melhores diretores, atores e produtores, então, é uma entrevista atrás da outra, nem dá tempo de sentir esse nervoso.

É muita gente mesmo, imagino que seja necessário alguma estratégia para conseguir falar com os mais famosos.

Quanto mais grita, mais eles fogem. É uma linguagem corporal que você vai aprendendo. A estrela da noite é o entrevistado, estou lá para entrevistá-lo... Então, a gente tem que saber brincar. Digo que é um jogo de ego no tapete.

Essa sensibilidade é essencial, não é? De conseguir sentir a abertura da pessoa para conversar...

Sim! E você sente isso. Por exemplo, comentei da King: ela sabe quem é e entende que as pessoas ficam nervosas, mas de forma alguma ela se sobressai, ela te acalma com o olhar. Então, quanto mais seguro é o ator, quanto mais tempo está no mercado, mais generoso ele é com a gente. Por conta dos papéis, a gente cria um estereótipo na cabeça. Eu também lembro do Billy Bob Thornton, no Globo de Ouro. Tinha receio de não conseguir entrevistá-lo, mas vi que ele não é o personagem. Você vai quebrando as imagens que cria.

Nestes sete anos, tem algo que foi muito marcante para você?

Sim! Deixa eu pesquisar aqui o nome da atriz, que esqueci… Uma curiosidade (risos): sou péssima com nomes. Mas achei! É a Indya Moore. Entrevistamos ela e a Dominique Jackson juntas; elas pararam para falar da (série) Pose, que havia sido indicada ao Emmy. Eu praticamente chorei na entrevista, até não usamos porque ficou muito densa. Ela falou do espaço que ocupa, e até quando precisaria representar uma pessoa trans. Disse ter orgulho, mas ao mesmo tempo, queria ser vista como uma mulher, como uma pessoa e não com uma tarja. Aquilo me marcou muito. A gente coloca as pessoas em um local que não é real... Cada um está passando pelo seus nós internos. Escutamos alguns discursos (ativistas), e isso tem crescido. Tem gente que fala que "Oscar não é palanque", mas é sim, é um meio que tem sido usado para levantar bandeiras importantes para sociedade. Isso eu percebi aumentar nos últimos três anos. Os filmes estão falando de assuntos necessários, relevantes, a maioria é de ativismo, até os filmes de animação. O quanto a indústria do cinema e quem faz parte dela tem levantado questões importantes tem me marcado muito.

Tem gente que fala que 'Oscar não é palanque', mas é sim, é um meio que tem sido usado para levantar bandeiras importantes para sociedade.

Você sente que tudo isso, ouvir tantas histórias, também provoca mudanças em você?

Muda seu olhar. Você começa a ver o outro com uma generosidade. Para de ter tantas certezas, e acho que isso vem também com a maturidade. Acredito que todo mundo, onde quer que esteja, tem que aproveitar os ambientes que frequenta para observar e aprender. Sempre digo que hoje eu acho isso, amanhã pode ser que eu não ache mais, pois vou aprender com alguém. Sempre temos algo a aprender. O cinema te ensina muito, estar em contato com pessoas que julgamos viver em um mundo diferente, mas às vezes nem é tão diferente assim. São pessoas reais, que fazem um trabalho incrível, mas que têm uma história por trás disso. Isso me faz repensar bastante as minhas atitudes.

Você comentou do ativismo levantado nas premiações, e como o Oscar é bastante tradicional. Como você analisa essas mudanças?

Os atores sempre tiveram essa necessidade da fala. Cada pessoa vem com sua história para contar, seja por meio do filme ou uma bandeira que ele levanta. Podemos lembrar da Natalie Portman, ano passado, com casaco bordado com os nomes das diretoras que deveriam ter sido indicadas, as esquecidas da Academia. Ali foi uma forma silenciosa de falar. Tanto que, esse ano, a gente viu a Academia com duas mulheres indicadas. Ela se move lentamente, mas em 2021 temos o Oscar mais diverso da história. Acho que isso tem a ver com os streamings. Infelizmente, a situação que vivemos hoje nos forçou a enxergar outros meios, e o streaming abre mais portas e ajuda a democratizar. Existem filmes que talvez não seriam considerados pela Academia, não fosse a atual situação, filmes mais alternativos. Acho que, de certa forma, toda situação está fazendo com que o mundo seja mais diversificado, e a Academia tem que seguir isso e percebe que, se não seguir, não consegue se manter.

Look de Natalie Portman, usado no Oscar 2021, com os nomes de diretoras não indicadas ao prêmio.Foto: Getty Images

Qual a parte nada glamourosa das premiações?

A gente acorda às seis da manhã, começa a maquiagem. Às 11 horas, estamos no tapete e saímos de lá só sete horas da noite. Essa parte é zero glamour, esses horários são bem loucos. Tomamos no máximo água, não temos como ir ao banheiro, é tudo bem apertado. Lembro que no meu primeiro ano de Oscar, em 2015, choveu e molhou tudo: camêra, luz… Foi uma loucura. Eles até montaram uma tenda de um plástico mais fino e transparente, mas a chuva acumulou e caiu em cima da (cobertura) latina, a gente só ouvia gritaria, o tapete todo molhado… Tenho vídeo das pessoas passando correndo com rodo na mão. São coisas engraçadas que eu falo 'não acredito que estão acontecendo aqui.'

Realmente, isso a gente não vê na televisão!

Sim! Houve uma outra história engraçada: o Jamie Dornan, aquele ator de 50 Tons de Cinza. Ele não estava em nenhuma lista, nenhum filme estava indicado, então, sabe quando você apaga a pessoa da mente? Aí, ele apareceu na minha frente, vimos chegando cada vez mais perto… Eu estava quase virando de costas, e ninguém da minha equipe conseguia lembrar quem era. Mas comecei a entrevista e, em dado momento, ele mencionou quem era e que filme havia feito. Até comentaram no Twitter depois: "Nossa, a Carol esnobou o Jamie". Mas você fica na cabeça com o nome das pessoas indicadas e que vão se apresentar, então, se não aparece nos estudos, meio que se apaga da sua memória. Eu digo que é como um HD. E ele, Jamie, não estava no meu HD naquele momento, então, foi muito engraçado.

Quanto ao seu tapete vermelho, como é sua escolha dos looks?

Este ano, vamos buscar algo que deixe claro que não estou no tapete vermelho. Já trabalho há anos com o Juliano (Pessoa) e o Zuel (Ferreira), então eles vão atrás de looks de estilistas brasileiros. Faço muitas provas, são muitas opções até chegar a um look com que eu me sinta bem. Tenho que estar glamourosa o suficiente pra gostar do que estou vestindo, mas tenho que me colocar no lugar de entrevistadora, de âncora do Brasil. Desde o primeiro ano, isso ficou claro: sim, faço meu trabalho e tento fazer da melhor forma possível, mas a estrela da noite é a Nicole Kidman, por exemplo. Existe um bom senso para não ficar nem demais, nem de menos. Nesses anos todos, somando as outras premiações, só usei dois looks estrangeiros. Este ano, não sei se vamos conseguir, porque tem o cenário do estúdio, mas a gente sempre dá preferência para estilistas brasileiros, pois acho um momento que temos a oportunidade de levar esses nomes para fora. Um vestido que marcou muito foi o da Martha Medeiros, no Globo de Ouro. Também foram marcantes um do Reinaldo (Lourenço) e um do Sandro Barros. As pessoas me paravam paravam para perguntar de onde era, até as atrizes mesmo. Lembro da Mariah Carey, que passou por nós, e depois sua assistente veio perguntar de onde era o vestido.

Carol Ribeiro usando Martha Medeiros no Globo de Ouro, em 2018.Foto: Reprodução Martha Medeiros

Por fim, o que mais você gostaria de compartilhar sobre essas experiências com os leitores da ELLE?

Lembro que, quando comecei, falava que não entendia de cinema. Mas o chefe da TNT me disse que eu não precisava entender, precisava gostar. Sou curiosa, gosto de estudar, então, hoje em dia, sou viciada em cinema. Acho que a experiência que tiro é que tudo o que você se propõe a fazer, você estuda e aprende. Se tem os meios, você consegue.

É sempre um aprendizado mesmo, inclusive essa troca com as pessoas entrevistadas…

Essa questão da troca com as celebridades é bastante uma desmistificação. Você pode admirar, mas ao mesmo tempo humaniza. Vê-las de perto, olho no olho, tira do pedestal. Não é diminuindo, ao contrário. É entender que ninguém é melhor que ninguém. Naquele momento, as estrelas da noite são elas, mas todo mundo tem algo para ensinar.




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